sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Dois Irmãos, de Hatoum

A escrita de Hatoum é apaixonante e sua narrativa deliciosa. Por isso, fiquei encantada ao ler Dois Irmãos, romance publicado em 2000 pela Companhia das Letras e que rompeu um silêncio de 11 anos do autor desde a publicação do seu primeiro romance: Relato de um Certo Oriente.

O romance terá uma adaptação para HQ, desenhada pelos irmãos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, que deverá ser publicada em março pelo selo Quadrinhos na Companhia, da Companhia das Letras.

Premiado com o Jabuti de melhor romance (3º lugar na categoria Romance), Dois Irmãos narra a tempestuosa relação entre os irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, descendentes de uma família de origem libanesa, que vive em Manaus, filhos de Zana e Halim e irmãos de Rânia. A narrativa se alterna entre passado e presente, sem uma cronologia definida que, aos poucos, vai revelando ao leitor a história dos personagens, seus conflitos, amarguras, ódios e anseios.

Yaqub nasceu minutos antes, por isso Omar é considerado como o “Caçula” e por ter tido um problema de saúde, é tratado com mais desvelo pela mãe. Os dois têm personalidades diferentes: enquanto o primeiro é mais reservado, o segundo mostra ser mais atirado. O conflito acontece quando, na adolescência, por causa de uma garota, Omar fere o rosto de Yaqub, deixando neste uma cicatriz. Seus pais, temendo as consequências do ato, resolvem mandar o mais velho para o Líbano por algum tempo.

Yaqub se ressente desse afastamento da família e ao regressar, anos depois, mostra-se ainda mais reservado e distante. Começa a estudar e se revela um excelente matemático. O “Caçula”, contudo, acobertado pela mãe, vive de farras, boemia e malandragem, acirrando ainda mais o ódio entre os irmãos, um sentimento que vai permear a narrativa até o seu final.

A história é contada sob os olhos de Nael, filho da empregada da casa, Domingas, mas de paternidade desconhecida, só revelada no decorrer da trama. É Nael quem presencia as histórias e ouve os relatos e confissões do pai dos gêmeos, sobretudo a paixão deste pela mulher Zana, que começou com um gazal.

Gazal é um poema lírico e leve de forma fixa de origem árabe, de cunho amoroso e místico, que surgiu no final do séc VII. Conforme o dicionário Aurélio, gazal, ou gazel, é uma palavra de origem árabe que significa requebro, galanteio, poesia erótica.

O livro é bastante envolvente e Milton Hatoum, que além de escritor é tradutor e professor, descendente de libaneses nascido em Manaus, consegue transpor para as páginas todo o clima e as tradições dessas localidades. Uma delícia!

Vale lembrar que Dois Irmãos está sendo adaptado também para o cinema , com direção de Luiz Fernando Carvalho e roteiro assinado por Maria Camargo. É esperar para ver, enquanto isso aproveite para ler o livro e confira a HQ dos quadrinistas gêmeos que chega às livrarias em março.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O passageiro do fim do dia

Sem divisões, sem capítulos. Uma escrita contínua e ininterrupta que, à primeira vista pode assustar e desanimar, mas que ao se aventurar descobrimos ser uma leitura de um fôlego só. É assim O passageiro do fim dia, romance de ficção do escritor e tradutor Rubens Figueiredo, publicado pela Companhia das Letras, que foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2011 na categoria Melhor Livro do Ano, e do Prêmio Portugal Telecom no mesmo ano.

O romance se constitui em um percurso, literal e filosoficamente falando. É sexta-feira, fim do expediente. O jovem Pedro, protagonista do livro, sai do trabalho e segue em direção à casa da namorada Rosane, no distante bairro pobre do Tirol, onde costuma passar o final de semana. A história se desenvolve nessa viagem: no ponto do ônibus, enquanto Pedro espera o coletivo, a chegada deste, passando pelo (longo) trajeto até o desembarque. Enquanto isso...

... A sombra da fila, estendida quase ao máximo sobre a calçada, era a única sombra. A demora do ônibus, o bafo de urina e de lixo, a calçada feita de buracos e poças, o asfalto ardente com borrões azuis de óleo, quase a ponto de fumegar – Pedro já estava até habituado. Não são os mimados, mas sim os adaptados que vão sobreviver.

O que se tem são impressões de um jovem extremamente observador e imaginativo, frente a um sistema público de transporte precário e um trânsito caótico. Para aliviar as tensões, Pedro carrega em sua mochila o radinho e fone de ouvido e um livro sobre Darwin, que lê e reflete durante a viagem. Em outras ocasiões, observa os passageiros lembra da namorada e de sua história no Tirol e repara na vida que se apresenta nas ruas, vista fugazmente pelas janelas do ônibus:

Nos vultos espaçosos de crianças, adolescentes ou adultos em volta do fogo em seus movimentos vagarosos, sem atenção sem propósito, mas insistentes, como se não conseguissem afastar-se dali, Pedro começou a notar os traços de uma espécie de culto noturno ancestral. Traços de uma adoração espontânea e desinteressada. Coisa rápida, a mais simples possível, sem alcance além daqueles minutos e daqueles poucos metros. Tratava-se, quem sabe, de uma espécie de identificação, de uma assimilação momentânea, entre eles e o fogo.
Em O passageiro do fim do dia Rubens Figueiredo encanta com alta literatura, mas só àqueles que não conhecem sua trajetória. Conheci ele como tradutor, vendo seu nome em inúmeras obras russas, como Guerra e Paz, Ana Karênina ou Kachtanka, entre outras, para depois vislumbrar seus trabalhos como escritor consagrado, tenho já ganho dois prêmios Jabuti. E cheguei a vê-lo pessoalmente, em Paraty (RJ), onde pude observar sua timidez, mas me encantar com suas colocações e gentilezas. 

Li o livro em 2013 e lembrei dele por ocasião do aniversário de São Paulo, neste ano, em razão das dificuldades de transporte coletivo e do caos do trânsito, típicos de cidade grande. Fica a dica de um escritor indispensável.

(Publicado originalmente em 14/4/2013 em http://cubo3.com.br/2013/04/14/o-passageiro-do-fim-do-dia/)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Comemorações literárias em 2015

Depois de um período de “molho” e de “balanço” retomo os posts do blog (já estava com saudades) para mais uma jornada de comentários, histórias e observações de leituras e acontecimentos do mundo da literatura. Assim, como já é de praxe, inicio falando de algumas comemorações literárias que ocorrerão neste ano.


2015 é um ano citado na literatura: é o período em que se passa o conto Runaround, de Isaac Asimov. Na trama, dois dos seus personagens mais recorrentes, Gregory Powell e Michael Donovan, são os únicos humanos em Mercúrio. O conto foi escrito em 1941 e publicado pela primeira vez em 1942. Uma boa oportunidade para ler... ou reler. Ele faz parte da coletânea de contos publicados em Eu, Robô.

O ano oferece ainda mais chances para se aventurar e conhecer, ou revisitar, obras de peso da literatura mundial. Em 2015, alguns romances e novelas comemoram 100 anos de publicação, como é o caso de Triste Fim de Policarpo Quaresma, do escritor brasileiro Afonso Henriques Lima Barreto.

O obra de Lima Barreto é um romance do período do Pré-Modernismo. Policarpo Quaresma é um fanático major nacionalista, ingênuo e idealista, cuja vida tragicômica retrata as estruturas sociais e políticas brasileiras durante a Primeira República e o governo de Floriano Peixoto.

A Viagem (The Voyage Out) é outro romance que chega ao seu centenário. É o primeiro romance publicado por Virginia Woolf e foi escrito num período de extrema fragilidade da autora. O tema da obra enfoca o rito de passagem para a maioridade, no qual Rachel Vinrace, a protagonista, parte para a América do Sul, numa viagem de autodescoberta.

Considerada como novela, A Metamorfose, de Franz Kafka, também completa 100 anos em 2015. É uma das obras mais importantes de toda a história da literatura, em que o famoso caixeiro-viajante, Gregor Samsa, se transforma em um inseto monstruoso, mostrando o trágico, grotesco e cruel da condição humana.

Vale ainda lembrar outros romances centenários, como O arco-íris, do escritor inglês D. H. Lawrence; Servidão Humana, do britânico Somerset Maugham; O Espantalho de Oz, da obra “O mágico de Oz”, de Frank Baum; e Los de Abajo, do mexicano Mariano Azuela.


E falando em centenários, 2015 marca ainda os 100 anos de nascimento de importantes escritores, como o brasileiro José J. Veiga. Nascido em 2 de fevereiro, J. J. Veiga foi escritor do realismo fantástico. Entre suas obras estão Os Cavalinhos de Platiplanto, A Hora dos Ruminantes e A Máquina Extraviada.

Em 10 de junho, Saul Bellow, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1976, deverá ser lembrado pelo seu centenário. Escritor judeu, nasceu no Canadá e se naturalizou cidadão estadunidense, Bellow é autor de As Aventuras de Augie March e Herzog, entre outros.

Em outubro é a vez de lembrar dois expoentes da literatura: Antônio Houaiss, tradutor, crítico literário, filólogo, lexicógrafo e ensaísta brasileiro, que nasceu em 15 de outubro, e Arthur Miller, dramaturgo norte-americano, cujo centenário será no dia 17. O primeiro é muito conhecido pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, e o segundo pelas peças Morte de um Caixeiro Viajante e As Bruxas de Salém.

Já em 12 de novembro será comemorado o centenário de nascimento de Roland Barthes, crítico literário, sociólogo, filósofo e semiólogo francês. Barthes usava a análise semiótica em revistas e propagandas, dividindo o processo de significação em dois momentos: denotativo (percepção simples, superficial) e conotativo (sistemas de códigos).

Finalmente em 27 de novembro, Adonias Filho, jornalista, crítico, ensaísta e romancista brasileiro faria 100 anos. É autor de obras como Renascimento do Homem e Luanda Beira Bahia, entre outras.


Vale lembrar que há cem anos Fernando Pessoa “matava” Alberto Caeiro, o mais ingênuo dos heterônimos criados por ele (há ainda Álvaro de Campos e Ricardo Reis) e também do próprio autor. Caieiro era um poeta ligado à natureza, que despreza todo tipo de pensamento filosófico por considerar que este obstrui a visão. Era um antimetafísico.

E, para encerrar as festividades literárias em 2015, no dia 23 de abril, quando se comemora o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, a cidade sul-coreana de Incheon receberá o título de Capital Mundial do Livro 2015, ostentando-o e realizando uma série de atividades voltadas à literatura até 2016.

Bons ventos literários para este ano. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Retrospectiva Literária 2014

Esta é a terceira vez, consecutiva, que participo da Retrospectiva Literária, promovida pela Angélica Roz, do blog Pensamento Tangencial. A iniciativa trata-se de uma blogagem coletiva que reúne mais de 100 blogs todo o ano.

Assim como em 2012, 2014 foi um ano de leituras intensas, encantadoras, inesquecíveis. A média de livros lidos aumentou, embora tenha lido livros não tão volumosos, mas acho que me atropelei um pouco, fui com muita sede ao pote, se bem que mantive uma frequência nas leituras e só abandonei um livro.

Bom, vamos aos tópicos da retrospectiva:

A aventura que me tirou o fôlego:

A Volta ao Mundo em 80 dias, de Júlio Verne

Nunca tinha lido Júlio Verne, mas depois deste “a volta ao mundo” com certeza vou querer ler mais. Este livro, recheado de informações e aventuras, me levou verdadeiramente a fazer a volta ao mundo. Gostei.

O romance que me fez suspirar:

Morte em Veneza, de Thomas Mann

Não chega a ser um romance no sentido sentimental da palavra, mas fiquei enternecida pela paixão platônica do personagem principal – Aschenbach – pelo garoto – Tadzio), sobretudo nesta passagem: E reclinado, os braços pendentes, subjugado e sacudido por sucessivos calafrios, sussurrou a eterna fórmula do desejo – impossível, neste caso, absurda, abjeta, ridícula, mas ainda assim sagrada, mesmo neste caso, digna: “Eu te amo!”

O clássico que me marcou:

O Estrangeiro, de Albert Camus

Foi uma releitura e, desta vez, o livro me pegou ainda mais fundo. Mersault é um dos personagens mais fortes da literatura e sua história bastante instigante, perturbadora e ainda assim magnífica.

O livro que me fez refletir:

A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares

A história do pacato funcionário, que opera uma máquina industrial com movimentos repetitivos e que mantém uma coleção secreta mexeu comigo. Gonçalo traz sempre em seus livros questões como poder, cotidiano e morte de forma a nos fazer refletir sobre a vida.

O livro que me fez rir:

Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa

Os livros de Llosa, pelo menos os que li até agora, trazem sempre um humor implícito. Este, no entanto, é bem explícito e não tem como não se deliciar com as peripécias de Pantaleão. Muito divertido.

O livro que me fez chorar:

Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum

Pra chorar com um livro não é preciso muito. Neste então me debulhei em lágrimas. A sinceridade e a beleza da escrita de Eliane Brum, devastando sua alma e sua vida neste livro, são de arrepiar, encantar e chorar.

O livro de fantasia que me encantou:

O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman

Mais um belo livro de Gaiman com uma história um tanto autobiográfica, mas permeada de encanto e fantasia que já são características de sua obra. A infância aqui é vista em toda sua crueza, com medos, incertezas e dor.

O livro que me decepcionou:

O Livro dos Prazeres Proibidos, de Federico Andahazi

Tinha muita expectativa com esse livro e só entrou na minha lista de leituras porque queria ler uma história que se passava na Idade Média. O romance, que remetia a história de Gutenberg e o mundo dos livros, me empolgou, mas a escrita de Andahazi me pareceu pobre, sem sal, dispensável. Podia ter passado sem essa.

O livro que me surpreendeu:

Enquanto Agonizo, de William Faulkner

Achei que ia patinar neste livro, por causa da sucessão de vozes e digressões, mas, ao contrário. A história me envolveu de tal forma que me surpreendeu e me deixou fascinada pela escrita de Faulkner.

O livro mais criativo:

Verão, de J. M. Coetzee

Cada vez que leio Coetzee mais eu gosto dele. Adoro seu estilo, suas histórias, sua fluidez. Neste livro achei bem interessante, com refinados artifícios literários, que traz uma ficção autobiográfica, narrada de forma indireta. O relato é feito por um pesquisador que busca construir a história de John Coetzee, autor que já morreu, por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram. Muuuuuuuito bom.

A melhor HQ:

Gorazde, de Joe Sacco

Desde que li Palestina, Joe Sacco tornou-se um dos cartunistas preferidos. Em Gorazde ele utiliza, mais uma vez os quadrinhos para narrar uma reportagem, contando a rotina dos muçulmanos durante a Guerra da Bósnia. Realístico.

O infanto-juvenil que se superou:

Breve História de um Pequeno Amor, de Marina Colassanti

Um bom livro é aquele que fica mesmo depois da leitura ter terminado. E se você sonha com ele então, é porque já faz parte de você. A história da escritora que encontrou um ninho de pombos, com dois filhotes, em seu telhado, é de uma sensibilidade que mexe não só com as crianças, mas com os adultos também. Belo, belíssimo. Mereceu todos os prêmios que ganhou.

O livro que mudou a minha forma de ver o mundo:

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Um dos melhores livros que li este ano, Quarto de Despejo mostra que mesmo uma mulher, analfabeta, pobre e sem recursos é capaz de escrever, com toda a sensibilidade e sinceridade uma história de vida, da vida na favela, e de luta pela sobrevivência frente aos contrastes existentes. Indispensável.

A capa mais bonita:

O Livro Selvagem, de Juan Villoro

Com uma história bem construída, tendo como foco livros, biblioteca e leitura, esse livro tem tudo para agradar os leitores mais fanáticos, e sua capa, ainda por cima é belíssima.

O livro que li em um dia:

Fábula Urbana, de José Rezende Jr.
É um livro curto, infanto-juvenil, que a gente lê em poucas horas, mas cuja história envolve e encanta. Trata de meninos de rua, pedido inusitado, a pressa e o medo nas cidades grandes.

O primeiro livro que li no ano:

Províncias – Crônicas de Alma Interiorana, de Marcelo Canellas

Quando adquiri o livro no final de 2013 disse a mim mesma que seria o primeiro que leria em 2014 e assim foi. No livro estão reunidas 70 crônicas curtas sobre diversos lugares onde Canellas esteve fazendo reportagens. Observador da vida, ele narra com poesia histórias afetivas de fatos do cotidiano.

O último livro que terminei:

Memórias do Subsolo, de Dostoiévski.

Escolhi este livro por fazer parte de um Desafio Literário que estava participando este ano. Em dezembro teríamos de ler um autor russo, e optei por Dostoievski e suas "Memórias do Subsolo". Um pouco depressivo, mas muito bom.


O livro que abandonei:

Histórias de Crime e Mistério, de Edgar Allan Poe

Embora instigante, não consegui prosseguir nas histórias do livro. Li apenas "Os crimes da rua Morgue", que aliás já tinha lido uma vez, e comecei "O mistério de Marie Rogêt", mas não deu pra continuar, acho que não me alinhei com o estilo do autor.


O livro que li por indicação:

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott

Já tinha ouvido falar muito deste livro, com comentários bem favoráveis, mas ainda não tinha me decidido até que uma amiga me emprestou o livro e tive de ler. Ainda bem. A história é cativante, e deve ser entendida como de época, mas gostei muito da amizade entre as irmãs e Jo March, com a qual me identifiquei mais.

A frase que não saiu da minha cabeça:

Quando tudo falhar, desista e vá à biblioteca, de Novembro de 63, Stephen King.

Embora esta frase não tenha saído da minha cabeça ao longo do ano, não cheguei a ler o livro, apenas a encontrei na internet e amei. Então, para ficar mais dentro da retrospectiva, escolhi esta, estranha e surpreendente:

... Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me..., de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus

O (a) personagem do ano:

K, de O Castelo, de Franz Kafka

O agrimensor que chega a uma aldeia para prestar seus serviços se vê em um mundo de burocracia alucinante, em que nada parece ser o que é. Ainda assim persiste na sua saga, buscando ser ouvido e aceito. Comovente, delirante, desesperador.

O (a) autor (a) revelação:

Patrick Modiano, com Filomena Firmeza

É até um “sacrilégio” colocar Modiano como revelação, já que o escritor francês tem cerca de 30 livros publicados e ganhou o Nobel de Literatura neste ano, mas aqui não é no sentido de “novato” e sim de novo para mim. Mesmo porque seus livros estavam esgotados no Brasil e só havia em catálogo Filomena Firmeza. Li e me apaixonei, por isso uma revelação. A boa notícia é que a Rocco acabou de relançar três títulos de Modiano e, claro, já adquiri para ler.

O melhor livro nacional:

Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antonio

Os contos reunidos neste livro falam de uma São Paulo nostálgica, com seus malandros e marginalizados. O conto que dá título ao livro é fascinante e vale a pena ser conhecido.

O melhor livro que li em 2013:

"Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus impressionou-me tanto que permaneceu na minha memória este ano todo. Escrito por uma analfabeta, não deixa de ser curioso o fato deste ser o melhor livro, o que importa é a sensibilidade com que ela conta sua história.

Dos clubes:

Traçando Livros (o melhor) – Ficções, de Jorge Luis Borges

Clube do Livro (o melhor) – O Estrangeiro, de Albert Camus
  
Li em 2014... 60 livros (seis a mais do que em 2013)

A minha meta literária para 2015 é:

Prosseguir com minhas leituras, mas não mais com tanta ansiedade. Quero ler com mais vagar e tentar fazer algumas releituras.

Os dez (e aqui incluo todos os gêneros)

• Ficções, Jorge Luis Borges
• O Oceano no Fim do Caminho, Neil Gaiman
• O Estrangeiro, Albert Camus
• Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus
• Meus Desacontecimentos, Eliane Brum
• Enquanto Agonizo, William Faulkner
• Verão, J. M. Coetzee
• Terra Sonâmbula, Mia Couto
• Filomena Firmeza, Patrick Modiano
• Breve História de um Pequeno Amor, Marina Colassanti

Bônus para

• O Alienista (quadrinhos), Fábio Moon e Gabriel Bá
• Nenhum Olhar, José Luis Peixoto

E que venham mais leituras em 2015. Feliz Ano Novo a todos! 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Frases marcantes dos livros - 2014

"Quando tudo falhar, desista e vá à biblioteca" - Novembro de 63, de Stephen King.

“Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção” – João Antonio, em Malagueta, Perus e Bacanaço.

“Dormir é distrair-se do mundo”. - Funes, o memorioso, em "Ficções", de Jorge Luis Borges.

“Adultos seguem caminhos. Crianças exploram…” - O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman.

"Enquanto a sombra repetir no chão o teu corpo inteiro eis que te encontras vivo e completo"- A máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares.

“... Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me...” – Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

“As soluções estão sempre nas bibliotecas” – Borges e os Orangotangos Eternos, de Luís Fernando Veríssimo.

“Penso: talvez a dor exista para nos avisar de um sofrimento ainda maior” – Nenhum Olhar, de José Luís Peixoto.

“Falar é entregar-se, escrever é ocultar-se” – Beatriz (Beatriz e o escritor), de Cristovão Tezza.

“Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil. Muita vez indispensável, alguma vez delicioso”. – Esaú e Jacó, de Machado de Assis.

“Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar”. – Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum.

“Para mim, os livros sempre foram sagrados, mas apenas para que pudessem ser profanados”. – Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum.

“Paris é do sexo feminino, creio que não existe cidade mais feminina do que Paris, mulher vaidosa e assim felina feito uma gata sensual que se oferece ao turista deslumbrado mas esconde a face verdadeira, a face profunda que fica oculta e que só obedece à voz do dono e esse dono é francês”. – Passaporte para a China, de Lygia Fagundes Telles.

“... A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?” – Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

“... que mensagem me trazem dela não sabemos quem é só sabemos que é ela nada nihil nichts niente nothing nada é o que sou nada exprime aquilo que sou nada me exprime do que é nada me é como posso esperar se nada me diz o que espero com desesperada esperança mas espero com esperança ou sem ela espero pela esperança espero por ela anônimo...” – Rumor Branco, de Almeida Junior.

“Só para os raros!” “Só para os loucos!” – O Lobo da Estepe, de Herman Hesse.

Uma biblioteca não é para ser lida por completo, mas sim para ser consultada. – O Livro Selvagem, de Juan Villoro.

“... A tragédia da velhice não é a existência do velho, mas sim, a existência do jovem...” – O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Voa, passarinho... vai brilhar mais alto!


O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.

Do lugar onde estou já fui embora.

(Manoel de Barros - 1916 - 2014)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sobre escritores

Ode à Literatura

Han Yu (poeta chinês do século VIII)

"Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio... A palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura, por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem."