quarta-feira, 18 de maio de 2011

Apoio à Fundação Dorina Nowill

Venho “flertando” com a Fundação Dorina Nowill, instituição filantrópica voltada à ampla integração dos deficientes visuais à sociedade, há um bom tempo. Ciente do belo trabalho que realizam de assistência, inclusão e difusão para o Livro do Cego no Brasil, ocorreu-me o desejo de participar, como voluntária, da entidade, mas ainda sem saber, ao certo, como colaborar, tendo em vista o meu horário de trabalho.

No ano passado decidi arriscar e, em contato com a entidade, trabalhei como voluntária durante as eleições de 2010. A Fundação é um dos locais de votação e meu trabalho consistia em auxiliar os deficientes visuais que votariam naquela sessão.

Foi uma experiência breve, mas rica. Por não dispor de mais horas livres, venho atuando na parte de eventos ocasionais, mas o suficiente para conhecer e admirar ainda mais o trabalho desenvolvido pela instituição.

Fundada em 1946 por Dorina Nowill, a entidade era conhecida como “Fundação para o Livro do Cego no Brasil”, hoje chamada “Fundação Dorina Nowill para Cegos”. A instituição dedica-se à inclusão social das pessoas com deficiência visual, por meio da produção e distribuição gratuita de livros em Braille, falados e digitais. Estes materiais são distribuídos diretamente às pessoas com deficiência visual e para mais de 1.400 escolas, bibliotecas e organizações de todo o Brasil.

Além disso, a Fundação oferece, gratuitamente, programas de serviços especializados à pessoa com deficiência visual e sua família, nas áreas de educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade.

Em todos esses anos de atuação, a Fundação já atendeu mais de 17.000 pessoas nos serviços de clínica de visão subnormal, reabilitação e educação especial. Produziu mais de 1.600 obras em áudio e tornou acessíveis aproximadamente 900 títulos digitais.

Esta não é a primeira vez que falo da Fundação Dorina Nowill. Em dois posts anteriores já havia comentado o trabalho da instituição e de sua fundadora. Aqui:
http://leituraseobservacoes.blogspot.com/2011/04/ler-com-outros-olhos.html


Para conhecer mais o trabalho da Fundação Dorina Nowill acesse http://www.fundacaodorina.org.br/

Este post faz parte da blogagem coletiva em apoio à Fundação Dorina Nowill: por livros acessíveis aos cegos, promovida pelo blog Livros e Afins ( http://livroseafins.com/ ), do Alessandro Martins.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Leitores jovens, leitores sempre

Em um curso de Literatura que fiz, há cinco ou seis anos, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, assisti ao vídeo de uma entrevista feita com José Mindlin sobre os livros que marcaram sua vida. Em dado momento, ele disse uma frase que não pude esquecer e que, aliás, já até a citei neste blog em outro post:

– O importante é ler, seja lá o que for. A seletividade, vem com o tempo.

A lembrança dessa frase me ocorreu no sábado, quando li a reportagem de capa da revista Veja desta semana: “Uma geração descobre o prazer de ler”, assinada por Bruno Meier, sobre a literatura consumida pelos jovens na era digital. Segundo a reportagem, muitos desses “novos leitores”, que agora estão se aventurando pelas leituras clássicas, foram estimulados por livros infanto-juvenis como as sagas Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling, e Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer.

O enfoque da reportagem já era suficiente para atrair minha atenção, mas qual não foi minha surpresa quando vi que uma das jovens retratadas era a blogueira Íris Figueiredo, do Literalmente Falando ( http://www.literalmentefalando.com.br/ ), um blog que acompanho há algum tempo. Aliás, a primeira vez que cheguei a ele o que mais me surpreendeu foi o fato de Iris ser extremamente jovem e já com um repertório bom para discutir e falar de livros com desenvoltura.

Além dela, a reportagem traz depoimento do escritor paranaense Miguel Sanches Neto, cujo twitter (@miguelsanchesnt ) sou seguidora. Autor de livros como Herdando uma Biblioteca, Alugo Palavras (este, inclusive, recomendadíssimo pela minha amiga Gil), Chá das cinco com o Vampiro e o recente Então você quer ser escritor?, entre outros, Sanches Neto tem um história de vida de superação, que mostra como é possível driblar a pobreza e chegar a se tornar um dos mais importantes críticos literários contemporâneos do país.

Depois da familiaridade com esses personagens, ainda pude conhecer, na matéria, outra jovem leitora, a Taize Odelli, que tem um blog bacana onde resenha livros, o r.izze.nhas ( http://rizzenhas.com/ ). Como Iris, ela também iniciou-se por Harry Potter. E aqui uma curiosidade minha: quando Harry Potter foi lançado, eu já era adulta, leitora constante, com alguns clássicos lidos no currículo, mas nem por isso deixei de me encantar pela saga do bruxinho. Quando o li, que por sinal não era o primeiro da série (comecei pelo terceiro – O prisioneiro de Azkaban), fiquei fascinada, tornando-me fã contumaz.

Ainda sobre a reportagem da Veja, há que se destacar os quadros inseridos em cada página, mostrando como uma leitura puxa outra, de forma que, você pode até se iniciar por Harry Potter e Crepúsculo, ou até mesmo por A Cabana ou A menina que roubava livros, que se gostou destes pode também apreciar outros, como os clássicos A metamorfose (Franz Kafka), Crime e Castigo (Dostoiévski), Guerra e Paz (Leon Tolstói), Dom Casmurro (Machado de Assis) e Orgulho e Preconceito (Jane Austen), entre outros.

E se o leitor da matéria for atento, perceberá que a reportagem da Veja teve início bem antes das páginas em que o texto começa. O ponto de partida está no editorial com o sugestivo título de Pega e lê, uma referência a Santo Agostinho, um dos sábios da Igreja Católica a quem credita-se a descoberta de que se podia ler sem enunciar as palavras. É um pequeno – e muito saboroso – aperitivo para a leitura que vem a seguir.

E é muito bom saber que os jovens estão lendo, lendo muito, lendo tudo, lendo clássicos.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

“Ler os clássicos é melhor do que não os ler”

A afirmativa acima foi feita por Ítalo Calvino, escritor italiano, que encontrou na frase a melhor razão para responder a pergunta Por que ler os clássicos? Não, por acaso, título de uma de suas obras que trata especificamente deste assunto.

Clássicos são obras consideradas exemplares em qualquer lista de cânones (conjunto de regras) ocidentais ou ainda pela opinião pessoal de um leitor. Para mim são livros eternos, para serem lidos em qualquer época, difíceis de esquecer, que contém linguagem apurada e estilos próprios para tratar das questões da vida e da alma humana.

Sempre que posso, incluo os clássicos nas minhas leituras, mas, por mais que me esforce, sempre tem aquele que fica pacientemente à minha espera nas estantes das bibliotecas. É o caso de Guerra e Paz, do escritor russo Léon Tolstói, obra inigualável da qual ouvi e li comentários favoráveis, cuja narrativa acontece de 1805 a 1813, durante a campanha de Napoleão na Áustria, a invasão da Rússia e a retirada das tropas francesas. É uma mescla de romance, epopeia militar e filosofia.

Lembrei-me do livro por causa de uma enquete publicada no Blog da Companhia das Letras que pergunta Qual clássico você sempre quis ler? ( veja aqui http://bit.ly/jw23P1 ).

A questão pode ser respondida até às 23h59 do dia 17 de maio. Após o prazo, dois comentários serão sorteados e seus autores poderão ganhar um dos clássicos que a Peguin-Companhia lançou recentemente: Do contrato social, de Jean-Jacques Rousseau, ou A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo, de Angela Carter.

Ao fazer o meu comentário na enquete do Blog da Companhia pensei logo em Guerra e Paz, e minha justificativa não podia ter sido outra. A importância da obra, sua qualidade literária e a história fascinante seriam os motivos óbvios para querer ler, mas o tamanho do livro – 924 páginas! – é, para mim, o maior obstáculo para não ter lido ainda. Sou uma leitora vagarosa e temo demorar tempo demais mergulhada nessa leitura, em detrimento de outras. E, mesmo que a leitura flua naturalmente, um clássico é um clássico, não dá para ler de uma tacada só. Assim, vou adiando o meu desejo.

Depois que deixei meu comentário gravado, pensei em outro clássico que gostaria muito de ler: Os Sertões, do escritor brasileiro Euclides da Cunha. E até hoje me pergunto porque não o fiz, já que o livro não é tão volumoso assim e, além do mais, tive uma fase bem regionalista – que ainda gosto – e poderia, muito bem, ter lido essa obra, como tantas outras que estão esperando sua vez de serem devoradas.

São coisas da vida..., mas ainda bem que podemos reparar essas falhas, priorizando nossas leituras, não perdendo tempo e concentrando-se naquilo que realmente importa. Afinal, como aponta Calvino: "os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”.


* A capa que ilustra este post é de uma adaptação publicada pela Companhia das Letras. Não é o texto original.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Quer ouvir um conto de fadas?




Com muita imaginação e desenvoltura, esta linda garotinha conta uma história sobre animais e magia. Muito lindo! Não resisti à tentação e resolvi postar no blog para compartilhar o vídeo.

É uma delícia ouvir a menina contar a história de forma tão simples e constante. Percebe-se que a pessoa que está com ela, provavelmente a mãe, a incentiva a continuar, sem censura, sem medo. É assim que nasce uma contadora de histórias.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Memórias machadianas

A notícia não é nova, mas é recente, e seu teor só vem confirmar aquilo que os brasileiros já sabem sobre a qualidade da obra literária de Machado de Assis, um dos maiores escritores nacionais: Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma leitura envolvente e atual, embora tenha sido publicada originalmente em 1880.

A descoberta é do cineasta americano Woody Allen, que listou o livro de Machado entre seus favoritos, ao lado de escritores como J. D. Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio. A revelação foi feita em entrevista ao jornal britânico The Guardian, com bastantes elogios: “Fiquei chocado ao ver como é encantador. Não conseguia acreditar que ele viveu há tanto tempo, como ele viveu. Você pensaria que foi escrito ontem”, afirmou Allen.

Memórias Póstumas de Brás Cubas é realmente uma obra primorosa. Li há um bom tempo e confesso que a história ainda vive rondando pela minha cabeça. Trata-se de uma narrativa fantástica, feita em primeira pessoa por um defundo-autor. O narrador é Brás Cubas, personagem que já está morto quando o romance se inicia e que vai recontando a própria vida do fim para o começo.

A ironia é um traço marcante na obra de Machado de Assis e não poderia ficar de fora da vida de Brás Cubas. A princípio, ele aparece como um ser elevado, forte, poderoso, mas ao final fica claro ser exatamente o contrário: frágil e sujeito às intempéries da vida.

Com escrita marcante, Memórias Póstumas encanta todo leitor que por ela se aventurar. A linguagem é primorosa, os diálogos saborosos, as descrições na medida certa, enfim, um texto delicioso de ler.

Não é à toa que fascina inúmeros leitores, como é o caso, também, do escritor argentino-canadense Alberto Manguel, que o incluiu em sua obra Os livros e os dias, uma espécie de diário pessoal e ensaio crítico. Para escrevê-lo, Manguel escolheu para reler durante um ano, todo mês, um romance, totalizando 12. E, depois registrou as impressões em seu diário. Ao lado de Machado, figuram obras de Bioy Casares, Conan Doyle, Cervantes, Goethe e Margareth Atewood, entre outros.

No capítulo em que aborda Memórias Póstumas de Brás Cubas, Manguel confessa ter uma afeição grande pelo livro, surpreendendo-se sempre ao constatar que poucos de seus amigos as leram:


"... Presumimos que o que nos dá prazer deve dar prazer aos outros: na verdade, todos acabamos nos dando conta de que nosso círculo particular de companheiros de leitura, daqueles que compartilham nossos amores íntimos, é muito pequeno (Onze amigos comparecem ao enterro de Brás Cubas quando ele começa a contar a história de sua triste vida – apenas onze.)”

E completa a seguir:

“Conto em minhas estantes com cinco edição de Brás Cubas (três em traduções) e vários estudos biográficos. Considerando a popularidade de Sterne, de Punchon (imerecida, a meu ver – não tenho paciência com ele), de Cortázar, acho difícil entender por que Machado de Assis se mantém (fora do Brasil, claro) como um escritor secreto. Não há ninguém propriamente como ele; todos os três autores que mencionei compartilham com Machado de Assis uma preocupação com o modo como a ficção deve lidar com uma realidade fraturada, peneirada pelo tempo, mas ele é o único a contar uma história que se permite mostrar ao leitor desconjuntada, por assim dizer, como um jogo Meccano, de tal maneira que caiba a nós, no final das contas, reunir as partes, construindo, enquanto lemos, uma narrativa que, embora inteiramente inteligível, não segue nenhum padrão preestabelecido visível.”

Considerado, de fato, como o maior nome da literatura nacional, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no Rio de Janeiro, de uma família humilde: o pai exercia os ofícios de pintor e dourador, e a mãe era lavadeira. Dedicado às letras, escreveu em praticamente todos os gêneros literários – poesia, crônica, dramaturgia, conto, folhetim, jornal e crítica literária.

Sua extensa obra compreende nove romances e peças teatrais, 200 contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de 600 crônicas.

Das obras publicadas do autor, li também Dom Casmurro, Quincas Borba, Memorial de Aires e Helena, todos romances. Ainda não me aventurei por outros gêneros de sua obra, mas já recomendaram – e muito – os contos, que são impagáveis. Daqueles que li, porém, Memórias Póstumas de Brás Cubas – e seu realismo fantástico - tem lugar cativo na minha memória e no meu coração. É o meu preferido. Não dava pra ser diferente.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Criatividade todo dia

Num passado remoto, o homem precisou de muita imaginação para transformar seus pontos fracos – em comparação a outras espécies vivas – em instrumentos fortes, para conseguir sobreviver. Assim, com a evolução da espécie e o raciocínio cada vez mais lógico, o ser humano pode firmar-se como uma raça resistente e dominadora por toda a terra.

Nessa empreitada, a humanidade precisou contar – e muito – com a criatividade, essa capacidade de inventar, criar, conceber na imaginação, e transformar isso em realidade, para sua utilidade ou seu prazer.

Muitas das facilidades que encontramos hoje – e que se tornaram hábitos – foram criadas a partir da ideia formulada na mente daqueles primeiros habitantes da Terra. Elas foram sendo testadas, manipuladas, transformadas e aperfeiçoadas através de gerações e gerações, cuja criatividade não cessa, embora, muitas vezes, ela possa estar bloqueada em razão das pressões de uma vida atribulada e cada vez mais competitiva.

E é para falar sobre essa questão, a da criatividade e como desenvolvê-la, que a professora e doutora em Ciências da Comunicação, Monica Martinez, concebeu o livro Tive uma ideia! – O que é criatividade e como desenvolvê-la, lançado pelas Edições Paulinas. A publicação é o resultado de dez anos de pesquisa, tratada no livro com linguagem simples e direta.

Conheci Monica Martinez há quatro anos, quando fiz o curso de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Entusiástica e dinâmica, Monica conduziu com didática e conhecimento as aulas de redação, ensinando técnicas que transformaram a sala num verdadeiro laboratório de ideias e belos textos criativos.

Foi com ela que conheci a Jornada do Herói, método narrativo mítico criado pelo mitólogo Joseph Campbell, após analisar mitos, contos populares e de fadas de todo o mundo. Nesses estudos, Campbell percebeu haver uma estrutura básica que permeia essas narrativas e que se tornou o cerne do livro O herói de mil faces, publicado em 1949.

A partir desse trabalho, Monica estruturou um novo modelo de construção de histórias de vida para comunicadores sociais e que se encontra no livro Jornada do Herói: a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em Jornalismo, publicado pela Fapesp e Annablume, em 2008.

Depois desse curso, reencontrei Monica no ano passado, quando cursava a pós-graduação em Jornalismo Literário, da qual ela fazia parte do corpo docente. E, mais recentemente, no lançamento do livro Tive uma ideia!, na Livraria Martins Fontes, em São Paulo.

Com apenas 80 páginas, o livro é um delícia de se ler, e devo confessar que chegou em boa hora. Afinal, depois de quase seis anos atuando com publicações técnicas, na área da Odontologia, minha criatividade andava meio em baixa. Pra dizer a verdade, até colocava em dúvida sua existência.

O livro se divide em seis capítulos, sendo que o primeiro dá uma rápida pincelada de história e teoria, além de abordar a criatividade em diferentes povos e seus conceitos, o que é fundamental para contextualizar e entender o assunto. Os capítulos seguintes tratam do processo criativo em si, apresentando portais da criatividade, passo a passo do processo, etapas da criação, perfis criativos e, por fim, a importância da motivação.

O que se conclui é que não existem fórmulas mágicas e que aquele mito de que a criatividade cai, literalmente, do céu , inspirada por uma luz divina – embora isso possa acontecer – não é verdadeiro: “Como é o nascimento de uma nova ideia? Há muitos equívocos relacionados à criatividade, mas talvez o principal deles seja o de que se trata de geração espontânea, algo que cai do céu como um raio ou surge como um estalo. É claro que isso pode ocorrer, mas os estudos sugerem que mais do que a chegada a um lugar brilhante em si, a criatividade é um processo.”

Assim, ser criativo requer conhecimento, estudo, ousadia, prática, dedicação e, sobretudo, paixão, porque não gostar do que se faz é um dos principais motivos que levam as pessoas à passividade e – para usar um termo forte – inanição. Mas Monica não fica só na conceituação, ela aponta ainda algumas técnicas que visam estimular o indivíduo, a partir da reflexão, a perceber o que está impedindo sua criatividade de aflorar e, assim, levá-lo à ação. E é exatamente isso que todos nós buscamos.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Biografias estão em alta

Recentemente, ao circular por algumas livrarias da cidade, deparei-me com uma série de lançamentos, dispostos nas bancadas e em prateleiras, que versavam sobre o mesmo gênero literário: Biografias. Muitas delas sobre personalidades do mundo da música, como Elvis Presley, e algumas de artistas vivos, como Lobão, Justin Bieber, Amy Whinehouse. Sem falar na dos políticos, como José Sarney, Mandela e Barack Obama.

Gênero literário em que o autor narra a história da vida de uma pessoa ou de várias pessoas, as biografias geralmente contam a vida de alguém após sua morte. Atualmente, em razão do apelo popular e por contar com um público cativo, ansioso por histórias de vidas das celebridades da moda, as biografias passaram a retratar, com mais frequência, pessoas ainda vivas – e jovens.

Biografias, na verdade, sempre constituíram-se num gênero bastante atraente ao público-leitor, em diversas partes do mundo, mas no Brasil ganhou mais força há quase 20 anos, como lembrou Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, em entrevista ao caderno “Mais”, da Folha de S. Paulo, em dezembro de 2004: “O diferencial é que ele sempre foi sucesso no mundo e está crescendo no Brasil, especialmente desde os anos de 1990.”

Mas o fato de haver tantos biografados jovens e – teoricamente – com pouca bagagem para uma biografia, me intrigou, porque sempre associei o gênero a ampla pesquisa, convivência com o retratado (quando vivo) ou com seus familiares e amigos próximos e farta documentação para contextualizar o momento histórico em que o personagem vive.

Para entender melhor esse “boom” das biografias, sobretudo no Brasil, conversei rapidamente com o pesquisador, escritor, jornalista e professor, Sergio Vilas Boas, que tive o prazer de conhecer em 2009, quando cursei a pós-graduação em Jornalismo Literário, na Academia Brasileira de Jornalismo Literário.

Sergio, que foi meu professor no curso. é autor de vários livros, entre eles Biografias & Biógrafos (Summus, 2002), Biografismo: reflexões sobre as escritas da vida (Unesp, 2008), Perfis – e como escrevê-los (Summus, 2003) e Os estrangeiros do trem N (Rocco, 1997), com o qual ganhou o Prêmio Jabuti de reportagem em 1998.

Na breve entrevista que ele me concedeu, uma surpresa: o lançamento de uma biografia que está escrevendo, ainda este ano. Acompanhe:

Sobre Leituras e Observações: A que você atribui o aumento do número de publicações de (auto) biografias?
Sergio Vilas Boas
- Atribuo isso à necessidade de o público-leitor lidar com histórias que eles acreditam que aconteceram de fato, principalmente as que se referem a seus "ídolos". A ficção, infelizmente, não tem sabido criar personagens verdadeiramente empáticos.

Como estudioso em (auto) biografias, como você vê o crescente interesse por esse gênero literário?
Esse interesse não é de hoje. Vem de longa data (cresceu muito nos últimos 20 anos). Considero positivo pelo aspecto do despertar da leitura; e negativo do ponto de vista da relevância. Nem todo mundo sabe escrever ou contrata o ghost-writer certo. Para quem aprecia a arte da palavra, muitas dessas autobiografias ou memórias podem soar ingênuas e toscas.

No passado, as (auto) biografias eram escritas de forma cronológicas e bastante cansativas de ler. Quais são as diferenças entre as atuais e as antigas?
A cronologia rígida ainda é uma limitação de que os biógrafos e memorialistas não conseguem se livrar. Por trás disso, a crença de que a vida vivida é a "vida conforme o relógio".

Quais os elementos que uma boa (auto) biografia deve conter para prender a atenção do leitor?
Pesquisa profunda, entrevistas detalhadas, reconstrução literária de cenas/episódios relevantes.

Das atuais publicações do gênero que se encontram nas livrarias no momento (Obama, Sarney, Agassi, Mandela, Lobão, Padre Cícero, entre outras), qual você recomendaria?
Não leio mais esse tipo de texto com a mesma avidez de dez anos atrás, e, dessas que você mencionou, só recomendo a do Padre Cícero.

Algumas celebridades, embora jovens como é o caso de Justin Bieber, Restart, Amy Whinehouse, também ganharam biografias. Você acha que elas já têm conteúdo de vida o suficiente para isso ou é questão de oportunismo e marketing?
São textos oportunistas e estarão esquecidos em alguns meses.

Além de livros dedicados ao gênero, você já escreveu alguma biografia? Qual? Se não, pretende fazê-lo?
Não tenho o menor interesse em escrever uma biografia do tipo das que abarrotam as livrarias: calhamaços gigantescos, catálogos cronológicos com índices onomásticos incontornáveis, volume em detrimento da relevância, às vezes remontando a bisavós e avós, e narração onisciente e autoritária. Por enquanto, minha opção é a de escrever sobre vivos, de maneira em que eu também possa me expressar como coadjuvante da construção. Este ano devo lançar O Homem das Telecoms, perfil de 200 páginas sobre um megaempresário brasileiro dos setor de telecomunicações.


* Para saber mais sobre Sergio Vilas Boas acesse http://www.sergiovilasboas.com.br/