terça-feira, 7 de janeiro de 2020

2020 na Literatura


Quando criança eu sonhava em ser escritora, em transpor para o papel histórias românticas da ficção; mais tarde, já na adolescência, decidi ser jornalista para narrar histórias da vida real. Como jornalista escrevi boas histórias, o que certamente me trouxe muito prazer, mas o lado ficcional das histórias, aquele da imaginação e da transposição para outros mundos, esse eu só realizei por meio da leitura, tornando-me assim boa leitora. E posso afirmar, hoje, que a melhor definição que tenho de mim mesma é como leitora e não consigo me imaginar de outra forma.

Ler é sonhar, é quebrar barreiras, é se posicionar no mundo, é resistir. Por isso, neste 7 de janeiro, Dia Nacional do Leitor, quero lembrar da importância do livro e da leitura na vida das pessoas, destacando algumas datas comemorativas na Literatura neste ano. São ótimos lembretes para se aventurar e se conectar no mundo inigualável da leitura.


2020 será marcado por importantes centenários, tanto de livros quanto de escritores (as) famosos (as). Começando pelos livros que chegam aos 100 anos, destaque para:


- Além do Horizonte, peça de teatro escrita pelo dramaturgo norte-americano e Nobel, Eugene O´Neil, que conquistou o Prêmio Pulitzer de 1920 com a obra. A peça se desenvolve numa fazenda agrícola nos EUA e conta a história de uma família, centrada nos irmãos Andrew e Robert. Enquanto está prestes a ir para o mar com seu tio, um comandante de navio, Andrew espera casar-se com a namorada e trabalhar na fazenda da família.
  
- Negrinha é um livro de contos de Monteiro Lobato, publicado em 1920. Os contos reunidos neste livro são considerados por muitos como os melhores escritos pelo autor.

- O Misterioso Caso de Styles é um romance policial de Agatha Christie, publicado em 1920. É o primeiro livro da autora a contar com a participação do detetive Hercule Poirot.
 
Já entre os autores (as), cujos centenários de nascimento serão lembrados e comemorados em 2020, destaca-se João Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata pernambucano, nascido em 9 de janeiro, e autor da célebre obra Morte e Vida Severina, livro de poema regionalista e modernista, que narra o sofrimento na seca do Nordeste e a trajetória de migrante sertanejo em busca de um vida melhor na capital.


Outro centenário de destaque é da escritora e jornalista ucraniana, naturalizada brasileira, Clarice Lispector, a ser comemorado em 10 de dezembro. Sua obra é marcada por cenas cotidianas simples e tramas psicológicos, com pessoas comuns em momentos do seu dia a dia. Entre seus livros estão  A Paixão Segundo G H, Água Viva, Um Sopro de Vida, A Hora da Estrela e Laços de Família.

Entretanto, outros escritores (as) também merecem destaque neste ano, como Isaac Asimov, autor da trilogia Fundação, O Fim da Eternidade e do livro de contos Eu, Robô, entre outros. O centenário foi lembrado em 2 de janeiro.

O escritor José Mauro de Vasconcelos, chegaria aos 100 anos no dia 26 de fevereiro. Nascido no Rio de Janeiro, passou a infância em Natal, no Rio Grande de Norte, e retornou ao Rio a bordo de um navio cargueiro. Essas experiências serviram de material para sua extensa obra, marcada pela simplicidade, leveza e tipicamente brasileira. Destaque para sua obra Meu Pé de Laranja Lima e Coração de Vidro, livros belíssimos e de cortar o coração.

Em 13 de agosto será comemorado os 100 anos do nascimento de Ruth Guimarães, poetisa, cronista, contista, romancista e tradutora. Foi a primeira escritora brasileira negra que conseguiu projetar-se nacionalmente com o lançamento do romance Água Funda.

Já 16 de agosto será marcado pelo centenário de Charles Bukowski, poeta, contista e romancista estadunidense, nascido na Alemanha. A obra de Bukowski encanta gerações pelo caráter obsceno, despojado e coloquial. Dentre seus poemas, destacam-se O Pássaro Azul, Então Queres ser um Escritor? e Poema dos Meus 43 Anos.

E finalmente o autor da clássica distopia Fahrenheit 451, Ray Bradbury, faria 100 anos em 22 de agosto. Escritor americano, Bradbury foi romancista e contista de ficção científica e fantasia. Escreveu ainda As Crônicas Marcianas, entre outros

Vale lembrar que a cidade de Kuala Lumpur, na Malásia, foi nomeada pela Unesco como a Capital Mundial dos Livros de 2020, por centrar na educação inclusiva, no desenvolvimento de uma sociedade baseada no conhecimento e na leitura acessível para a população.

Como Capital Mundial, Kuala Lumpur irá apresentar uma série de ações, como a construção de uma “cidade do livro”, a Kota Buku Complex, além de uma promover campanha de leitura para usuários dos trens: desenvolver serviços digitais e de acessibilidade para a Bibliotea Nacional da Malásia e implantar cerca de 12 bibliotecas em  regiões pobres da cidade. O título passa a valer em 23 de abril, Dia Mundial do Livro. Por enquanto, a atual Capital Mundial do Livro é Sharjah, nos Emirados Árabes.

E para finalizar, não poderia deixar de citar os eventos literários deste ano. Veja quais feiras e festas já têm datas confirmadas:

- Flipoços – Festival Literário de Poços de Caldas
Temática: Mulher e Literatura da Poesia ao Poder
De 25/04 a 03/05 (MG)



- Feira do Livro da Unesp
De 01 a 05/04, em São Paulo (SP)
 
- FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos
De 27 a 31/05, em Belo Horizonte (MG)

- Feira do Livro de Ribeirão Preto
De 30/05 a 07/06 (SP)

- Fliaraxá – Feira Literária Internacional de Araxá
Autores homenageados: José Eduardo Agualusa e Conceição Evaristo
Patronos: João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector
De 01 a 05/07 (MG)

- Flip – Festa Literária Internacional de Paraty
Autora homenageada: Elizabeth Bishop
De 19/07 a 02/08 (RJ)

- Flima – Feira Internacional da Mantiqueira
De 20 a 23/08 (Santo Antnio do Pinhal – (SP)

 Bienal Internacional do Livro em São Paulo
De 03/10 a 08/11 (SP)

- Fórum das Letras em Ouro Preto
De 11 a 15/11 (MG)                                                                                                 

domingo, 29 de dezembro de 2019

Retrospectiva Literária 2019

Minhas leituras em 2019

Este foi um ano de leituras incríveis e prazerosas, mantendo praticamente o mesmo ritmo de 2018. Pretendia ler mais, mas nem por isso deixei de atingir metas, pois este ano li mais livros escritos por mulheres, tanto que cheguei em setembro percebendo que só tinha lido um autor homem até aquele momento. Não foi proposital, mas à medida que você vai lendo mulheres, acaba descobrindo outros livros escritos por elas e o interesse vai aumentando. Foi uma delícia! Mas quero manter um certo equilíbrio, então para 2020 vou continuar lendo livros escritos por mulheres, mas por homens também. O importante é ter prazer no que se lê.

Vamos então à minha Retrospectiva Literária 2019:

A fantasia que me encantou:

Kafkianas, de Elvira Vigna
Não chega a ser uma fantasia, mas a proposta de Elvira em recontar contos de Kafka foi mágica e supreendente. Nunca tinha lido nada dela e gostei muito. 

O clássico que me marcou:

Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos
Faz tempo que eu queria ler esse livro e este ano a oportunidade surgiu. Que bom!
É lindo, saudosista, delicado, triste, belo, emocionante. Chorei muito, quase não conseguia prosseguir na leitura, mas cheguei ao final totalmente entregue. Eu já tinha lido um livro do autor antes: Coração de Vidro, que é bastante tocante e li várias vezes. Hoje não tenho mais coragem de ler, porque o livro, embora belo e necessário, é muito triste, de cortar o coração.

O terror que me arrepiou:

As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enriquez
Os contos narrados pela autora são mesmo de arrepiar, mas sua prosa é uma delícia. Vale a pena se aventurar e sentir medo.

O livro que me fez refletir:

Memórias da Plantação, de Grada Kilomba
A autora foi uma grande descoberta, porque não a conhecia. O livro traz episódios cotidianos de racismo, escritos por meio de histórias com um viés psicanalítico. Para mim foi essencial porque pude conhecer e compreender melhor a questão. Essencial.

O livro que me fez chorar:

Os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk
O livro da Nobel de Literatura deste ano parecia despretensioso, enveredou para o suspense e o policial e culminou como uma poderosa bandeira contra a crueldade para com os animais. É de arrancar lágrimas e reflexões.
Entretanto, outros três livros também me fizeram chorar copiosamente: O Meu Pé de Laranja Lima, que já comentei, e Jardim de Inverno e O Olho Mais Azul, que falarei mais para frente.

O livro que me decepcionou:

A Paixão pelos Livros, vários autores
Adoro livro que fala sobre livros e, por isso, a expectativa quanto a essa obra era grande. Embora alguns textos sejam deliciosos, outros, entretanto, me pareceram enfadonhos. Nota 6.

O livro que me surpreendeu:

Fique Comigo, de Ayòbámi Adébáyò
Livro incrível da escritora nigeriana, que me arrebatou do início ao fim. O romance é narrado pela protagonista Yejide e pelo seu marido Akin, de forma a conhecer e compreender os dois lados. A trama mescla conflitos familiares pela necessidade de se ter filhos, com a situação política do país. É surpreendente.

O livro que devorei:

A Louca da Casa, de Rosa Montero
Então, eu não falei que gosto de livro que fala sobre livros? Pois é, esse é um belo exemplo pela maneira bem humorada e tocante da narradora-autora. É uma delícia, sem falar na dica que dá de outros livros. Maravilhoso!

A capa mais bonita:

Só Garotos, de Patti Smith
A autora e seu amigo, o fotógrafo Robert Mapplehorpe, ilustram a capa, em uma foto afetiva que mostra o amor e a amizade entre os dois. Muito linda, sem falar na história em si, nada convencional, permeada de altos e baixos, escrita com paixão e sensibilidade por Patti Smith. 

O primeiro livro que li no ano:

Desta Terra nada Vai sobrar a Não Ser o Vento que Sopra sobre Ela, de Ignácio de Loyola Brandão
O livro que ganhei no amigo secreto do clube Traçando Livros foi o escolhido para abrir as minhas leituras de 2019. Eu já tinha lido dele Não Verás País Nenhum, obra maravilhosa e inesquecível, então quis me aventurar nessa nova distopia de Loyola Brandão. Ele não decepcionou, embora ainda goste mais de Não Verás País Nenhum.

O livro que li por indicação:

O Quarto Branco, de Gabriela Aguerre
A indicação partiu de uma crítica lida, depois escolhida para discussão no clube Leia Mulheres. Romance delicado, trata de memória e descendência, e a construção de um lugar para guardar a dor. Muito bom.

A frase que não saiu da minha cabeça:

"A vida sem ternura não é lá grande coisa", de Meu Pé de Laranja Lima.
Frase que merece ser refletida e repetitida, diariamente. 

O (a) personagem do ano:

Foram duas:
Pécola, de O Olho mais Azul, de Toni Morrison.
A menina negra que queria ter um olho azul para ser bela e amada enterneceu meu coração. Sua construção é bastante tocante. Toni Morrison escreve lindamente, com firmeza, verdade e emoção, dando forma e alma aos seus personagens.

Janina, de Os Ossos dos Mortos
Engraçada, esotérica, apaixonada pelo poeta William Blake, maluca, defensora dos animais. Esses são apenas algumas das características de Janina, que detesta seu nome, e dá nomes aos outros conforme eles lhe parecem. Personagem única, ela nos encanta e emociona, tornando-se inesquecível.

Livro mais longo:

Jardim de Inverno, de Kristin Hannah
Com 416 páginas, esse foi o livro mais longo que li no ano e confesso que fiquei entregue. Até pouco mais da metade o enigma que envolvia uma das personagens era desconhecido e a história tendia a conflitos familiares, entretanto, depois disso, a narrativa tem uma reviravolta surpreendente e terrivelmente emocionante. Fui às lágrimas sem me segurar.

Livro mais curto:

Com Meus Olhos de Cão, de Hilda Hilst
A autora foi econômica neste livro, mas nem por isso deixou de ser impactante. Com 96 páginas, esse foi o livro mais curto que li e, como sempre acontece com as leituras de Hilda, o complexo se torna encantador. Se entendi, pouco importa. O que importa é que senti.

O último livro que terminei:

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
Primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher, em 1859, sob o pseudônimo de "uma maranhense", Úrsula é um livro à moda antiga, repleto de detalhes, mas nem por isso menos interessante, e eu não podia deixar o ano terminar sem lê-lo. Trata-se de um clássico, que aborda a questão da escravidão e o abolicionismo. Necessário.

O melhor livro nacional:

Olhos d' água, de Conceição Evaristo
Da autora eu já tinha lido Ponciá Vicência, e fiquei apaixonada pela sua prosa, mas quando li Olhos d'água fiquei totalmente entregue. Os contos que compõem o livro tratam da população afro-brasileira centrada na pobreza e na violência que sofrem. Recomendadíssimo.

O melhor livro que li em 2019:

O Olho Mais Azul, de Toni Morrison
Em seu primeiro romance, Toni Morrison comove, ao tratar com delicadeza, o desejo de uma menina negra, Pecola, de ter um olho azul para ser bonita e escapar do preconceito racial. O que mais impressiona no livro, além da história triste de Pecola, é a abordagem que a autora faz de outros personagens, alguns nem tão bons assim, mas sem julgar e culpar. Imprescindível.

Li em 2019... 33 livros.
Destes, 28 foram escritos por mulheres.

A minha meta literária para 2020 é:  
Ler mais, mais, mais.

Os 10 livros mais amados deste ano:

O Olho Mais Azul, de Toni Morisson
Memórias da Plantação, de Grada Kilomba
Fique Comigo, de Ayòbámi Adébáyò
Olhos D´Àgua, de Conceição Evaristo
Os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk
Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola, de Maya Angelou
As Mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto
Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia
Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos
Redemoinho em Dia Quente, de Jarid Arraes


E que venham mais e belas leituras em 2020.
Feliz Ano Novo de bons livros!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Retrospectiva Literária 2018


Em 2018 não li tanto quanto gostaria, mas li intensa e prazerosamente. Prossegui nas leituras de escritoras mulheres, mas sem perder os autores homens de vista. O bom é sempre o equilíbrio. Algumas releituras me deram muito prazer, como  O Estrangeiro, de Albert Camus, e A Revolução dos Bichos, de George Orwell, sempre atuais. E adentrei em outros territórios, conheci novos autores e li livros há muito pretendidos.  2018 chega ao fim na certeza de que li o melhor que pude, mas prometendo mais, ainda mais.

Vamos então a Retrospectiva Literária deste ano.

A fantasia que me encantou:


Memórias de Porco-Espinho, de Alain Mabanckou

Conheci Alain  na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty deste ano. Uma simpatia. Autor congolês, com dupla nacionalidade franco-congolês, Alain revisita nesse livro histórias da tradição oral da sua infância, dando voz a um porco-espinho assassino que seria o duplo nocivo do jovem Kibandi. Irônica e terna, essa fantasia te prende do início ao fim. Amei.

O clássico que me marcou:

Pedro Páramo, de Juan Rulfo

Há muito queria ler Pedro Páramo, um livro fininho, que tem uma história bem contada, precisa, sem excessos, e me pergunto por que não o fiz antes? Talvez porque há o momento certo para cada leitura e só em 2018 surgiu a oportunidade. Que bom. Sombras e mistério se misturam, trazendo o melhor do realismo mágico.

O thriller psicológico que me arrepiou:

Canção de Ninar, de Leila Slimani

Leila Slimani foi o nome do ano. Também presente na Flip, ela pode falar da literatura e de Canção de Ninar, livro que pega o leitor no seu início e expõe o lado perturbador na vida das mulheres. Recomendo

O livro que me fez refletir:

Cisnes Selvagens, de Jung Chang

Livraço define Cisnes Selvagens, que revela o lado nada bonito da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, por meio da trajetória de três gerações de mulheres. Necessário.

O livro que me fez chorar:

Cisnes Selvagens, de Jung Chang

Não poderia ser diferente. Em muitos trechos do livro me peguei emocionada, sem poder conter as lágrimas. A realidade choca e dói.

O livro que me decepcionou:

O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe

Talvez seja o estilo, talvez eu não entenda, o fato é que no terceiro livro que leio de Valter Hugo Mãe senti a mesma dificuldade que nos anteriores. Ás vezes me parece arrastado e me cansa. Embora aborde um tema extremamente importante e necessário – o modo como as mulheres são vistas e a violência que sofrem -, senti que o autor exagerou na dose e terminouo livro numa desesperança, pelo menos para mim. Mas não desisto dele e ainda continuarei lendo suas histórias.

O livro que me surpreendeu:


O Caderno Rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst

Hilda sempre me surpreende, até quando não a entendo. Nesse livro ela me chocou, mas não no sentido moral, e sim na ternura e delicadeza com que encerrou a história. Gostei muito.

O livro que devorei:

Ponciá Vicencio, de Conceição Evaristo

Delicado e forte; preciso e emocionante. A história de Ponciá me enterneceu, uma mulher comum, como tantas, guerreira, como muitas. Romance lindo da Conceição Evaristo.  


A capa mais bonita:

Nós, de Zamiátin

Linda demais. Aliás, não só a capa, mas a edição é primorosa.

O primeiro livro que li no ano:

O Conto da Aia, de Margaret Atwood

Como de costume sempre leio o livro que ganhei no amigo secreto do Traçando Livros, o clube de leitura do qual participo. E foi começar o ano com o pé direito nas leituras. Distopia terrível, mas belíssima e essencial.

O último livro que terminei:

Ponciá Vicencio, de Conceição Evaristo

Porque eu não queria terminar o ano sem ler Conceição Evaristo. E foi como fechar com chave de ouro. História linda, acho que não vou esquecer tão cedo da Ponciá.

O livro que li por indicação:


Meninos sem Pátria, de Luiz Puntel

Não foi bem uma indicação direta, porque acabei chegando a esse livro por causa da polêmica gerada pela proibição da leitura em uma escola do Rio de Janeiro. Alguns pais consideraram que o livro incitava o comunismo e a escola acatou, retirando do catálogo de leituras. Que tolice! História muito boa sobre a vida de adolescentes exilados com seus pais durante a ditadura militar. Mais que necessário.

A frase que não saiu da minha cabeça:

Chora Catarina, chora!, de Réquiem ao Navegador Solitário.

A frase é recorrente nessa história que me conquistou.  O cenário o Timor Leste, onde Catarina busca recuperar sua fazenda e aguarda a chegada do navegador solitário.

Melhor HQ:

Desconstruindo Una

A HQ conta a história de Una e de outras mulheres vítimas da violência masculina e da impunidade. O texto é amparado por imagens – desenhos – fortes e deastadores, em uma abordagem bastante impressionante. Recomendadíssimo.

O (a) personagem do ano:

I330, de Nós.

No início até me antipatizava com ela, mas ao final I330, uma mulher enigmática, rouba a cena dessa distopia pioneira. Sensacional.

O melhor livro nacional:

Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar

Que história fascinante e que estilo! Raduan Nassar sabe das coisas, pois Lavoura Arcaica é um deslumbre ao narrar a história de André e sua família, dominada pela figura do pai. Maravilhoso.

O melhor livro que li em 2018:


A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera

Esse livro me deixou entregue e eu nem li rápido, por ser muito denso. Tanto melhor porque pude apreciá-lo ainda mais, lendo lentamente cada página, cada linha. Me transportei para Praga naqueles dias e me vi, lado a lado com os personagens, partilhando suas histórias. Lindo demais!

Li em 2018... 30 livros

A minha meta literária para 2019 é:                                                                                 

Ler mais, mais, mais.

Top Cinco:

A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera
Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar
O Conto da Aia, de Margaret Atwood
Cisnes Selvagens, de Jung Chang
Ponciá Vicencio, de Conceição Evaristo

Menção Honrosa para:

Nós, de Zamitián
Réquiem ao Navegador Solitário, de Luís Cardoso
Pedro Páramo, de Juan Rulfo

E que venham mais e belas leituras em 2019. Feliz Ano Novo a todos!




domingo, 9 de dezembro de 2018

Beleza ferina

Frágil, mas ao mesmo tempo forte: curel e ainda belo. Assim é o livro de Thiago Prada, As Feridas do Cotidiano & Algumas Belezas Frágeis, publicado no segundo semestre deste ano pela Editora Penalux e que surpreende pela delicadeza dos textos curtos e diretos, carregados de histórias e observações do cotidiano, todas inspiradas na vivência do autor.

Com uma diagramação leve e clara, o livro contém 86 páginas, que podem ser lidas em apenas um dia. Eu, entretanto, preferi prolongar o prazer da leitura, apreciando os minicontos com tranquilidade no meu dia a dia. Isso fez da leitura uma experiência bastante agradável e, embora alguns textos sejam tristes e melancólicos, ainda assim trazem uma beleza intrínseca nas entrelinhas.

Alguns desses minicontos eu já conhecia do Facebook, onde o autor publica em seu perfil pinceladas dos textos do livro. Foi lá que li, pela primeira vez, o miniconto Destroços no Quintal, segundo Thiago, inspirado na figura de seu avó. Em três parágrafos, ele exprime emoção no simples ato de varrer as folhas de um quintal, uma tarefa ingrata por causa do vento, traduzindo assim toda uma existência, como na passagem:

“Às vezes parava para olhar ao redor, apoiado no cabo, e se parecia com os destroços de um navio encalhado numa ilha, uma visão de puro encanto para os netos, que imaginavam por quais águas teriam navegado tal embarcação, que agora naufragava aos poucos no destino de uma tarefa que nunca termina, em um quintal que sempre o salvaria do tédio das tardes quentes.”

Há muito mais com que se deleitar no livro. Vale a leitura!

Thiago Prada é um jovem escritor, poeta e professor, formado em Psicologia, pós-graduado em Filosofia Contemporânea e mestrado em Ciências Sociais. Publicou dois livros anteriormente de poesia: Os Céus de Van Gogh e Da Noite Sem Fim – Poéticas sobre Tristezas e Assombros, pela Caligo Editora. 

Sem dúvida uma grande promessa.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Retrospectiva Literária 2017

Em 2017 as leituras foram intensas e diversificadas. Contudo, procurei ler mais escritoras mulheres e acho que o resultado foi bom e surpreendente, embora tenha deixado de lado alguns autores que gostaria de ter lido. Esses ficarão para 2018... seja como for, gostei da maioria dos livros que me acompanharam e marcaram minha história nesse 2017 que chega ao fim.

Vamos então a Retrospectiva Literária deste ano.

A fantasia que me encantou:

A Raposa Sombria – uma lenda islandesa, de Sjön

Foi o meu primeiro contato com a literatura islandesa e a obra do autor. Achei fascinante essa fábula, que mistura o rigoroso inverno islandês a uma enigmática raposa. Uma jornada de transformações muito envolvente.

O clássico que me marcou:

O Capote, de Nikolai Gogol

Trata-se de um conto de extraordinária beleza, que mistura fantasia e realidade, sobre a arte da sobrevivência.

O livro que me fez refletir:

Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende

Romance surpreendente que me fez imergir na escrita de Maria Valéria Rezende. A jornada de Alice, uma professora que vê sua rotina alterada e passa a perambular pela periferia de Porto Alegre, suscitou reflexões e reconhecimento de mim mesma diante da história da protagonista. Identificação e alento foi o que senti.

O livro que me fez chorar:

O Xará, de Jhumpa Lahiri

Com uma escrita delicada e ao mesmo tempo profunda, Jhumpa envolve o leitor nesse romance em que Gógol, o protagonista, acha-se perdido entre duas culturas: a dos Estados Unidos, onde nasceu e vive, e a que veio da Índia, trazida pelos seus pais indianos. Tocante, emocionante, lindo. Amei e chorei muito.

O livro que me decepcionou:

O Pau, de Fernanda Young

Não que eu esperasse muito, mas tive boa vontade em ler esse livro, só que... Na verdade nem me decepcionei, eu simplesmente achei o livro muito ruim. Sem comentários. Não vale a pena.

O livro que me surpreendeu:

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas, de Philip K. Dick

Não é que duvidasse do talento de Philip K. Dick, mas como amo – e amo -  “O caçador de androides”, filme baseado nesse livro, é sempre um temor encontrar diferenças que ofusquem uma ou outra obra... enfim, as diferenças existem, mas o amor continua pelo filme e redobrou com o livro. Eu simplesmente adorei a leitura, descobri novas vertentes e me deleitei com as semelhanças. Muito, mas muito bom.

O livro que devorei:

O Voo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende

Devorar nem tanto, não no sentido de ler rápido, mas devorar em saborear, em me deleitar com o livro. História fascinante, dolorida, linda, emocionante, delicada. A trajetória do pedreiro Rosálio, que sonha em aprender a ler, e que vai ao de encontro de Irene, uma prostituta, que lhe ensina o caminho das letras, é pura poesia. Encantamento!

O livro que comecei, mas não terminei:

Esse Cabelo, de Djalmilia Pereira de Almeida

Autora angolana com uma temática bem interessante, mas o estilo é difícil, a leitura não fluiu e não consegui entender muitas passagens. Tive de parar. Espero retomar mais para frente, com mais calma.

A capa mais bonita:

O Marechal de Costas, de José Luiz Passos

Belíssima. E o livro é muito bom.

O primeiro livro que li no ano:

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, de J. K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne

Foi o livro que ganhei no amigo secreto, sempre começo o ano com o livro que ganhei no final do ano. Ah, gostei da história. Tem um ar de nostalgia no reencontro com personagens e universo queridos.

O último livro que terminei:

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

O livro ficou na lista o ano inteiro e eu não poderia terminar 2017 sem, ao menos, começá-lo. Leitura deliciosa, que lembra muito a infância.

O livro que li por indicação:

Yuxin, de Ana Miranda

Não foi bem uma indicação, mas foi. Ganhei o livro no meu aniversário do ano passado, mas acabei lendo só em 2017. Romance ambientado na floresta amazônica, com linguagem ousada e muito interessante. A escrita tem som e chega ao coração. Acompanhado de CD com passagens e sons do livro. Muuuuuito bom.

A frase que não saiu da minha cabeça:

“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”, em O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago.

O (a) personagem do ano:

Rosálio, de O Voo da Guará Vermelha. Muito lindo.

O melhor livro nacional:

O Voo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende.

O melhor livro que li em 2017:

O Voo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende.

Li em 2017... 33 livros

A minha meta literária para 2018 é:
                                                                               
Diversificar gêneros literários, prosseguir na leitura de escritoras mulheres, concluir sagas e ler mais José Saramago.

Top Cinco:

O Voo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende
Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende
O Xará, de Jhumpa Lahiri
Jerusalém, de Gonçalo Tavares
Réquiem – Uma Alucinação, de Antonio Tabucci

Menção Honrosa para:

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón
A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir
Clara dos Anjos, de Lima Barreto

E que venham mais e belas leituras em 2018. Feliz Ano Novo a todos!