
Em 2020, em meio a uma pandemia e desempregada, tive mais tempo para ler. E realmente fiz isso, prosseguindo nas leituras de livros escritos por mulheres, não perdendo também de vista os livros escritos por homens. Apesar de ter mais tempo, e ler regulamente, não cheguei a ler todos os livros que tinha planejado - na verdade, a lista não acaba... que bom!. Neste final do ano perdi um pouco o ritmo, mas os livros que li foram extraordinários e valeram muito a pena.
Só não consegui participar dos Clubes de Leitura, que neste ano
aconteceram virtualmente. Uma pena, pois não me adapto a discussões on-line.
Mas acompanhei o calendário e li alguns livros escolhidos.
Para 2021 o que espero, de verdade, é a vacina para combater a
Covid-19, arrumar um emprego e continuar lendo, sempre e com qualidade. Não
importa quantos livros lerei, o importante é prosseguir nessas viagens
prazerosas, inspiradoras e consoladoras.
Vamos então à minha Retrospectiva Literária 2020.
O primeiro livro que li no ano:
Marrom e Amarelo, de Paulo Scott
Livro que ganhei no amigo secreto do clube Traçando Livros, de 2019, tinha de ser o primeiro a ser lido neste ano. Obra impactante sobre a questão racial na história de dois irmãos.
A fantasia que me encantou:
O Alforje, de Bahiyyih Nakhjavani
Não sei se pode ser considerado como uma fantasia, mas o deserto, as
cidades de Meca e Medina, com seus múltiplos personagens me envolveram em um
clima de magia e sedução fantásticos. Livro maravilhoso.
O suspense que me prendeu:
Distância de Resgate, de Samanta Schweblin
Livro curtinho que te prende do início ao fim em uma trama envolvente
e sinistra. A história se passa em um campo atingido pelo uso de agrotóxicos,
gerando transformações sombrias pela contaminação. Da autora gostaria de ler
ainda Pássaros na Boca, quem sabe em
2021.
O clássico que me marcou:
Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf
Sim, é um clássico. E que clássico!
Trata-se de esplêndido ensaio/ficção que busca refletir sobre a presença das mulheres na literatura, do século XVI até o início do século XX. Essencial.
O livro que me decepcionou:
O Nome da Morte, de Klester Cavalcanti
Fiquei pensando se citava esse livro ou Todos Nós Adorávamos Caubóis, da Carol Bensimon, que não me “pegou”
tanto assim. Mas o critério foi pela expectativa, e ela era alta
em “O Nome da Morte”. Faz um bom tempo que queria ler esse livro, foi muito bem
recomendado e o autor um jornalista incrível. O livro é muito bem escrito e
narrado, com muitos detalhes, beirando à perfeição, só que esperava mais, e
acho que algumas passagens foram muito destacadas em detrimento de outras que
poderiam enriquecer ainda mais a história real de Júlio Santana, o homem que já
matou 492 pessoas. Nota 7.
O livro que me fez refletir:
Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro
Faz tempo que queria ler Djamila, e acabei começando por esse “manual”, uma pequena joia que me fez pensar na questão do racismo e na mudança de atitudes com relação a isso. Extremamente necessário.
O livro que me surpreendeu:
Nada, de Carmen Laforet
Livro incrível que superou minhas expectativas. Narrado pela protagonista Andrea, uma jovem órfã que se muda para a casa da avó, em Barcelona, onde pretende cursar Letras. Na cidade, o cenário que encontra é desolador, depois da Guerra Civil Espanhola, refletindo na vida das pessoas e dos familiares. A “Rua Aribau”, endereço da família de Andrea, me deixou saudades.
O livro que me fez chorar:
As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta
Geralmente choro nas leituras que faço, mas nesse livro as emoções me tomaram de tal maneira que não conseguia parar de chorar. Lindo, dolorido, comovente. A história de Nnu Ego, jovem da etnia igbo, que precisa cumprir a tarefa imposta às mulheres de gerar filhos, e da vida no casamento, é enternecedora e envolvente. Muito bem escrito e em uma edição primorosa da Tag, não tem como não se emocionar.
O livro que devorei:
As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta
Chorei e devorei!
A capa mais bonita:
Todos os Nossos Ontens, de Natalia Ginzburg
Capas bonitas ressaltam um livro, mas confesso que o que me faz comprar não é a “aparência”, mas o conteúdo, a história. No entanto, não pude deixar de me extasiar com a surpreendente edição da Tag para o livro de Natalia Ginzburg, cujo impacto começa pela belíssima capa. De tirar o fôlego! Para coroar essa beleza, um romance extraordinário, cuja história acompanha o quotidiano de duas famílias do norte da Itália desde o período que antecede a segunda guerra até o fim do conflito. Os personagens são marcantes e inesquecíveis.
O livro que li por indicação:
Papel Manteiga para Embrulhar Segredos, de Cristiane Lisbôa
A indicação foi da amiga, jornalista e contadora de histórias, Renata
Rossi. O livro é um encanto, e a história é contada por meio de cartas que a
protagonista envia para a bisavó, acrescidas de receitas culinárias que ela está
aprendendo com uma “estranha” senhora.
A frase que não saiu da minha cabeça:
Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome, de Perto do Coração Selvagem, de Clarisse Lispector.
No centenário da escritora, me aventurei pelo livro e me identifiquei
com a frase. Já conhecia a frase, mas lida assim na obra ficou ainda mais clara e
marcante.
O (a) personagem do ano:
Foram duas:
Anne Frank, de O Diário de Anne Frank
Personagem real, Anne Frank encanta e emociona com seu relato sobre a
perseguição aos judeus durante o nazismo e o dia a dia no esconderijo junto a
família e amigos. Admiro-a ainda mais.
Aleli de Maria Altamira, de Maria José Silveira
Mãe de Maria Altamira, que dá nome ao livro, Aleli é sobrevivente de
uma tragédia em família no Peru, que parte para uma viagem sem rumo pela
América do Sul até aportar no Brasil. Pelo caminho vai acumulando infortúnios
que a tornam ainda mais forte e determinada. Inesquecível.
Livro mais longo:
As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano
Não costumo ler livros longos, embora tenha alguns que eu gostaria
muito de ler, quem sabe o ano que vem. Seja como for, com 394 páginas, o livro
de Galeano foi o mais longo que li no ano e foi muito bom para poder conhecer
um pouco mais da história da América Latina, das conquistas, conjuntura
econômica e social, a dependência e aspectos culturais. Leitura indispensável
para todos.
Livro mais curto:

Os Velhos Também Querem Viver, de Gonçalo M. Tavares
Livro curtinho, com 85 páginas. Gonçalo tem o dom de dizer muito com
tão poucas palavras. A partir do drama grego Alceste, de Euripedes, o autor discute amor, sacrifício e morte, com
elegância e sensibilidade.
O último livro que li:
As Três Marias, de Rachel de Queiroz
Romance de formação de uma das mais importantes escritoras
brasileiras, As Três Marias traz como
protagonistas três mulheres, três amigas, com suas histórias da infância à vida
adulta. Uma delicadeza!
A melhor HQ:
Fun Home: Uma Tragicomédia em Família, de Alison Bechdel
Graphic novel impressionante sobre conflitos familiares, literatura e sexualidade. A autora conta, com graça, força e emoção sua relação com a família, sobretudo com o pai, e fala sobre homossexualidade e livros. Amei!
O melhor livro-reportagem:
Brasil Construtor de Ruínas, de Eliane Brum
A autora, uma das jornalistas mais brilhantes e premiadas do Brasil,
traz um “olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro”, ajudando-nos a compreender os
acontecimentos ocorridos na última década para tentar encontrar uma luz em meio
a todas as mudanças. Um livro forte, verdadeiro e documental.
O melhor livro nacional:

O Que Ela Sussurra, de Noemi Jaffe
Nunca tinha lido a autora e me encantei com sua escrita nesse livro que
narra, com suas próprias palavras e invenções, a vida de Nadejda, a jovem russa
que guardou na memória os poemas de seu marido – o poeta Ossip Mandelstam -,
morto pela censura soviética, evitando assim que fossem apagados para sempre da
história. Lindo, poético, comovente.
O melhor livro que li em 2020:
As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta
O páreo foi duro, muitos bons livros estavam pelo caminho, mas desde o
princípio, quando li o livro de Buchi já sabia que esse era o melhor. Forte e
emocionante do início ao fim. Chorei, devorei, amei!
Li em 2020... 54 livros.
Destes, 2 foram releituras, 3 HQs e 38 foram escritos por mulheres.
A minha meta literária para 2021 é:
Ler, ler e ler.
- Pequeno Manual Antirracista, Djamila
Ribeiro
- Eu, Tituba Bruxa
Negra de Salem, Maryse Condé
- O Que Ela Sussurra,
Noemi Jaffe
- Maria Altamira, Maria José Silveira
- Todos os Nossos
Ontens, Natalia Ginzburg
- Um Teto Todo Seu,
Virgínia Woolf
- Nada, Carmen Laforet
- O Alforje, Bahiyyih Nakhjavani
- Água Funda, de Ruth Guimarães
- Hibisco Roxo, de Chimamanda N. Adichie
- A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel
E que venham mais e belas leituras em 2021.
Feliz Ano Novo vacinado e literário a todos!
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