quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ganhei um selinho


Ganhei este selinho da Carla Martins, do blog leituramaisqueobrigatoria.blogspot.com/ .
Eu conheci o blog dela “xeretando” outros blogs sobre livros e literatura na Internet.
Gostei muito do que vi e decidi enviar um comentário, descobrimos depois que somos parcerias de profissão e acabamos adicionando uma a outra, cada qual nos blogs favoritos.
Nas visitas diárias que faço ao seu blog, sempre vejo lindos selinhos nas postagens, e ficava imaginando como é que se conseguia um deles, até que a semana passada ela postou este que está acima e indicou meu blog nele.
Minha tarefa agora? Só preciso indicá-lo para 10 blogs.
Então aí vai:

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Em defesa dos animais


Quando eu era criança, um de meus passeios prediletos era ir a circos e me entreter com os espetáculos que eles promoviam. Ficava fascinada, por exemplo, com as acrobacias dos equilibristas, malabaristas e contorcionistas; morria de rir com as estripulias dos palhaços; e quase parava de respirar na apresentação do motociclista, que dava inúmeras piruetas no globo da morte.

O show dos mágicos era um acontecimento à parte, que me envolvia do início ao fim, fazendo meus olhos ficarem bem abertos para não perder nenhum detalhe. Esperava, assim, descobrir qual era o truque utilizado, mas é claro que nunca acertei.

O grande momento, no entanto, era a entrada dos animais no picadeiro, e a demonstração de obediência desses ao simples comando do domador. Além disso, era uma oportunidade rara de ver e conhecer mais de perto esses bichos.

Com o passar do tempo, porém, todo esse encantamento começou a ruir. Descobri os maus tratos a que eram submetidos os animais e fiquei bastante indignada. Sofri muito, pois pensava que ao prestigiar aqueles espetáculos eu, de certa forma, fora conivente com a situação, mesmo sem saber o que acontecia por detrás da lona.

O fascínio então acabou e só voltei a respirar mais aliviada com a criação de uma lei que impede a exibição de animais no circo.

Esta minha pequena história voltou à cena neste final de semana, ao vê-la repetida em um pequeno livro infanto-juvenil, intitulado O Valente Domador, lançado este ano pela Editora Scipione. E, é claro, não pude conter a emoção.

Com belíssimas ilustrações de Simone Matias, que por sinal é minha amiga, a obra é de autoria do educador César Obeid, que trabalha com literatura de cordel. Um pequeno currículo do autor, encontrado no final do livro, conta a experiência dele com circos, bastante semelhante com a minha. A identificação foi rápida e me apaixonei pelo livro.

A história gira em torno de um valente domador que, ao simples estalo do seu chicote, fazia macacos, leões, ursos e elefantes obedecerem suas ordens. Quando chegou a lei proibindo os maus tratos de animais no circo, ele ficou sem chão, e então teve de aprender uma nova forma de encarar a vida e os animais.

Nesta semana em que comemoramos o Dia das Crianças, o livro me pareceu bastante providencial. Uma leitura que vale a pena, seja você criança ou não.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A vida que surpreende


– O objeto livro está em extinção?
– Não, e lhe digo por quê: a leitura é uma das raras experiências humanas em que dois estranhos se encontram numa situação de suposta intimidade. E é por isso que ainda descobrimos um pouco de humanidade nesse tipo de experiência. É insubstituível. Trata-se de um importante elemento para estar vivo; abrigo um para o outro, num nível profundo e aberto.

Este diálogo foi reproduzido do livro Perfis e como escrevê-los, de Sergio Vilas Boas, jornalista, escritor e também meu professor no curso de Jornalismo Literário. Eu o citei no post de ontem, mas achei que merecia um post exclusivo hoje.

O diálogo acima aconteceu entre Sergio e Paul Auster, escritor norteamericano, autor de Triologia de Nova York, e foi para mim um belo achado. Não é que eu não goste da modernidade, mas saber que um objeto tão antigo, tão amigo, tão íntimo possa subsistir em meio à avalanche tecnológica dos dias de hoje, é algo fabuloso.

Em Perfis, Sergio procurou retratar 12 personagens, cuja semelhança está no fato de serem todos escritores, alguns mais conhecidos, outros nem tanto, mas com histórias e características capazes de suplantar os famosos.

É o caso de Sérgio Sant´Anna, escritor carioca, que tem a obra e a vida centradas nas preocupações estéticas, filosóficas e linguísticas. Autor da novela A senhorita Simpson, que serviu de base para o filme Bossa Nova, de Bruno Barreto, e do livro de contos O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, entre outros, Sérgio Sant´Anna passava por um momento delicado quando Vilas Boas fez seu perfil. O texto está repleto de dúvidas existenciais, questionamentos sobre a vida e crises literárias que me tocaram bastante, como nesta passagem:

Só quem sofreu ou sofre a tormenta da lacuna – o papel branco ou a tela apagada diante de si, situações imponderáveis –, pode compreender por que um artista, privado de inspiração se sente tão ameaçado. É quase um ameaça de morte. Sérgio atravessou várias crises criativas na vida, mas esta agora tem sido de lascar. Reconhecemos que nosso encontro não ocorreu no melhor momento, mas ocorreu.

Outro perfil que me fascinou, pela emoção, foi o da Lya Luft, escritora gaúcha, autora do livro Perdas e Ganhos, entre outros. Seu poema O lado fatal, escrito quando da morte do psicanalista mineiro Hélio Pellegrino, com o qual viveu um romance por três anos, depois da separação do seu primeiro marido, o professor Celso Luft, é uma dessas jóias que fazem a gente pensar como alguém consegue exprimir, em tão poucas linhas e de maneira tão bela, as vicissitudes e as armadilhas da vida. Eis um trecho:


Nesta minha peculiar viuvez
sem atestado nem documentos,
apenas com duas alianças de pesada prata
e no peito um coração de chumbo,
instalo ao meu redor objetos que foram dele:
a escova de dentes junto da minha na pia,
o creme de barbear entre os meus perfumes,
e com minhas roupas nos cabides
a camisa dele de que eu mais gostava.
Na gaveta, vidros com os remédios
que o preservaram para o nosso breve tempo.
(Finjo a minha vida como ele finge a sua morte)

Só mesmo um escritor que se deixa envolver e imergir na história do outro é capaz de traduzir, em palavras, as belezas e as mazelas do ser humano.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A arte de escrever cartas


Quando eu era adolescente minha família mudou da capital paulista para Indaiatuba, cidade do interior de São Paulo, perto de Campinas. Na época, foi um grande choque para mim. Adorava Sampa, tinha vários amigos na escola que estudava e participava do movimento mariano na igreja de Santo Antonio do Pari. Chorei a viagem inteira e custei a me refazer na nova cidade e casa.

Para amenizar a saudade, comecei a escrever cartas, uma correspondência intensa imposta aos vários amigos que havia deixado em São Paulo e, que durou cerca de três anos. Mês a mês escrevia e recebia cartas. Era muito bom. E de certa forma elas continham um pouco da minha história, da história dos meus amigos, da história da nossa época.

Anos se passaram e eu me “acostumei” na nova cidade, fiz novos amigos, mas nunca deixei de lembrar dos “velhos” companheiros de São Paulo. Alguns eu mantenho contato até hoje, outros perdi pela passagem do tempo. São coisas da vida.

As cartas também se foram nos diversos caminhos das mudanças, com exceção de uma ou outra que guardei comigo. É uma pena. Como é uma pena que arte de escrever cartas tenha deixado de ter importância depois que o telefone se popularizou e, mais recentemente, com a chegada da Internet. Esta, sem dúvida, facilitou a comunicação interpessoal, mas deixou a desejar na profundidade em razão das mensagens e recados rápidos e sintéticos, repletos de abreviaturas, e da linguagem própria. O pior é que muitos são descartáveis e acabam “deletados” do nosso universo cibernético.

Às vezes as mensagens contidas em uma carta também podem ser colocadas num e-mail. Mas receber carta traz uma emoção completamente diferente daquela sentida ao receber um e-mail. O prazer de se chegar em casa e ver uma cartinha lhe esperando, a letra no envelope e as palavras escritas em cada folha, trazendo um pouco da pessoa que as enviou, ainda é algo difícil de ser reproduzido eletronicamente.

No livro Perfis e como escrevê-los, de Sérgio Vilas Boas, que acabo de ler, essa questão veio à baila quando o autor entrevistou Cristóvão Tezza, um dos escritores retratados por ele em sua obra:

– Como você difere uma carta tradicional de um e-mail?
– O e-mail tem a rapidez e a superficialidade de um telefonema, enquanto as cartas trazem um conteúdo peculiar. Elas podem desvendar a identidade tanto do remetente quanto do destinatário. O remetente exprime sua visão de mundo, sua autoimagem (pelo menos o que quer ser ou gostaria de ter sido), e o grau de intimidade entre ambos determina a linguagem utilizada.
– De fato, nos e-mails a noção de tratamento parece nos escapar.
– Ele permite uma superintimidade súbita entre pessoas essencialmente diferentes.

Pensando nessa coisa de escrever cartas, tenho uma amiga, a Gil, que está na contramão dessa história. Ela simplesmente adora escrever cartas e vira e mexe manda uma cartinha para os amigos que estão longe e mesmo os que estão perto. Com uma caligrafia bonita e caprichada, aprendida em um curso que fez sobre a arte, ela envia mensagens, historinhas e notícias recheadas de recortes e delicadezas em cartas de papel. Eu mesma já recebi várias, cada uma mais bonita do que a outra.

A tecnologia é indispensável, facilita nossas vidas e aproxima as pessoas – ainda que superficialmente –, mas não podemos deixar de lado práticas antigas que nos dão prazer e que alcançam os lugares mais profundos do nosso coração. E escrever cartas é, com certeza, uma delas.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sobre um homem chamado Alfredo


Ele gostava de música clássica, seus livros favoritos eram sobre filosofia e religião, encarava o trabalho com seriedade, tinha por hobby o futebol – não como jogador (se bem que quando jovem chegou a jogar por lazer), mas como torcedor – e passava a maior parte do seu tempo livre com a família.

Sempre que lembro do meu pai essas imagens me vêem a cabeça, a de um homem culto, responsável, cumpridor dos seus deveres, brincalhão, às vezes bravo, mas extremamente amoroso. Ele se foi há exatamente 17 anos e ainda hoje sinto a sua falta, mas com a certeza de ter tido o privilégio de conviver ao seu lado por mais de 30 anos.

As recordações que mais tenho dele são da infância, das brincadeiras, dos passeios ao zoológico, ao circo, ao cinema, ao teatro, ao estádio de futebol... Sim, meu pai levava eu e minha irmã para assistir jogos, ainda mais se estes fossem do Palmeiras, seu time do coração. Com meu pai aprendi a ser palmeirense, a gostar de futebol, a acompanhar partidas, a assistir as transmissões de jogos pela televisão e a se divertir com os debates e as brigas dos comentaristas nos programas esportivos. Mais tarde, já adulta, lembro de nós dois acompanhando as corridas de Fórmula 1, nas manhãs de domingo, quando ainda estavam em evidência Emerson Fittipaldi e depois Nelson Piquet.

Também das manhãs de domingo, mas as da minha infância, recordo quando íamos – ele, minha mãe, minha irmã e eu – à missa das crianças na Paróquia de Santo Antonio do Pari, com direito a participar da distribuição de doces ao final da cerimônia. Dali seguíamos para casa, não sem antes parar na banca de jornal para conferir as últimas novidades, comprar os matutinos e algumas revistas infantis, como a Recreio, minha favorita, na época.

Meu pai era um colecionador nato. Tudo o que aparecia de novo no jornaleiro ele comprava. Foi assim que eu e minha irmã ganhamos a coleção dos clássicos infantis, com uma revistinha, acompanhada de um disquinho (vinil) que narrava a história de Mogli o menino lobo, Os três porquinhos, Pedro e o lobo, Branca de neve e A bela adormecida, entre outros. E ainda uma coleção de Ciências, com fascículos sobre os principais cientistas e descobridores, acompanhados de uma caixa repleta de materiais, como microscópio e equipamentos para experiências científicas. Além destes, uma outra coleção sobre Os Pensadores, aqueles magníficos filósofos que se embrenharam na tarefa de compreender e explicar o mundo em que vivemos.

Para acomodar todos esses livros e coleções, acrescidos mais à frente com a enciclopédia Barsa (toda família que se prezasse na década de 1970 tinha de ter uma, hoje com a Internet isso é impensável), tínhamos uma bela estante em nossa sala. Ela nos acompanhou durante muitos anos, mas, por circunstâncias das várias mudanças de casa, inclusive de cidades, tivemos de nos desfazer de boa parte dela, mesmo porque alguns livros começaram a ficar defasados.

Hoje, pouca coisa restou daquela nossa biblioteca. Eu cresci, estudei, me formei, comecei a atuar como jornalista. Comprei meus livros e construi uma nova biblioteca no meu guarda-roupa. Do meu pai guardei apenas dois livros de Os Pensadores e mais dois bem pessoais e bastante antigos: Pais de Sacerdotes e um outro sobre o estudo da língua grega. Destes eu não quis abrir mão, acho que eles sintetizam um pouco parte daquilo que ele foi e gostava. E essas coisas são difíceis de se desfazer, mesmo porque, no íntimo, eu não quero.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Apesar de você


Por falar nas várias interpretações literárias, lembrei-me de uma outra, mas relativa à letra de música, principalmente por tê-la ouvido no final de semana.

Quando li, tempos atrás, Chico Buarque (Série Perfis do Rio, da Relume Dumará Editora), de autoria da jornalista Regina Zappa, uma passagem, em especial, me chamou bastante atenção: segundo a jornalista em seu livro, Chico Buarque disse algumas vezes que nunca havia feito música de protesto, com exceção de Apesar de você, composta nos anos de 1970 e, conforme ele, sua composição mais alegre. Os militares devem ter percebido esse tom de protesto, mas...

“A explicação que Chico deu aos censores sobre aquela música não devia ser muito convincente. Dizia que era simplesmente sobre um galo que acreditava piamente que o dia amanhecia por causa de seu canto. Uma noite, caiu na farra e perdeu a hora. O sol nasceu mesmo assim, apesar de você. Chico driblava a censura, mas não conseguia se livrar das interpretações que suas músicas ganhavam... Virou assunto dizer que Apesar de você tinha sido escrita para o general Médici... Saturado com as proibições, Chico tomou uma decisão e criou o nome de guerra Julinho da Adelaide”, relata Regina no livro.

Os três primeiros versos têm múltiplos significados e poderiam se referir a uma relação de autoridade entre pai-filho, patrão-empregado ou quem sabe até uma relação amorosa. Mas, à medida que avançamos a letra fica clara a posição de Chico. Eram os anos de 1970, da ditadura e repressão militar, período em que a censura vetava toda e qualquer manifestação artística que pudesse conter duplo sentido. E Chico sentiu tudo isso na pele, indo para o exílio e compondo músicas que refletiam aquele momento.

Para mim, Apesar de você é uma das músicas mais belas que Chico já fez. Acho que ele resumiu o que muitas pessoas queriam falar naquele momento. Quer lembrar?

Apesar de você

Hoje você é quem manda
falou, tá falado
não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
falando de lado e olhando pro chão
viu?
Você que inventou esse estado
inventou de inventar
toda escuridão.
Você que inventou o pecado
esqueceu-se de inventar o perdão.

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
da enorme euforia?
Como vai proibir
quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
e a gente se amando sem parar.
Quando chegar o momento
esse meu sofrimento
vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido,
esse samba no escuro.
Você que inventou a tristeza
ora tenha a fineza
de "desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
cada lágrima rolada
nesse meu penar.

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
o jardim florescer
qual você não queria.
Você vai se amargar
vendo o dia raiar
sem lhe pedir licença.
E eu vou morrer de rir
e esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
a manhã renascer
e esbanjar poesia.
Como vai se explicar
vendo o céu clarear, de repente,
impunemente?
Como vai abafar
nosso coro a cantar,
na sua frente.
Apesar de você

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Homenagem ao amigo

Entrega

Não fiz por mal
antecipar a outra
o dia da entrega.
Nada fiz por mal
porque a outra
interpôs-se entre nós
e antecipou para ela
o dia da entrega.


O que estes singelos versos, do saudoso jornalista e amigo, Arthur Francisco Baptista, querem dizer?
À primeira vista pode parecer um mal entendido entre dois amantes, um triângulo amoroso talvez, ou alguma coisa semelhante. Mas, na verdade, eles não significam nada demais.
Arthur escreveu os versos para mim, quando trabalhávamos juntos em uma agência de comunicação na década de 1990. Tínhamos uma matéria, cada qual, a entregar para nossa editora e combinamos de entregá-las juntos. Só que ele terminou antes e acabou entregando o trabalho primeiro. Claro, fiquei bronqueada com ele e, para amenizar, dedicou os versos a mim.
Eles foram publicados em uma Antologia de Poesias da Editora Shogun Arte. Não me recordo ao certo, mas Arthur fazia parte da União Brasileira de Escritores – UBE, fundada em 1942 por Mário de Andrade, Sergio Milliet e Manuel Bandeira. Em 1958, fundiu-se com a Sociedade Paulista de Escritores, que originou a UBE, passando assim a ter âmbito nacional.
Lembrei dos versos esta semana, pois se estivesse entre nós, Arthur estaria aniversariando agora, dia 4 de outubro. Então fica aqui a minha homenagem a ele.