Já se passaram seis anos do blog...
Um pouco ausente agora, mas voltando em breve.
Blogs sobre livros e literatura existem vários. Todos muito bons e, como boa leitora, sou fã incondicional da maioria deles. Mesmo assim, arrisquei-me em criar um. Neste blog quero falar não só de livros, mas também da leitura que faço deles e do ato de ler. Não só. Quero ainda abrir um espaço para minhas observações, da vida, do cotidiano, das pessoas. É uma forma de registrar as minhas impressões e compartilhá-las. A quem se dispuser a ler, espero que aprecie, comente e divulgue.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
De onde vem o Português?
Linda e rica, a língua portuguesa vai
muito bem, obrigada. É a sexta mais falada no mundo, sendo usada por mais de
250 milhões de habitantes. O português é a língua oficial em oito países:
Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, além de Goa (estado da Índia) e Macau (região administrativa especial na China), em cada um com características e peculiaridades diferentes.
Mas você já parou para pensar de onde
vem o Português? A resposta parece óbvia: de Portugal, com certeza. Mas, para
aprofundar melhor nessa discussão, o livro De
onde vem o Português?, com texto de Susana Ventura e ilustrações de Silvia
Amstalden, se coloca nessa missão, para deleite dos “marinheiros de primeira
viagem” ou ainda para “um capitão das Letras”.
No livro, publicação da Editora
Peirópolis, Susana nos leva a “navegar pelas origens da Língua Portuguesa”, por
meio dos “castelos medievais na Península Ibérica até às terras além-mar”. Em
linguagem fácil e direta, ficamos sabendo das mudanças pelas quais o idioma
passou, seus primeiros contadores de histórias que ajudaram a divulgar suas
façanhas, os navegadores que levaram o idioma a outras terras e sua difusão
pelo mundo.
As ilustrações de Silvia dão um colorido
todo especial à narrativa de Susana, fazendo-nos navegar tranquilamente pelas
páginas, numa aventura bastante prazerosa. E o que é melhor, um belo incentivo
à leitura.
terça-feira, 26 de maio de 2015
A ajuda que vem dos voluntários
Em uma sociedade
cada vez mais consumista e cercada de todas as facilidades que a vida moderna
proporciona, é preciso destacar as iniciativas voltadas para a gentileza e o
trabalho comunitário. É o que fazem, por exemplo, os voluntários, pessoas
abnegadas que, por iniciativa própria, prestam serviços à comunidade ou
organizações institucionais e não governamentais, dispondo do seu tempo para
levar auxílio e conforto aos necessitados.
E é exatamente este
o foco do livro Faces da ajuda
humanitária: a saga de voluntários da Cruz Vermelha, da jornalista Sibele
Oliveira, que será lançado nesta quinta-feira, dia 28 de maio, a partir das
18h30, na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo.
Publicado pela Chiado Editora, o livro traz perfis de dez voluntários da
entidade que dedicam parte de suas vidas a assistir vítimas de conflitos
armados, catástrofes naturais e outros desastres.
Este é o primeiro
livro publicado pela jornalista, que tive o prazer de ler, em primeira mão,
quando ela o estava escrevendo. Conheci Sibele em 2009, nas aulas de
Pós-graduação em Jornalismo Literário, da Associação Brasileira de Jornalismo
Literário – ABJL, e de lá para cá, acompanhei seu processo de escrita e sua
vontade de levar ao conhecimento da sociedade o trabalho do voluntariado.
Dentre os perfis
traçados no livro, está o da psicóloga Melissa Couto, que auxiliou parentes e
amigos dos 242 jovens mortos no incêndio da boate Kiss, que aconteceu em 2013,
em Santa Maria (RS), bem como ajudou os sobreviventes a conviverem com o
trauma.
Outra história é de
David Sanza, cuja vivência em diversos ofícios contribuiu para fazer
procedimentos médicos em lugares onde não havia profissionais. Em um desses
locais, ele chegou a improvisar um hospital para prestar auxílio aos feridos e,
em outro, comandou uma unidade do Corpo de Bombeiros no meio de um conflito
entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o governo
colombiano e as comunidades indígenas da região.
O livro traz ainda a
trajetória de Jean-Henry Dunant, o comerciante que mobilizou políticos,
acadêmicos, militares, reis, rainhas e seus súditos para criar a Cruz Vermelha,
ao lado de outras quatro pessoas. Pela criação, Dunant foi um dos agraciados
com o Prêmio Nobel da Paz, em 1901.
Além de Dunant, Sibele
destacou o trabalho de Maria Rennotte, fundadora da filial paulistana da
entidade, uma mulher que se notabilizou por não se conformar com as
desigualdades e injustiças do final do século 19.
Faces da ajuda humanitária: a saga de voluntários da
Cruz Vermelha é um livro inspirador,
cuja leitura flui e transforma.
Acompanhe a seguir, uma breve entrevista com Sibele Oliveira sobre as
motivações do livro e seus projetos futuros na literatura.
Blog - Seu livro de estreia é uma reportagem sobre o
fundador da Cruz Vermelha e as experiências de alguns voluntários da entidade.
Por que optou por esse gênero de narrativa para sua primeira publicação?
Sibele Oliveira
- Como leitora, sempre me interessei por narrativas de transformação. O tipo de
história que nos faz ver a vida com outros olhos. E o que esses voluntários
fazem é um belo exemplo disso. Por isso quis escrever sobre eles. A minha
intenção era conhecer o dia a dia deles, descobrir o que os move a estar em
lugares que muitos não gostam nem de olhar. É outro mundo. Um mundo que valeu
muito a pena conhecer.
O que te tocou na história da Cruz Vermelha e dos
voluntários para você escrever sobre eles?
A história da Cruz
Vermelha é fascinante. Desde a sua criação, é uma história movida por sonhos. E
isso me inspira. Quanto aos voluntários, eu os admiro porque enquanto o mundo
está cheio de pessoas voltadas apenas para os próprios interesses, eles têm prazer
em se dedicar a quem nem conhecem.
Como foi seu processo de escrita até a publicação do
livro?
Fui apresentada a
alguns voluntários por uma funcionária da Cruz Vermelha de São Paulo e escrevi
os perfis deles. Quando pensei que tinha concluído o livro, conheci outros
voluntários e senti que não podia deixá-los de fora. Por fim, resolvi contar
também a história do fundador da Cruz Vermelha, um homem muito humano que com o
seu sonho construiu um império humanitário.
Quais são seus projetos na escrita? Livro-reportagem
ou ficção? Ou ambos?
Penso em escrever um
livro de ficção. É uma ideia antiga que ainda não pude colocar no papel. Mas
confesso que tenho uma predileção por histórias reais. Em minha opinião, são
mais impactantes. Tenho o projeto de escrever outros dois livros nos moldes
deste primeiro.
Mais informações
acesse a página do livro no Facebook: www.facebook.com/ajudahumanitaria
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Flip - cada vez mais abrangente
Prestes a embarcar
na ”minha” oitava Flip – Festa Literária Internacional de Paraty –, que
acontecerá de 1º a 5 de julho, percebo que a ansiedade diminuiu um pouco, mas
não a vontade de participar, mais uma vez, daqueles dias repletos de
literatura, tietagem e amizades em meio a um cenário mágico e aconchegante. Para
mim, continua sendo o melhor evento literário do Brasil.
Em 2015, o grande
homenageado será Mario de Andrade, cujo septuagésimo aniversário de morte é
lembrado neste ano. Motivos a mais para estar na Flip, já que o escritor
participou de um dos momentos que mais me fascinam na história literária
paulistana: a Semana de 22. Se bem que a festa não se restringirá a apenas essa
faceta do escritor, pois Mario tem uma abrangência muito maior na literatura e na
cultura do país, devendo ser reinterpretado por diversos pontos de vista.
A mesa de abertura,
por exemplo, “As margens de Mario”, traz três estudiosos para destacar ângulos
diferentes do escritor e poeta. A argentina Beatriz Sarlo falará sobre a faceta
internacional de Mario; Eduardo Jardim ressaltará a relação com o Rio de
Janeiro; e Eliane Robert Moraes abordará o lado erótico nas obras, entre elas Macunaíma.
A programação
principal contará com a participação de 39 autores, sendo 16 internacionais. As
mesas contemplarão diversos temas, como poesia, sexo e erotismo na literatura,
ciência, relações familiares e afetivas, romance policial, política
internacional, literatura de vigem, música, arquitetura, políticas culturais.
Uma diversificação que começou o ano passado, quando Paulo Werneck assumiu a
curadoria da festa.
Dos convidados da
Flip 2015, estou na expectativa de Roberto Saviano e de Colm Tóibin. O primeiro,
jornalista italiano, é autor de Gomorra, livro-reportagem
sobre o funcionamento da máfia italiana e que o obrigou a viver sobre proteção
policial depois da publicação. É dele também Zero, Zero, Zero, obra que retrata o mercado internacional de
cocaína.
Já Colm Tóibin, que esteve
na Flip 2004, despertou em mim o interesse por ser um escritor irlandês, país
natal de James Joyce e que tem atraído minha atenção nos dois últimos anos. É
autor de A luz do farol, O mestre, Mães e
filhos e O testamento de Maria.
Quero ainda ver o
argentino Diego Vecchio, que está lançando no Brasil Micróbios, obra humorada que aborda personagens adoentados; o
brasileiro Boris Fausto, com o seu autobiográfico O brilho do bronze, no qual fala
da morte da esposa; o queniano Ngugi wa Thiong’o, cotado para o Nobel de
Literatura e autor de Um grão de trigo; a
brasileira Ana Luisa Escorel, primeira mulher a ser contemplada com o Prêmio
São Paulo de Literatura com Anel de
vidro; o francês Riad Sattouf,
autor da graphic novel autobiográfica O
árabe do futuro; e o cubano Leonardo Padura, escritor e jornalista, autor do
romance histórico O homem que amava os
cachorros, sobre a vida de Leon Trótsky.
Mas não é só na
programação principal que giram meus interesses. A Flip é muito abrangente e
contará, neste ano, com a participação de bons autores e ilustradores na
Flipinha. Dentre estes a ilustradora Simone Matias, que conheci na Flip 2008 e com
a qual tenho a oportunidade de compartilhar da sua amizade. Entre seus
trabalhos estão O estribo de prata, de
Graciliano Ramos.
Neste ano a Flip terá
a Oficina de Design de Livros, ao invés da tradicional Oficina Literária. Para
ministrar os cursos foram convidadas a holandesa Irma Boom e a brasileira
Elaine Ramos que, juntas, farão abordagens distintas do livro como objeto
artístico, tanto em seus aspectos industriais quanto artesanais.
E isso sem falar na
programação paralela que sempre traz bons temas com excelentes autores e
personalidades do mundo literário e artístico.
Como se vê, a Flip é
bastante diversificada e universal. Para mim é fascinante e sedutora, já que me
envolve de tal maneira que quero sempre voltar para lá, ano após ano. Uma
experiência rica e que vale muito a pena vivenciar.
domingo, 10 de maio de 2015
Amor de mãe em Harry Potter
Mas assisto
também aos filmes que, se muitas vezes não são um primor, pelo menos divertem e
ajudam a dar vazão a imaginação que criamos ao ler os livros. Neste caso, é
interessante ver que algumas imagens são iguais, idênticas até, e poucas
diferentes.
Harry Potter
e as Relíquias da Morte é o sétimo e último livro da saga e, adaptado para o
cinema, foi dividido em duas partes. A última aventura é muito engenhosa, muito
boa, repleta de detalhes. Harry Potter amadureceu e com eles seus milhares de
fãs. Da história infantil e engraçada do primeiro livro (A Pedra Filosofal),
que introduziu toda a história do pequeno bruxo, o último carrega um tom mais
sombrio e sóbrio, já iniciado com o quarto livro da série, O Cálice de Fogo.
Muitos
personagens povoam as páginas de As Relíquias da Morte e grandes surpresas
estão reservadas para Harry e sua turminha. Juntos, eles buscam – para destruir
– as horcruxes com as quais Voldemort dividiu sua alma, para assim matá-lo. Uma
empreitada dura, repleta de percalços e reviravoltas, mas também uma jornada de
revelações, persistência, coragem e amizade.
Cabe ainda
um comentário sobre o último episódio, algo para refletir, e que percebi
somente quando assisti ao filme. Talvez já tenha sido citado, mas não tomei
conhecimento, mas é interessante notar que Valdemort foi derrotado duas vezes
pelo amor de mãe, assim como Harry foi salvo por ele. Na primeira vez que o
bruxo tentou matar o garoto, a mãe deste se colocou na frente e lançou um
feitiço protetor; na segunda, quando Voldemort confronta Harry no final da saga
e o “mata”, Narcisa, a mãe de Draco Malfoy, o rival de Harry, vai verificar se
ele está morto mesmo e, vendo-o ainda com vida, declara que ele está morto, por
saber de Harry que Draco está vivo. Claro, a preocupação de Narcisa era com o
filho, mas não deixa de ressaltar, neste caso, o amor salvador de mãe.
Assim, com Harry Potter, fica aqui a minha
homenagem às mães, seres especiais, corajosos e abnegados;
sexta-feira, 27 de março de 2015
A visita cruel do tempo. Lembranças
Há livros que permanecem com a gente
por um bom tempo, se não para toda a vida. Desde que li A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan, trechos da história
sempre aparecem como lampejos em minha mente. Eles chegam assim, sem mais nem
menos, em pequenos flashes, sem que eu me lembre de imediato de que lembranças
surgiram. Às vezes penso que foi de um filme que assisti, de tão nítidas essas
imagens chegam, aí vou puxando pela memória e acabo no livro de Jennifer. Sim, as
cenas são do livro, e acho que elas vão me acompanhar para sempre.
Neste mês de março, em que me propus a
ler somente mulheres escritoras, a lembrança de Jennifer e seu livro foram
constantes, e percebi que não cheguei apostar no blog minhas impressões sobre a
obra. Na verdade, fiz isso em outro canal, no Cubo 3, onde escrevi “resenhas” por
um tempo. Assim, transcrevo abaixo o texto que foi publicado naquele site, com
pequenos ajustes, para registrar aqui também o que a leitura significou para
mim.
“Tempo. Esse implacável
Inspirada
na genial obra de Marcel Proust, Em busca
do tempo perdido, a escritora americana
Jennifer Egan escreveu um dos mais ecléticos livros que li: A visita cruel do tempo, título que arrebatou
críticas e distinções, como o Tournament
of Books, competição mata-mata, criada em 2005 pela revista
eletrônica americana The Morning News
em parceria com a livraria independente Powell´s,
de Portland,
Oregon, e que
originou a Copa de Literatura Brasileira.
Logo
nas primeiras páginas do livro, publicado no Brasil pela Intrínseca, no início
do ano, com tradução de Fernanda Abreu, a inspiração na monumental obra de
Proust aparece em todo o seu esplendor, na seguinte citação:
Alegam os poetas que, ao adentrar
alguma casa ou algum jardim onde moramos quando jovens, reencontramos por um
instante aquilo que já fomos. São peregrinações muito arriscadas, que produzem
em igual medida sucessos e desilusões. Esses lugares fixos, contemporâneos de outros
anos, é dentro de nós mesmos que mais convém encontrá-los.”
E
o que se segue, no livro de Jennifer, é uma sucessão de contos contemporâneos,
que cobre o período de 1979 a 2020, tendo o universo da música como ponto
central e a implacável passagem do tempo e seus efeitos, quase sempre nefastos,
em nós. Mas o que chama mais a atenção na obra é o estilo narrativo da autora e
sua habilidade técnica em escrever ora na primeira, na terceira e ainda na
segunda pessoa, o que é mais difícil, além de uma experiência ousada: uma
apresentação de PowerPoint que, a
princípio, parece sem nexo, mas que se torna pouco a pouco um recurso ágil,
divertido e próprio para narrar parte da história do ponto de vista de uma
menina de 12 anos.
Utilizando
das várias técnicas narrativas, Jennifer constrói os capítulos, num total de 13,
sendo um deles em forma de artigo jornalístico com notas de rodapé. Confesso
que achei um pouco enfadonho, pois nunca fui muito adepta dessas notas que,
embora sirvam para explicar e ampliar alguma informação, desviam a atenção e
dificultam a retomada do texto.
Não
é fácil tentar resumir a obra, constituída de histórias que se intercalam, nem
sempre em ordem cronológica dos fatos, para mostrar o efeito do tempo, por
vezes devastador, na vida das pessoas. Assim, o livro começa num determinado
período da vida de Sascha, uma mulher de 36 anos, às voltas com a sua
cleptomania e chateada por ter sido demitida do emprego, por seu chefe Bennie,
depois de anos de trabalho. Num encontro com Alex, um homem mais jovem, ela
rouba uma carteira, e tenta se livrar de seus problemas no divã do analista.
Mais para frente sua trajetória será retomada, seja antes ou depois desse
período.
No
capítulo seguinte a história se abre com Bennie, o então patrão de Sascha, mas
em um fase anterior ao desemprego da cleptomaníaca. À frente o tempo retrocede
ainda mais para encontrarmos Bennie jovem, na época do colégio, com seus inseparáveis
amigos Scotty, Rhea, Alice e Jocelyn, com os quais forma uma banda musical.
Esses personagens serão também retomados mais para frente e assim
sucessivamente.
Bennie,
inspirado no seu mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína, se lança
nesse universo, sendo responsável por lançar um grupo musical de sucesso, os Conduits, do qual o baterista Bosco,
eletrizava a plateia. Mais para frente encontraremos um Bosco decaído, velho,
gordo, tentando se reerguer. É dele uma das frases mais contundentes do livro,
que trata exatamente dos estragos que o tempo faz:
É essa a realidade, não é? Vinte anos
depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancaram fora
metade das suas entranhas. O tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?
Algumas
histórias são mais interessantes do que as outras, como a da assessora de
imprensa, La Doll, que cai em desgraça. Primeiro a vislumbramos, brevemente em
todo o seu esplendor, para depois encontrá-la simplesmente como Dolly, num
capítulo todo seu, no qual conhecemos sua filha Lulu, de nove anos, e sua
tentativa de retornar ao mercado numa arriscada empreitada para melhorar a
imagem de um general implicado em genocídio.
Mas
é, de fato, o capítulo feito com o recurso do PowerPoint que mais encanta. Nele, a menina Alison Blake, filha de
Sascha, fala das pausas da música, uma fixação de seu irmão, e revela partes da
história dos pais já retratados em outras épocas, em capítulos anteriores. Em
dado momento, ela também parece ser atingida pela questão do tempo, quando
revela seus medos:
Do que eu sinto medo
De que as placas de energia solar
sejam uma máquina do tempo.
De que eu seja um adulta voltando a
este mesmo lugar depois de muitos anos.
De que os meus pais estejam mortos e a
nossa casa não seja mais nossa.
De que ela seja uma ruína caindo aos
pedaços sem ninguém dentro.
Morarmos todos juntos nessa casa era
uma delícia.
Mesmo quando a gente brigava. Parecia
que nunca ia terminar. Vou sentir saudades para sempre.
A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan, que participou da Flip –
Festa Literária Internacional de Paraty em 2012, é um livro gostoso de se ler,
no qual o leitor se identifica facilmente, sobretudo com relação à passagem do
tempo, esse implacável tempo que chega irremediavelmente para todos nós."
(Publicado
originalmente em Cubo 3)
quarta-feira, 4 de março de 2015
Personagens femininas marcantes
Se é fato que a
figura masculina do herói pode ser encontrada em boa parte da literatura
mundial, com belos personagens, não é menos verdade que a feminina também gerou
grandes e fascinantes heroínas. São muitas delas que dão o tom e o charme,
constituindo-se no cerne da história de forma a torná-la ainda mais
interessante.
Não é à toa que
Tolstói afirmou ser a mulher “uma substância tal, que, por mais que a estudes,
sempre encontrarás nela alguma coisa totalmente nova.” Afinal, elas são
surpreendentes
Nesta semana que
antecede ao Dia Internacional da Mulher,
pensei qual personagem feminina da literatura é minha preferida. Tentei
escolher uma, pensei em cinco, e não poderia ser diferente, porque para mim
elas são inesquecíveis.
Clara, de A Casa dos Espíritos (Isabel Allende)
Claríssima, claravidente,
Clara tinha dons que se apresentaram ainda em criança. Dona de uma
sensibilidade grande, era muito doce, mas ao mesmo tempo exalava uma força que
cativava a todos ao seu redor, inclusive a mim, leitora. Fascinante.
Blimunda Sete-Luas, de Memorial do Convento
(José Saramago)
Nascida Blimunda de
Jesus, ela foi batizada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Blimunda Sete-Luas. É
uma mulher do povo, forte e leal, que vive um amor intenso – e lindo - com
Baltasar, chamado de Sete-Sóis. Tinha o dom de, em jejum, ver o interior das
pessoas e das coisas, possibilitando que recolhesse “vontades”.
A mulher do médico, de Ensaio sobre a Cegueira
(José Saramago)
Protagonista do
romance, ela não tem seu nome revelado, assim como os demais personagens, sendo
identificada como a mulher do médico oftalmologista, durante a epidemia de uma
cegueira branca que acometeu a cidade onde vive. Dos moradores é a única que
enxerga, que vê realmente, em todos os sentidos, a realidade e o que acontece à
sua frente, tornando-se assim a condutora e a líder em uma terra de cegos.
Úrsula Iguaran,
de Cem Anos de Solidão (Gabriel
García Marquez)
A matriarca da
família Buendia-Iguaran, Úrsula é uma mulher de muita fibra e coragem, que
fincava os pés no chão e garantia a sobrevivência de todos. Viveu perto dos 122
anos, completamente cega, mas sem que a família soubesse, pois conseguia
deslocar-se na casa com muita facilidade.
Capitu, de Dom Casmurro (Machado de Assis)
Forte e envolvente, Capitu
é uma das personagens literárias mais discutidas e famosas, pela dubiedade de
seus atos e olhar. Seus olhos, aliás, profundos e diferentes, de acordo com a
conveniência, foram descritos como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” ou “olhos
de ressaca”. Uma personagem bem
construída.
Fiquei pensando o
porquê de essas personagem terem me marcado tanto. Não sei, talvez a força, o
fato de serem diferentes..., contudo, percebi um fato em comum entre elas, algo
que tem a ver com a visão, com os olhos, com o enxergar. Acho que elas têm uma
maneira diversa de perceber o mundo, que foge do tradicional, conferindo um quê
de liberdade. Talvez seja isso.
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