terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cativaram-me

– O que quer dizer cativar ?
– Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
– Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços...
– Criar laços?
– Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Escolhi este pequeno diálogo, extraído de O Pequeno Príncipe, ainda empolgada pela exposição sobre o livro e o autor que aconteceu no Ibirapuera e que visitei no domingo, como mensagem de final de ano a todos aqueles que acompanham e lêem este blog.

Por meio dele pude conhecer e seguir outros blogs, aumentei meu círculo de amizades, descobri outras leituras e compartilhei meus textos.

Espero que em 2010 essa sintonia continue e se amplie ainda mais.

Estarei de férias neste período, entre Natal e Ano Novo, mas no início de janeiro estarei de volta, pronta para outras leituras e até releituras. E que rendam muitos posts.
Bom Natal! Um feliz Ano Novo!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Encontrando o rumo

Ele fazia Engenharia na Unicamp no final dos anos de 1970, gostava de “pegar onda” e tinha o vigor da juventude nos olhos e por todo o corpo. Ao completar 20 anos, sua vida deu uma guinada profunda após um acidente que o deixou tetraplégico. O Brasil perdia ali mais um engenheiro, quem sabe..., mas ganhava um novo expoente na literatura nacional e que viria a se confirmar anos depois: Marcelo Rubens Paiva.

Hoje, aos 50 anos, o autor de Feliz Ano Velho contabiliza um respeitável currículo de obras literárias, como Blecaute, Ua:brari, As Fêmeas, Bala na Agulha, Não és Tu Brasil, Malu de Bicicleta e O Homem que Conhecia as Mulheres. Marcelo é ainda jornalista e escreveu diversas peças para o teatro, como No Retrovisor, com Marcelo Serrado e Otávio Muller.

Se fosse perguntar a ele se na juventude imaginava que sua trajetória mudaria de tal maneira, acredito que ele responderia NÃO. Mas a vida é feita de percalços, nem sempre previsíveis, é certo, diria até que na maioria das vezes. E o acaso acontece, conduzindo-nos por um novo caminho, por uma direção que não esperávamos, mas talvez necessária.

Li Feliz Ano Velho no auge do seu lançamento e me encantei com a história daquele menino, cuja infância fora marcada pelo “desaparecimento" do pai, o ex-deputado federal Rubens Paiva, pela ditadura militar. Marcelo narra o acidente que o paralisou, as consequências advindas dele, a recuperação, a adaptação e a nova vida com uma franqueza dilacerante. Se falta trato literário de iniciante nas letras, sobra emoção no texto. E foi essa emoção que cativou milhares e milhares de leitores, transformando o livro em um best seller dos anos de 1980.

A partir dali, Marcelo direcionou a sua vida, estudou Literatura, fez teatro, se aperfeiçoou. E o que parecia ser um “modismo”, uma onda passageira da década, materializou-se num sólido escritor.

A vida é feita de reviravoltas mesmo. E talvez elas aconteçam para que possamos seguir em frente, quando as coisas ameaçarem de cair no marasmo.

Ontem minha sobrinha Luciana, que também é minha afilhada, e por coincidência – ou não – é fã de Marcelo Rubens Paiva, desde que leu Feliz Ano Velho, seguido dos outros títulos do autor, tornou-se uma profissional diplomada na cerimônia de colação de grau.

Depois de flertar, quando adolescente, com a Psicologia Investigativa, de ter decido em seguida abraçar a Fisioterapia, ciência na qual quase chegou a se formar, finalmente Luciana encontrou seu rumo na Estética. Hoje, é uma técnica da área.

Como todas as formaturas do gênero, a dela não podia deixar de mesclar momentos de emoção com episódios de tédio e cansaço pelo prolongamento da cerimônia. Então aprovetei para relembrar dela pequena, das travessuras que fazia, dos sonhos que acalentava, das dúvidas e dos medos que tinha, dos seus acertos e erros, dos shows de rock e até os de pagode (é ela teve essa fase) em que íamos juntas e das aventuras que promovíamos. Pude acompanhar tudo, bem de perto. Que bom!

O tempo passou voando. Luciana é uma mulher e uma profissional que inicia um novo capítulo no livro da sua vida. O prefácio já está escrito, agora cabe a ela começar a preencher as páginas em branco que se seguem, deixando definitivamente para trás o seu feliz ano velho.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Fim da tecnologia impressa?

Outro dia, no curso da Pós, depois de uma aula “psicofilosófica” (não sei se este é o termo certo, e se existe, mas não me ocorre outro) sobre consciente e inconsciente coletivo e o papel transformador do jornalista na sociedade, o professor indicou mais um livro para aprofundar nossos conhecimentos na matéria.

Na pressa em anotar o título no caderno eu pensava em procurá-lo na biblioteca, antes de decidir se iria comprar ou não, se valeria a pena. Sentado ao meu lado, meu colega João também anotava, mas, ao contrário de mim, se apressou em me confidenciar:
– Vou ver se “baixo” na Internet.
Não pude deixar de rir e comentar:
– E eu aqui pensando em procurar na biblioteca...
Sinal dos tempos.

Pensei então na discussão em pauta, nos últimos anos, sobre o futuro do livro e dos meios impressos frente ao crescente avanço da tecnologia digital e da internet como meios de divulgação de textos e escritos diversos.

Para Zuenir Ventura, o assunto não é novo. “Ouço essa história desde que comecei minha carreira, em 1958, especialmente quando surge uma nova tecnologia”, afirmou o escritor em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Ontem à noite, ele participou do Sempre um Papo, encontro literário promovido no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, onde falou sobre o futuro do livro e os rumos do jornal impresso. Infelizmente, não pude participar, mas ainda assim gostaria de falar sobre o assunto.

Na entrevista, Zuenir acredita no ajuste e não a extinção desses meios ameaçados. “O jornal sobreviveu ao rádio, à televisão e, agora, resistirá diante da Internet. O que acredito ser o caminho da sobrevivência é a formulação de sua pauta, ou seja, o texto do jornal impresso deverá ser cada vez mais interpretativo e não apenas informativo”, destacou.

É inegável a contribuição da tecnologia digital para a difusão da leitura e do conhecimento, mas a quantidade de informações veiculadas na internet, por exemplo, mais confunde e dispersa. Além disso, há uma qualidade na obra impressa, muito bem lembrada por Zuenir, que não existe na ferramenta digital: o prazer olfativo de se folhear um livro. “Isso ainda é insubstituível”, declara.

A afirmação me remete até a um outro comentário sobre a possibilidade de extinção do livro, feito pelo escritor norteamericano Paul Auster, em entrevista ao jornalista Sérgio Vilas Boas, já comentada aqui neste blog, mas que vale a pena sempre repetir:

"– ... a leitura é uma das raras experiências humanas em que dois estranhos se encontram numa situação de suposta intimidade. E é por isso que ainda descobrimos um pouco de humanidade nesse tipo de experiência. É insubstituível. Trata-se de um importante elemento para estar vivo; abrigo um para o outro, num nível profundo e aberto."

É como bem questionou o escritor e cartunista Ziraldo:
– Onde é que vamos deixar riscada, com nosso lápis, a frase que vai marcar nossa vida?

Já em um interessante artigo veiculado pela internet, Millôr Fernandes, escritor, desenhista, humorista e dramaturgo, destacou o objeto livro como um revolucionário conceito de tecnologia de informação. O nome? Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

Com o humor que lhe é característico – e muita criatividade –, Millôr elenca as vantagens dessa tecnologia, como um avanço fantástico. “Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!” E por aí vai (veja o texto completo aqui http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=3689 )

Acredito que a polêmica não se esgotará, assim como a tecnologia impressa. Penso como Zuenir, que ela precisa de ajustes e, na certa, acabará se adaptando. O que importa, na verdade, não é discutir se o livro ou o jornal irão acabar, mas sim o presente e futuro da leitura.

Neste ponto, estou com Galeno Amorim, que em seu blog lembrou que "entre tudo que nasce e se aventa, o fundamental é que o livro e a leitura estejam sempre ao nosso lado". E tanto faz se são "livros em braile, audiolivros, livros eletrônicos, livros de bolso, em caixas de fósforos, livros artesanais, de papel, de plástico, de madeira e os livros vivos, com pessoas contando suas histórias a leitores que ouvem o que se tem pra ser dito. De preferência, bem pertinho, para que todos possam ter, ao alcance das mãos, sua dose diária de prazer, conhecimento, cultura e liberdade".

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Fome de ler


Nesta época do ano, de comemorações e festas natalinas, quando a solidariedade costuma suavizar os corações, é comum as pessoas compartilharem seus ganhos e sucessos, fazendo doações aos menos favorecidos. São alimentos, roupas e brinquedos que fazem a alegria e garantem o Natal daqueles que têm muito pouco ou nada.

Mas existe uma outra fome que aos poucos vem sendo percebida também – e já não era sem tempo: a fome de ler.

Por isso, iniciativas que venham contribuir para saciar essa necessidade, tão básica quanto à alimentação, devem ser divulgadas e incentivadas. E uma delas é a campanha da rede de drogarias Droga Raia – “Passe adiante uma história. Doe um livro “, realizada pelo segundo ano consecutivo”.

O objetivo é arrecadar livros que estejam em bom estado de conservação para a criação e manutenção de bibliotecas próximas às filiais da rede.

Para colaborar, é bem simples. Basta que o cliente passe em uma loja e deixe sua contribuição no local destinado à campanha. Ou seja, a caixa “A leitora”, uma simpática personagem criada pela Droga Raia, apaixonada por livros e que cuidará de tudo até a distribuição.

As doações poderão ser feitas até o fim de dezembro nas filiais participantes, espalhadas por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. Portanto, ainda dá tempo.
Para mais informações e saber a filial mais próxima da residência é só ligar para (0800 979 7242) Raia Atendimento a Clientes.

Isso me lembra até da música Comida, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Brito, que fez – e faz – muito sucesso na interpretação dos Titãs. Há um trecho que diz:

... a gente não quer só comida
a gente quer comida, diversão e arte.

Neste Natal, doe não só alimentos, roupas ou brinquedos, mas livros também.
E sacie a fome de leitura de outras pessoas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Selo. Agora de qualidade


Uma das coisas boas de se fazer um blog, além daquela de se poder expressar livremente, é conhecer outros blogueiros e compartilhar ideias.

Nesse pouco tempo de blogosfera, ganhei a companhia não só de amigos queridos, mas também de blogueiros que só conheço virtualmente e que passaram a me acompanhar nas minhas divagações. Entre estes, a Carla Martins, do Leitura (mais que) Obrigatória, que me presenteou a semana passada com um belo selinho, desta vez de Qualidade, o que me deixou muito orgulhosa.

Pelas regras, devo escrever uma lista com oito características minhas e convidar oito “blogueiros” para receber o selinho.

Então lá vai...

As 8 características minhas, do meu ponto de vista, é claro, são:

- Amiga
- Organizada
- Flexível
- Sincera
- Tímida
- Otimista
- Batalhadora
- Controlada

E os blogs indicados são:

Anatomia de pensamentos

Mundo da Princesa Amnésia

Universo Para Lego

HAPPINESS

Colcha de Retalhos

Narrativas e Divagações

Ser e tecer

Quero tombo, não rasteira

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sobre figuras

Às vezes me pego pensando no quanto a linguagem é fascinante. O simples ato de comunicar-se, de se fazer entender, por meio de signos verbais ou não, é uma das maneiras mais simples e diretas de alcançar um outro ser, promovendo assim uma verdadeira comunhão entre as espécies.

Contudo, é por meio da fala que o ser humano expressa melhor sua necessidade de interação com o outro. E, paralelo a isso, vem a escrita, uma forma de representar não só a lingua falada, mas também de registrar os acontecimentos, a história, a vida.

Assim, há formas – e formas – de escrever um texto, de transmitir uma ideia, um fato, ou uma mensagem qualquer, para que possam ser passados e assimilados. E um dos recursos que mais ajudam a dar não só a informação, mas também proporcionar uma função estética ao texto são as figuras de linguagem. Ou seja, empregar uma palavra por outra que a recorda.

Lembro que ao estudar as figuras de linguagem na escola, fiquei encantada com os inúmeros recursos que ela possibilita, tornando o texto mais agradável, mais atraente. Gostava, por exemplo, da aliteração, que consiste em repetir sons de consoantes, fonemas idênticos; da hipérbole, que usa o exagero para expressar e acentuar uma ideia; da antítese, que destaca situações opostas; da personificação, que atribui sentimentos a coisas inanimadas e, é claro, da metáfora, que compara dois termos, e já comentada aqui neste blog.

Sábado passado, no curso da pós, tive uma aula sobre o assunto e pude recordar-me de uma outra forma de figura que até então havia esquecido, mas que tem uma função bem bacana dentro de um texto: a metomínia (ou sinédoque). Ela consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles.

E um dos mais belos exemplos que vi ali – e li – sobre a utilização da metomínia foi na abertura de uma matéria realizada pelo repórter Guilherme Goulart, para o Correio Braziliense, a cerca do grande número de livros avariados nas bibliotecas públicas de Brasília:

“A história do líder nazista Adolf Hitler está desaparecida. As diferenças entre artérias e veias são um mistério. Não há mais como pesquisar as relações da astronomia com os dias da semana. Muito menos entender a beleza insinuante de Capitu, a musa do escritor brasileiro Machado de Assis. De tão maltratados, os livros são impedidos de ensinar. Sofrem nas prateleiras das bibliotecas e nas mãos dos bandidos literários”.

Não é preciso nem dizer porque gostei. Além de me "pegar" logo de "cara" com um assunto que me interessa, o repórter inovou, criou um estilo diferente, recorrendo às figuras de linguagem para fugir do lugar comum. Ele não só fez um texto mais saboroso e dinâmico, mas informou prendendo a atenção do leitor.

Pois é, quanto mais eu leio, mais eu gosto.
E não é exatamente este o ideal de um bom texto?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A bolsa

Andar de metrô é, muitas vezes, uma grande aventura, mas também um tormento, sobretudo naqueles dias em que os trens estão lentos. Isso porque já chegam lotados na plataforma abarrotada de gente ansiosa à sua espera, seja para chegar ao trabalho, ao médico, à escola ou ainda a algum compromisso qualquer. Não há humor que resista a esses contratempos no transporte público.

Para minha prima Luci, paulistana de nascimento, mas residente há mais de 20 anos em Porto Alegre, e que recentemente esteve em São Paulo para alguns compromissos, o metrô foi uma benção, que facilitou em muito sua caminhada pelas várias regiões de Sampa por onde o transporte metropolitano passa. Ela não teve do que reclamar.

Para mim, que tenho de me transportar todos os dias por ele para ir ao trabalho, ao curso, à yoga, ao lazer e à minha casa, concordo que me auxilia muito nos deslocamentos que faço, apesar dos problemas que semanalmente apresenta. Além disso, já até comentei aqui, e por diversas vezes, que o metrô tem para mim uma outra função, aquela que me leva ao sonho, solta a minha imaginação e me transporta para outros mundos: a leitura. É ali o meu local preferido para ler, é onde consigo fazer isso melhor.

Ultimamente, porém, descobri outros prazeres no metrô, além desse proporcionado pelos livros. Tenho me pegado, várias vezes, observando o ambiente dentro dos vagões, as pessoas que por eles viajam e ainda os objetos que estas carregam. Brincos, por exemplo, costumam chamar muito a minha atenção. Eu simplesmente adooooro, e fico tonta com tanta variedade que existe, um mais lindo que o outro.

Como não sou de ferro, um belo rosto masculino também é capaz de desviar meus olhos dos livros. Afinal, o que é bonito é para ser apreciado. E para não escapar muito da minha rotina literária, gosto de observar as pessoas que lêem e tentar descobrir que livros estão deixando-as tão compenetradas a ponto de ficarem no trem lotado, de pé, ainda com o exemplar aberto.

Esta semana, no entanto, um outro objeto, não muito comum nos meus interesses, reclamou minha atenção na viagem de volta para casa. Estava sentada comodamente no assento do lado esquerdo do trem, que fica de frente, quando uma moça entrou e se postou em frente à barra de ferro, no assento lateral, perto da porta. Ela vestia uma calça jeans, camiseta branca com detalhes em preto na manga. Era morena, tinha cabelos pretos amarrados em um rabo de cavalo, usava brincos de bijuteria em formato de flor e ainda um piercing na orelha. Um óculos, com lentes retangulares, de armação preta, aumentava um pouco o formato dos seus olhos castanhos escuros.

Nada disso tinha importância, afinal, a não ser por um acessório que ela trazia pendurado no ombro esquerdo: uma bolsa. De aspecto normal, parecia mais uma sacola grande, dessas de pano, com fundo preto, de formato retangular, em que se carrega inúmeras coisas. Sua estampa, coloridíssima, porém, era o que mais se sobressaía, e não poderia ser por outro motivo senão aquele ligado à literatura. Eram desenhos e mais desenhos de livros, enfileirados um sobre o outro ou um ao lado do outro, mostrando apenas a lombada com os títulos à amostra.

Dali de onde estava pude ver A Ilíada, de Homero; Fausto, de Goethe; Iracema e O Guarani, de José de Alencar; Madame Bovary, de Flaubert; Moby Dick, de Herman Melville; e O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Havia ainda um de Dostoiévski, que não consegui ler o título, assim como outros também. "Será que ela era leitora de todos aqueles clássicos maravilhosos?" – pensei.

Fiquei tão fascinada pela bolsa que não conseguia tirar os olhos dela. Esperava, sim, uma oportunidade de perguntar à moça onde havia conseguido aquela jóia, mas contive meu ímpeto. Nem quando o trem chegou ao meu destino, que por sinal também era o dela, tive a coragem necessária para alcançá-la e indagar. A bolsa sumiu da minha vista, de uma hora para outra, da mesma forma como surgira, misturando-se à multidão e à rotina do metrô. Restou a lembrança.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Coisas do coração

Sabe quando você faz aqueles projetos e resoluções de início de ano e no final do período resolve confrontar aquilo que foi proposto com a prática real? Pois é, foram muitos os que fiz, mas um dos meus desafios mais urgentes para 2009 era cuidar da saúde, com a ressalva de ir menos em médicos. Já sei o que tenho e até o que não tenho, além do mais a maioria dos profissionais de saúde, salvo algumas exceções, é claro, não deixa nem você terminar de falar, te faz sentir um invasor do tempo de alguém doente de verdade e nem te olha na cara. Já estava bem cansada disso tudo.

Então, tenho evitado procurar esses atendimentos, mas alguns deles são inevitáveis. Assim, hoje fui a uma consulta de rotina ao cardiologista, afinal, para uma pessoa que já passou dos 40 anos, com histórico familiar de hipertensão arterial e que há três anos teve o primeiro sinal de alerta da pressão alta, é necessário, pelo menos, fazer um check-up anual

Nesses anos não consegui manter um cardiologista único, fui pulando de profissional em profissional e por fim cheguei ao doutor Celso, indicado pela minha irmã, que me advertiu ser ele diferente da maioria dos médicos por te tratar mais como um ser humano do que como um simples paciente. Fui lá então conferir.

Cheguei cedo, o médico estava atrasado e a sala de espera repleta. Não me abalei, tinha tempo para ficar ali até o horário de entrar no trabalho e, para me ocupar, abri O Olho da Rua, de Eliane Brum, que estou lendo e do qual falarei mais para frente, em outro post. Não sei se foi uma boa idéia, mas é que a cada página a leitura vem ficando mais interessante, porém mais penosa também. Tenho me emocionado muito com as histórias e vez por outra me pego chorando nas linhas e entrelinhas do texto. Então, é preciso dar um tempo para me refazer até conseguir retomar a leitura. Ali, na sala de espera, não foi diferente, mas como o médico demorou a chegar e realmente não tem pressa de “despachar” seus pacientes, tive minutos de sobra para ler, me emocionar e me refazer antes de ser chamada.

Quando chegou a minha vez eu não imaginava que fosse ficar lá tanto tempo, afinal, as consultas podem demorar para os outros, mas para mim sempre voam, sei lá, sou muito objetiva e talvez o médico considere que eu não tenha nada de tão sério assim que mereça muito a sua atenção. Fui com esse espírito para a sala do médico, já contando de início o motivo de estar ali, “apenas para um atendimento de rotina por causa da pressão alta”, “para ver se está tudo bem”, “se preciso trocar a medicação ou não”.

No entanto, depois que disse isso percebi que a consulta não seria tão impessoal assim. Parecia que ele estava lendo a minha alma e me vendo como realmente sou, ou seja, percebendo que, além de exames e remédios, eu precisava também de atenção e interesse pela minha história, pela minha história de vida, ou seja, pelas razões que me levaram a procurá-lo, o histórico de pressão alta, apesar do meu biótipo – magra, não fumante – não condizer em nada com alguém que tenha esse problema. Ele conseguiu ali ver minhas emoções, a minha ansiedade que não consigo controlar, as minhas angústias, estas sim, uma das principais responsáveis pelo aumento da minha pressão, pelos meus problemas de gastrite, pelas dores na minha coluna, pelo meu intestino preguiçoso, talvez.

Confesso que fiquei desconcertada, sem chão, não esperava por isso e foi difícil não chorar. Talvez já estivesse frágil pela emoção da leitura que fizera antes e pelas minhas próprias emoções, com as quais tenho de lidar e estou lidando, mas é que às vezes a gente se depara com acontecimentos que são difíceis de digerir. E é aí que entra o profissional de saúde, aquele que nos faz enxergar tudo isso e nos coloca no eixo novamente. Seja com um remédio quando necessária, seja com aconselhamentos.

Aquela foi mais que uma consulta médica, foi um agradável bate papo, uma orientação para uma vida mais saudável. Claro, ele me examinou também, me pediu alguns exames e prescreveu uma nova medicação.

E, em meio a tudo isso, soube que ele escreve também, que tem um livro a ser publicado – Dinarte (diálogo e analogias da arteriosclerose e sua regressão). Foi escrito com base em dois personagens e vem sendo ilustrado de tal forma que lembra quadrinhos. Nossa, achei bárbaro e fiquei superinteressada! Apesar de ser bem específico, traz muitas informações sobre a saúde do coração e da importância de se resgatar o exercício das caminhadas para uma vida melhor. Quem sabe consiga ver quando for publicado.

Sai de lá mais aliviada, pronta a recomeçar, a cuidar mais de mim e com a certeza de que as leituras, nas suas mais diversas acepções, sempre me acompanharão pela vida, me emocionando, me curando e me direcionando.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Vidas. Histórias de vidas

2006 foi um ano de muitas reviravoltas para Regina Magalhães, uma administradora de empresas que foi surpreendida por infortúnios, realizou sonhos e soube dar uma nova perspectiva na sua vida.

Primeiro ela resolveu se casar, aos 38 anos; depois conseguiu um bom emprego em uma instituição financeira e, por último, sua mãe completava 75 anos. De uma hora para outra, porém, quase tudo ruiu, e com poucos meses de diferença: em julho daquele ano sua mãe faleceu inesperadamente e em setembro acabou demitida por “ser humana demais para trabalhar em um banco”, conforme ouviu de um diretor, isso há um mês do seu casamento, marcado para outubro.

Apesar das intempéries, o casamento foi realizado. E uma das grandes aliadas e incentivadoras para o sucesso das núpcias foi sua irmã, que se imbuiu do espírito de mãe de noiva, cuidando pessoalmente de cada detalhe.

– Uma forma que encontrei de agradecer minha irmã foi presenteá-la com algo especial. Então, inspirada pelas anotações, caixas de fotos e diários encontrados após a morte da minha mãe, percebi a importância de conhecer melhor minhas origens e senti o conforto e o carinho que o resgate daquelas memórias proporcionavam – contou Regina.

Nascia ali um projeto que, três anos mais tarde, viria a se confirmar em um negócio mais sólido: Biografias & Profecias, nova editora lançada ontem, em uma roda de conversas entre autores e empresários, na Casa das Rosas, em São Paulo, que eu pude acompanhar de perto.

Numa época em que se privilegiam cada vez mais as mídias eletrônicas, lançar uma empresa de livros impressos já é uma ousadia, imaginem então uma editora que não tem a pretensão de publicar best-sellers, mas sim histórias de vida! “Queremos que as pessoas – anônimas ou não – tenham a oportunidade de ter suas vivências registradas, eternizando suas memórias que podem causar transformações e inspirar novas histórias”, confirmou Regina.

Na roda de conversa estavam convidados pra lá de especiais, todos com uma relação de importância na trajetória pelo mundo editorial da administradora de empresas: Roberto Tranjan, diretor e educador da Cempre Educação nos Negócios, a quem primeiro Regina mostrou o projeto; Douglas Prats, primeiro cliente do projeto e sócio da Prósperi Lideres; Edvaldo Pereira Lima, co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário e meu professor da pós em JL; Karen Worcman, diretora do Museu da Pessoa; e Ronaldo Perllato, médico antroposófico e coordenador da Escola Livre de Estudos Biográficos.

Um dos momentos marcantes do encontro, para mim, foi quando Regina definiu o que é Biografias & Profecias para ela. O logo da editora é representado pelo bonsai, pequena árvore que simboliza a crença nas relações humanas, que devem estar ao alcance para receber pequenos cuidados contínuos e ter suas raízes fortalecidas, produzindo folhas, frutos e flores que encantam pelo seu conteúdo e forma.

– Histórias de vida têm para mim o cheiro de terra molhada, a textura de uma folha aveludada e o gosto de infusão que cura. No topo de tudo está a árvore, que não para de crescer, é um processo contínuo – revelou Regina.

Enquanto ouvia aquelas pessoas falarem, narrarem suas experiências e proferirem seus conhecimentos em histórias de vida e suas diversas variantes como biografias, perfis e ensaios pessoais, como lembrou o professor Edvaldo, pensava na minha motivação para estar ali e para prosseguir na pós em JL.

Houve um tempo, nos primeiros meses do curso, que eu me questionava se devia ou não continuar, se tudo aquilo era válido para minha vida profissional e pessoal. Mas, com o decorrer do tempo e das aulas, finalmente a semente do JL começou a germinar em mim. É como se eu tivesse encontrado o meu caminho nessa fase meio nostálgica e repleta de saudades em que estou e senti, de alguma forma, que precisava fazer aquilo, porque somente conhecendo e compreendendo a história do outro eu poderia conhecer melhor a minha própria trajetória e, assim, curar feridas que ainda estão abertas.

Isso vai bem ao encontro daquilo que o médico Ronaldo Perllato falou na roda de conversa:
– O certo não é perguntar por que se faz isso ou aquilo, por que comigo, mas sim para quê se faz, para quê é comigo. Ao perguntar o por quê, você transfere para o outro o problema, enquanto questionando o para quê você se insere no problema. E acaba encontrando o seu caminho.

* Para saber mais sobre a editora, acesse: http://www.biografiaseprofecias.com.br/

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Uma dica da Vânia

No final da tarde de ontem, ao abrir minha caixa de e-mail, em meio a uma avalanche de mensagens de remetentes que eu não conheço, de propagandas, de lixo eletrônico e de piadas enviadas por amigos, recebi da Vânia, minha amiga que mora no Rio de Janeiro, uma postagem que muito me agradou.

Respondendo à mensagem que eu havia lhe enviado sobre a criação do meu blog, ela recomendou-me a leitura de um livro que muito a impressionou: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, publicado em 2006 pela Editora Record.

Pelo que ela “contou”, trata-se do diário de uma ex-escrava que foi sequestrada quando era pequena na África para ser vendida no Brasil. “Só que esta escrava era simplesmente uma mulher sensacional: corajosa, ousada, inteligente, talentosa, trabalhadora, grande amante, empreendedora... Só lendo o livro mesmo pra saber”, escreveu Vânia para mim.

“É engraçado como elogiam escritores e livros estrangeiros, e, no entanto, não ´badalam´ este que estou falando, que faria sucesso em qualquer lugar do mundo. Eu já li este livro há uns três ou quatro anos, e venho o recomendando desde então. Quem sabe um dia ele sai da `geladeira´?”, disse ela, concluindo o e-mail.

Como amante de livros que sou, corri a fuçar a internet para saber mais sobre esse intrigante livro, já me interessando pela história. E descobri que se trata de uma publicação pouco comum, por desafiar a lógica do mercado com suas 952 páginas. 952 páginas?!? Sim, é isso mesmo, talvez o maior romance brasileiro publicado em uma única obra, uma audácia da escritora mineira, que arriscou a mostrar o livro para a Editora Record. Esta, sim, foi ousada o suficiente para publicar e apostar na obra.

E acertou, porque no início de 2007, o romance recebeu um dos mais prestigiosos e antigos prêmios literários da América Latina, o Casa de las Américas. O livro foi premiado na categoria “Literatura Brasileira” por decisão unânime do corpo de jurados, que o escolheu entre 212 concorrentes. Além do prêmio em dinheiro, a obra deverá ser traduzida para espanhol.

Acho que só por esses motivos a leitura do livro já se justifica, contudo, pelo que li na internet, o romance ainda tem muito mais a oferecer, em termos de história de vida e de retrato de uma época Alguns comentários afirmam que narrativa é tão surpreendente que é possível ler o romance de uma só tacada.

Fiquei morrendo de vontade de conferir. Quem mais se arrisca?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Afinidades na blogosfera

Preciso confessar que nunca fui muito fã de blogs, que custei a me render a essa febre toda e que o processo de decisão de entrar para o mundo da blogosfera e me tornar uma blogueira, por assim dizer, foi longo.

Lembro que ouvi falar de blog pela primeira vez em 2001, quando Márcia, uma amiga do trabalho, entrou para esse universo, criando então o A vida escrita à mão, uma espécie de diário on-line, que ela mantém até hoje. Em seguida, outros amigos foram construindo os seus blogs, mas admito que não cheguei a acompanhar nenhum deles. Nunca tive paciência para ler na tela do computador.

Há um ano, não sei ao certo, comecei a mudar de pensamento, e pela primeira vez admiti ser boa a ideia de criar o meu blog. Afinal, há muito só escrevia textos técnicos e me sentia travada para escrever assuntos mais leves, coisas de próprio punho, achava até mesmo que não seria capaz. Por isso, pensei seriamente na possibilidade, mas daí até partir para a ação propriamente dita levou mais um tempo.

Não queria simplesmente escrever sobre mim, sobre o meu dia a dia, como uma espécie de diário, não fazia sentido, não queria me expor dessa tal maneira. E também, interessaria a quem, não é mesmo? Precisava então pensar em um tema que gostasse muito e que fosse capaz de escrever, que rendesse posts.

Nesse meio tempo, xeretando pela Internet, no Google, em um dos assuntos que mais gosto – Livros e Literatura –, não sei porque “cargas d´água” descobri um blog que tinha tudo a ver comigo, que falava sobre essas paixões, com tanta informalidade, leveza e sinceridade que passei a acompanhar diariamente. Esse blog é Os Livros da Minha Estante, da Tathy Viana.

De tanto lê-lo acabei me entusiasmando, resolvi partir para a ação, centrei-me no tema livros e leituras, criei o blog e comecei a escrever, encontrando também o meu espaço na blogosfera. Só espero ter fôlego para continuar, assim como Tathy e tantos outros blogueiros que conheci então desde que fiz este blog.

Todas essas lembranças vieram à mente ontem, quando recebi de Tathy um e-mail que ela enviou aos seus leitores (prefiro essa palavra a seguidores) e também reproduzido em post no seu blog, com a notícia de que seu texto Caos, o Cachorro, foi o vencedor do Concurso Nacional de Literatura Prêmio João-de-Barro 2009.

Como ela explica, “o Prêmio João-de-Barro, dedicado a obras inéditas da literatura infantil e juvenil, é promovido desde 1974 pela Prefeitura de Belo Horizonte. Uma de suas peculiaridades é a formação de dois júris distintos, sendo um adulto, composto por três especialistas em literatura infantil ou juvenil, e outro integrado por 11 estudantes da Rede Pública de Belo Horizonte”. Tathy foi vencedora nas duas categorias e, além de um prêmio em dinheiro, terá o livro publicado e distribuído em todas as escolas municipais de Belo Horizonte.

Achei bacana e merecido. Por isso, quero deixar registrado aqui os parabéns a Tathy por essa conquista, que só vem coroar todo seu empenho e dedicação na divulgação do livro e da leitura. E também agradecer por me inspirar a escrever e a ler blogs, possibilitando ainda conhecer outros blogueiros, com os quais compartilho essa mesma paixão pelos livros e pela leitura.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Para falar de vidas

Quando o assunto é biografia, percebi que não li muita coisa do gênero até então. Não é que eu não goste, não é isso, é que talvez, por serem extensas demais – a maioria das biografias ultrapassa 400 páginas –, fui deixando para ler depois e quando me dei conta, acabei lendo muito pouco delas.

O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues, de Ruy Castro, foi uma das que li. E, apesar de ter feito isso há um bom tempo e de não lembrar de muitas passagens, ficou registrada na minha mente e no meu coração como um dos mais belos trabalhos de reconstituição da vida de uma pessoa.

A história de Nelson Rodrigues é incrível, sofrida, inacreditável, mas também bela, comovente, emocionante. Me peguei várias vezes chorando entre uma passagem e outra, e ainda rindo, me encantando, aprendendo. Os diálogos e as cenas ali retratados são tão incríveis que muitas vezes chegamos a duvidar se realmente aconteceram, mas acredito que Ruy Castro, meticuloso e cuidadoso como ele é, não poderia ter inventado tudo aquilo. Foram centenas de entrevistas, com 125 pessoas, que conheceram intimamente Nelson e sua família.

Outra biografia que li, mas esta bem menor, em quantidade de páginas, foi Vlado – Retrato de um homem e de uma época, organizado pelo jornalista Paulo Markun. Na verdade, não sei se chega a ser considerada como uma biografia, mas faz uma boa reconstrução da vida de Vladimir Herzog, jornalista que foi preso, torturado e assassinado no Doi-Codi, em São Paulo, em 1975. Ao ler esse livro, fiquei perplexa com os horrores cometidos durante a ditadura militar e com a injustiça e a violência cometidas para com Vlado.

Acho que foram só essas duas que li.

Só?!?
Ontem, 1º de dezembro, ao pensar sobre o assunto, lembrei de mais duas, e uma delas por causa da coincidência da data. É que o 1º de dezembro foi escolhido como o Dia Mundial de Combate à Aids.

Qual a relação?

Bom, eu explico.

Lembro de ainda ter lido mais dois livros sobre a vida de duas personalidades, estas ligadas à música brasileira. Mas que na realidade não sei se poderiam ser consideradas como biografias, mesmo porque as duas obras fazem parte de uma série idealizada em 1996 pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e pela Secretaria Municipal de Cultura, e produzida em parceria com a Editora Relume Dumará. Trata-se da Série Perfis do Rio, da qual li Chico Buarque, escrito por Regina Zappa (já cheguei até a comentar neste blog), e Renato Russo, de Arthur Dapieve. Este último, como todos sabem, morreu por causa de complicações decorrentes da Aids, em 1996.

Renato Russo e sua Legião Urbana foram, para mim, aquilo que de melhor surgiu no cenário roqueiro da década de 1980 e da música brasileira. Ler sua história foi compreender a alma criativa, poética, brilhante, mas muito sofrida de um dos mais importantes nomes da nossa cultura.

O livro fala sobre sua família, a relação com esta, o início da sua trajetória pela música, suas influências, seus interesses, a formação da banda e a convivência com os integrantes, os shows, as músicas, o sucesso, a doença e a morte. Tudo tratado com muito cuidado e delicadeza para dar uma pequena dimensão de quem foi Renato Russo.

Para mim, no entanto, ficou a certeza de que muito mais do que o ídolo, naquelas páginas reconheci o ser humano, o homem, a pessoa que, semelhante a qualquer uma de nós, queria muito ser feliz. É impossível não se emocionar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Objetos da memória

Sempre gostei de colecionar coisas, de guardar objetos, de anotar datas e acontecimentos. Desde um guardanapo de papel, um ingresso de cinema ou de show até uma carta de amigo ou ainda uma lembrancinha de aniversário ou de nascimento, tudo era motivo para eu guardar dentro do meu guarda-roupa ou das gavetas das cômodas. Sei lá, talvez fosse uma maneira de lembrar, de recordar, quem sabe um dia, de mostrar que aquilo foi importante para mim de alguma maneira, de resgatar o passado, de reavivar a memória. Enfim, era algo que fazia parte da minha personalidade, da minha maneira de ser e de pensar.

No entanto, confesso que joguei muitas coisas fora, infelizmente, que hoje lamento. É que de tanto guardar, os espaços foram ficando pequenos, apertados e até mesmo bagunçados, por isso tive de fazer uma limpeza geral, sem falar nas constantes mudanças e na necessidade de eliminar o que não era primordial. Isso me faz lembrar daquele tão famoso housekeeping (sistema originário do Japão, que visa a prática de bons hábitos dentro de uma empresa) centrado no lema organização, limpeza e disciplina.

Ainda assim, sempre tive uma certa resistência de me desfazer das coisas, porque afinal tudo é importante para mim e tem valor emocional e afetivo. Cartas de amigos, por exemplo, eram o meu maior xodó, isso porque quando tive de mudar na minha adolescência de São Paulo para Indaiatuba, deixei muitos amigos na capital paulista, com os quais me correspondia quase que semanalmente, por três anos seguidos. Porém, como demorei a me adaptar à nova cidade e à moradia, por sentir muita falta dos amigos e de São Paulo, um dia minha irmã chegou para mim e falou:

– Deixa disso, você só vive do passado. Esquece essas cartas.

E o que fiz então? Joguei tudo fora, como se dessa forma pudesse também me livrar daquilo que me prendia a uma outra vida e, assim, poder seguir em frente, acreditava eu. Só que jogando as cartas, joguei também uma parte da minha história, da história dos meus amigos e da história de uma época. Que pena!

Sábado, no curso de JL pude perceber isso com maior clareza, embora já há um bom tempo tivesse essa certeza dentro de mim. A aula foi sobre Biografias e um dos pontos-chaves para se escrever uma história, resgatando a memória, é por meio de objetos, cartas, fotografias, coisas que remetam ao passado da pessoa que se quer biografar. Para ilustrar isso, assistimos ao filme Uma vida iluminada, dirigido por Liev Schreiber, que foi baseado no livro Tudo se Ilumina, do escritor norte-americano Jonathan Safran Foer.

A história gira em torno de um rapaz americano, interpretado no filme por Elijah Wood (o Frodo, de O Senhor dos Aneis), que tem a mania de colecionar objetos. A parede do seu quarto (ou seria uma sala só para isso?), por exemplo, é forrada de coisas como fotografias, pedras, areias, insetos mortos, enfim, de inúmeros outros objetos, cada qual acondicionado dentro de sacos plásticos, com a data e o local do acontecimento.

Muito doente, sua avó lhe dá uma fotografia onde se encontram seu avô, quando jovem, ao lado de uma mulher de nome Augustine, que teria salvado sua vida na época do nazismo. Reparando melhor na foto ele observa que a jovem usa um colar de âmbar e reconhece o objeto no meio de sua coleção. Com a foto e o colar, ele empreende uma viagem até a Ucrânia para encontrar a mulher e é ajudado pelos moradores locais Alex, um jovem que serve de tradutor, mas totalmente atrapalhado com a língua inglesa, seu avô rabugento, assombrado pelas lembranças de guerra, e uma cadela vira-lata chamada Sammy Davis Jr. Jr., uma graça. Juntos, eles partem em busca do lugar retratado na foto e da mulher, e descobrem um país devastado, misturando sentimentos como paixão, medo e culpa.

A história, na verdade, pretende reconstituir o passado, procurando pessoas e lugares que não existem mais e mostra a necessidade de entender o presente à luz do passado. É um filme de poucas falas, com uma bela trilha sonora, estranho, delicado e comovente na medida certa.

Quanto à minha mania de colecionar? Bom, como disse, joguei muitas coisas fora, mas algumas eu guardei e não pretendo me desfazer delas. E, além do mais, é sempre tempo de recomeçar a coleção, agora mais motivada do que nunca.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Os livros que comprei

Apesar da nostalgia pelo Circulo do Livro, que comentei no último post, não posso deixar de comentar que, aproveitando as promoções dos sites, adquiri neste mês alguns livros que há tempos vinha namorando. E devo confessar que o prazer foi tão bom quanto aquele que sentia quando comprava do clube. Afinal, a expectativa é a mesma, é preciso esperar o livro chegar, mas quando o correio bate à sua porta, entregando aquele pacotinho tão esperado, nossa, a ansiedade mal deixa as mãos ficarem firmes para abrir o invólucro. É uma afobação só, mas, depois é só sentar e devorar, livro por livro. Com isso, a minha listinha de livros a ler vai ficando cada vez maior. Tudo bem, eu gosto.

Primeiro escolhi O Silmarillion, de J.R.R. Tolkien, completando assim, a minha coleção do autor britânico, que começou com O Hobbit, lido há sete anos com encantamento pela saga de Bilbo Bolseiro. Este, instigado pelo mago Gandalf e mais 13 anões (que são um show à parte na narrativa) vai recuperar o tesouro roubado dos anões por um dragão. No caminho, Bilbo encontra o anel, que será o centro da trilogia O Senhor dos Anéis. Não cheguei a ler os livros da saga, que já estão acomodados no meu guarda-roupa, à espera da minha leitura, mas assisti ao filme, então conheço a história.

O Silmarillion fala de acontecimentos de uma época muito anterior ao final da Terceira Era, quando ocorreu a saga de O Senhor dos Aneis. São lendas que Tolkien escreveu ao longo de toda a sua vida e traz muitas reflexões. Parece ser bem complexo, mas quem já leu disse ser fabuloso e incomparável.

Das aulas de JL, sobre Ensaio Pessoal, dentre as obras indicadas está Uma Mente Inquieta, de Kay Redfiel Jamison. Como no ano que vem pretendo fazer um ensaio pessoal para o trabalho de conclusão do curso, estou me municiando de livros que me auxiliem na tarefa.

Uma Mente Inquieta é o testemunho pessoal de uma psiquiatra que revela sua própria luta em vencer o transtorno bipolar que a acometeu desde sua adolescência. Li algumas partes na aula, e percebi que vou ter de mergulhar muito fundo nessa leitura, mas vou gostar.

A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg, e ilustrado por Alan Sieber, revela os defeitos, as fraquezas e as fragilidades humanas dos grandes nomes da literatura mundial. Shakespeare, Virginia Woolf, Charles Dickens são alguns dos autores retratados. Se vai acrescentar alguma coisa eu não sei, mas pelo menos é divertido, e mostra que essas pessoas, consideradas gênios, são tão humanas quanto a gente. É uma maneira de humanizar os ídolos.

Para o meu deleite, embora já tenha lido, O Pequeno Príncipe teve uma adaptação feita em quadrinhos, pelo artista francês Joann Sfar. As ilustrações são lindas e só valorizam ainda mais a bela história de Antoine de Saint-Exupéry. Uma jóia.

Em Retratos da Leitura no Brasil, Galeno Amorim faz um amplo diagnóstico do livro e da leitura em nosso país. Os textos reunidos falam de temas como o valor simbólico da leitura, o acesso ao livro, a escola e a formação de leitores, os jovens e a leitura, a leitura no Brasil e no mundo, políticas públicas do livro e da leitura, bibliotecas públicas, entre outros. Um verdadeiro estudo. Um belo estudo.

Por fim, comprei o Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, que vi com minha amiga Gil na Flip deste ano. Faltamos só babar pelo livro que, organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis Sá, traz 35 palavras escolhidas por 35 autores de língua portuguesa em quatro continentes. Com uma diagramação bem criativa e linda, as palavras ganham uma dimensão que mostram o uso diferente de um mesmo idioma. Bacana!

Agora é só encaixar esses livros na minha listinha e desfrutar, assim, do prazer das histórias que só a leitura pode nos proporcionar.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Círculo

Sempre que passo em frente de uma livraria preciso parar para olhar ao menos a vitrine, e apreciar as novidades expostas, depois sigo o meu rumo normal. Mas, na maioria das vezes, não resisto e acabo entrando para dar uma rápida circulada pelas prateleiras e bancadas da loja. Aí é um delírio completo, esqueço da hora, para onde estava indo e permaneço no lugar mais tempo do que pretendia. Não tem jeito. E tudo por causa da variedade de títulos e de capas. Elas são chamativas demais e é praticamente impossível não se deixar levar pelas cores, pelas letras, pelas imagens, pelos formatos e se aventurar para saber um pouco mais desse ou daquele livro.

Apesar do prazer, diria até "sexual", que uma livraria me proporciona, confesso que ultimamente tenho comprado muito pela internet. É que os preços dos livros estão bem mais acessíveis pelos sites, de forma que aquelas sensações "libidinosas", de estar em contato, ao vivo e em cores, com os livros, acaba ficando um pouco de lado, e me pego acessando lojas virtuais, teclando os títulos, comparando os preços e, tentando, de alguma forma, sentir algum prazer. Deve ser assim com o sexo on-line, se é que isso é possível, mas enfim, hoje a tecnologia dá um jeito pra tudo, não é mesmo? Eu, por mim, prefiro a prática antiga e sempre que estou "rica" (no pagamento) – como diz minha amiga Gil –, vou a uma livraria comprar diretamente. O problema é que ultimamente ando "pobre" e, por uma questão de economia, tenho comprado virtualmente.

Mas, pensando bem, essa prática de comprar a distância não é algo novo assim, já existe há séculos, desde o advento dos correios ou de um sistema semelhante de entregas, acredito eu, apenas com a diferença de que hoje isso é feito de forma mais rápida.

Lembro que no final dos anos de 1970, por exemplo, e em boa parte dos anos de 1980, época em que estava na faculdade, havia uma forma bem gostosa de adquirir livros, e que reuniu uma quantidade grande de pessoas. Era pelo Círculo do Livro.

O Círculo do Livro foi uma editora que comercializava livros por um sistema de clube. Para ingressar nele, a pessoa deveria ser indicada por algum sócio, como ainda acontece em muitos clubes. Já no grupo, a pessoa recebia uma revista trimestralmente (imaginem, só de três em três meses, mas a expectativa pela chegada era ótima!), que trazia uma variedade de títulos com breves descrições e preços para serem escolhidos. A única obrigação do sócio era adquirir um livro naquele período, que depois era enviado pelo correio.

A revista era bem ampla, com títulos que iam de clássicos a best sellers, além daqueles voltados a negócios, serviços, infantis, enfim de todos os gêneros. Os textos eram primorosos e estimulavam a compra. Além do amplo catálogo, os livros tinham um bom encadernamento, com capa dura e preços competitivos.

Pelo sistema comprei vários livros, que esperei ansiosamente chegarem pelo correio. Demoravam muito, sim, mas era gostoso chegar em casa e ver o aviso do correio para a retirada do livro. Foi pelo Círculo que adquiri, por exemplo, Fogo Morto, de José Lins do Rego, o livro que marcou minha adolescência, também Os Irmãos Karamazóv, de Dostoiévski, e ainda Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva.

Senti muito quando o clube acabou. De certa forma, a internet veio resgatar esse sistema de compras a distância e com muito mais agilidade, é claro, mas admito que não gosto de ler no computador, não tenho paciência, daí a nostalgia que senti hoje das revistas do Círculo do Livro. Elas, infelizmente, viraram peça de museu; quanto os livros, para quem chegou a adquiri-los, estes servem de testemunho daquela época áurea do clube. Os meus estão em casa, dentro do meu guarda-roupa, esperando pacientememte que eu os acomodem na futura estante que um dia terei. Só para lembrá-los, aqui estão:

200 Crônicas Escolhidas – Rubem Braga
A Coluna Prestes – Nelson Werneck Sodré
A Menina do Fim da Rua – Laird Koenig
Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva
Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach
Fogo Morto - José Lins do Rego
Mutações – Liv Ullmann
O Casamento do Sol com a Lua – Raíssa Cavalcanti
O Caso dos Dez Negrinhos – Agatha Christie
O Estrangeiro – Albert Camus
O Ramo de Hortênsias – João Carlos Pecci
O Sol é Para Todos – Harper Lee
O Velho e o Mar – Ernest Hemingway
Os Crimes ABC – Agatha Crhistie
Os Elefantes não Esquecem – Agatha Christie
Os Irmãos Karamazov - Dostoiévski
Os Sete Minutos – Irving Wallace
Papillon - Henri Charriere
Pássaros Feridos - Colleen Mccullough
Se um Viajante numa Noite de Inverno – Ítalo Calvino
Um Estranho no Espelho – Sidney Sheldon
Vlado – Retrato de um homem e de uma época – Paulo Markun

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

As tais referências

Sabe aquela relação de livros consultados, que vem no final de uma obra ou de um trabalho que você está lendo? Pois é, as tais das referências bibliográficas? Então..., percebi há algum tempo que eu adoro espioná-las. É que a partir delas sempre consigo encontrar outros livros tão interessantes e talvez mais abrangentes quanto aquele que os citou. E olha que eu já descobri muita coisa boa assim, só consultando as referências bibliográficas.

Quando fazia minha monografia da pós em Jornalismo Internacional sobre a Questão Palestina e a reportagem em quadrinhos de Joe Sacco, por exemplo, encontrei diversos livros de estudo da linguagem e da influência das HQs para a compreensão e o aprendizado de vários assuntos.

Essa paixão, digamos assim, pelas referências bibliográficas, chegou até mesmo a se tornar uma obsessão para mim. Mal pegava um livro e eu corria a folhear as páginas até chegar no final só para ver a relação de obras consultadas. Pensava eu, quem sabe, pudesse descobrir outros livros para ler e me aprofundar ainda mais sobre aquela história.

Hoje, acho que estou mais comedida. A paixão esfriou um pouco, mas continuo a dar minhas “espiadinhas”, no melhor estilo Big Brother, só que com outros propósitos, é claro. E não me limito apenas às obras, não. Quando ingresso em um curso, então, fico ansiosa para ter em mãos a bibliografia das disciplinas e poder descobrir os livros recomendados e que poderei ler mais para a frente, aumentando ainda mais a minha lista de livros a comprar. É quase um prazer, ou melhor dizendo, um prazer inenarrável

O único senão é quando eu mesma tenho de fazer a minha lista de referências bibliográficas quando preciso entregar um trabalho. Confesso que esta é uma tarefa ingrata, porque existe todo um padrão estabelecido de normas que devem ser seguidas para fazer a citação bibliográfica. Acho tudo muito chato e complicado, de forma que até hoje não aprendi. Nunca sei se depois do nome do autor e do livro vem a edição ou a data ou o local. E ainda têm a numeração de páginas, sem falar na tipografia, se normal, em bold, em italic ou ainda sublinhado (é não deu para sublinhar, mas subentendam). É detalhe demais! Acho que poderia ser tudo muito mais simples, mas aí se instalaria o caos, o que não condiz com um trabalho sério, científico e acadêmico.

Bom, para mim, "enquanto leitora", isso pouco importa. Basta que as referências estejam lá, ao final do livro, para que eu possa sempre consultá-las e achar outras obras que interessem e me façam conhecer mais sobre o assunto que quero. Agora, como escritora, vou precisar me policiar mais, porque ler é uma coisa, e escrever é outra. Graças a Deus, e viva as diferenças!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fã e ídolo


Os cabelos ficaram grisalhos, o rosto traz as marcas do tempo, a voz parece um pouco embriagada e o andar está mais lento. Mas para uma pessoa que já passou da casa dos 60 anos, o olhar manso e penetrante mostra que o brilho da juventude ainda está muito vivo no mineiro que se tornou escritor, dramaturgo e jornalista. Falo de Mário Prata, o grande cronista brasileiro, pai de Antonio Prata, também escritor.

Sentado em meio a estantes de livros infantis, na companhia dos escritores e jornalistas Xico Sá e Matthew Shirts, e do escritor Reinaldo Moraes, estes dois últimos seus amigos de longa data, com os quais viveu coisas “confessáveis e inconfessáveis”, Mário Prata foi a estrela maior da mesa sobre boemia e literatura da Balada Literária que aconteceu na Livraria da Vila. E não poderia ser diferente, já que a maioria estava ali para vê-lo, por isso, as histórias contadas, mesmo pelos seus companheiros, giravam em torno de Prata.

Acomodada em uma cadeira na segunda fileira do espaço improvisado para o bate-papo, uma vez que a Livraria estava às escuras, em razão das chuvas que caiam no dia, eu alternava a atenção entre a fala dos convidados e as expressões das minhas amigas Gil e Daiana, que se encontravam cada qual ao meu lado. Gil ria e se divertia com as tiradas de Prata, mas Dai, que literalmente acabara de chegar de Curitiba para prestar um concurso no dia seguinte, tinha os olhos vidrados em seu grande ídolo cronista. Sua emoção era visível, mas ela soube dominá-la o suficiente para ser a primeira a fazer uma pergunta a Mário Prata, notar seu interesse e ouvir sua resposta com atenção.

Depois disso, pegar o autógrafo no livro Minhas Tudo e tirar uma foto ao lado dele foram consquências naturais, mas não menos prazerosas. Na verdade, eu diria inesquecíveis, porque saímos de lá com Daiana flutuando debaixo da chuva que persistia em cair impiedosamente. Ela se importava? Acredito que não, acho que até mesmo nem sentia os fortes pingos molharem sua cabeça e seu corpo. Fã é assim mesmo, não se incomoda com nada, desde que o desejo de ver e estar com seu ídolo sejam plenamente satisfeitos.

Essa emoção que se sente perto de alguém que se admira muito é bem interessante e difícil de explicar, em palavras escritas ou não. Sei bem o que é isso e entendo a reação de Daiana depois que viu Mário Prata. Eu mesma passei por uma emoção semelhante quando estive em Paraty, o ano passado, e fiquei frente a frente com Neil Gaiman, o rei dos sonhos. A emoção é mesmo indescritível, é como se você se visse fora de si mesma, planando levemente, mas com firmeza pelo espaço, indefinidamente, sem se preocupar ou pensar em nada, apenas sentindo aquela sensação boa, de plenitude, de prazer intenso e sem fim. Nada existe fora dali, nada mais tem importância, a alegria é real, completa, total e absoluta.

A felicidade que experimentei em Paraty com Neil Gaiman e que Daiana também sentiu na presença de Mário Prata são, com certeza, uma daquelas emoções que fazem realmente a vida valer a pena.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Literatura no feriado

Eu não poderia deixar de registrar isso.
Para quem está em São Paulo e vai ficar por aqui, nada melhor do que curtir uma Balada Literária. É isso mesmo, um encontro pra lá de especialíssimo, que começa hoje e vai até domingo, dia 22.
Em sua quarta edição, a Balada é uma recriação da Flip, a Festa Literária de Paraty. A criação é do escritor pernambucano Marcelino Freire, que no início limitou-se apenas aos bares da Vila Madalena.
Hoje ela tem um alcance maior, estendendo-se por espaços como a Biblioteca Alceu Amoroso Lima e o Sesc Pinheiros, sem falar na própria Vila Madalena. Nestes locais haverá shows e debates com aproximadamente 80 escritores, entre eles Lygia Fagundes Telles e João Gilberto Noll.
O homenageado deste ano é João Silvério Trevisan.
Para os amantes da Literatura, é um prato cheio.
Mais informações no site http://baladaliteraria.zip.net/
Entre comemorações de aniversários, visita de uma amiga, afazeres domésticos e entrevista para o meu trabalho da Pós vou ver se consigo participar de algum encontro. Depois eu conto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Quadrinhos não é só para crianças


Assim como a maioria das crianças, leituras em quadrinhos fizeram parte da minha infância. Pela minha casa circulavam Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Pateta, Zé Carioca e tantos outros. Eu adorava ler as histórias dessas revistinhas, sobretudo aquelas que traziam os Irmãos Metralha, a Maga Patalógica, a Madame Mim, o Peninha e o Professor Pardal. E tinha ainda os super-heróis da Marvel, como o Homem-Aranha, O Incrível Hulk, o Capitão América e o Homem de Ferro, e os da DC Comics, como o Superman e o Batman. Além destes, apreciava também a Turma do Charlie Brown, com o sapeca do Snoopy, que aprontava todas. Depois entrei no universo da Turma da Mônica, e gostava, particularmente, da Tina, uma riponga engraçada, às voltas com seu amigo Rolo.

Mas aí cresci e os quadrinhos deixaram de fazer parte das minhas leituras, como tantas outras aventuras tidas como “infantis”. Se bem que Fernando, meu sobrinho, é um aficcionado por essas revistas e por desenhos e animações, e eu sempre procurei estimulá-lo nisso, comprando-lhe cada vez mais gibis.

No entanto, os quadrinhos só voltaram a me “pegar” novamente, e desta vez com força total, há oito anos, quando cursei a pós em Jornalismo Internacional, na PUCSP. Na época, em uma das disciplinas do curso, tive uma palestra com a professora Sonia Luyten, pioneira em levar as HQs para a sala de aula e especialista em mangás, que falou sobre a figura feminina nos quadrinhos.

A palestra foi tão interessante que sai dali louca para conhecer mais sobre o fascinante mundo das histórias em quadrinhos. Mas ainda assim não sabia por qual caminho seguir, porque aquelas revistas da minha infância já não me atraíam do mesmo modo. Foi quando, pesquisando pela Internet, descobri revistas que são verdadeiros livros, voltados para o público adulto, dentre estas, Palestina, do jornalista e cartunista Joe Sacco. E qual não foi minha surpresa quando vi ali uma verdadeira reportagem em quadrinhos. Gostei tanto do livro que acabei fazendo minha monografia do curso em torno dele.

E a partir desse pequeno grande achado, vislumbrei muitos outros quadrinhos voltados para o público adulto, a maioria verdadeiras jóias no melhor estilo jornalístico e de ficção. Conheci os trabalhos de Neil Gaiman e seu universo sobre Sandman e Coraline; Will Eisner, o grande mestre das graphic novels e criador do Spirit; Art Spielgman e seu mundo perturbador de Maus; Frank Miller, com a realidade crua de Sin City; Alan Moore com seu anti-herói V de Vingança; e mais recentemente os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, com suas contagiantes histórias sobre o cotidiano na Fanzine 10 Pãezinhos.

Hoje tenho uma pequena biblioteca de quadrinhos em casa e tantos outros livros mais para comprar. E pelo crescente interesse que área vem despertando e os novos talentos que surgem a cada dia, acho que vou ter de reservar um espaço ainda maior para poder abrigar toda essa cultura de massa, que está ficando cada vez mais refinada.

Na verdade, me lembrei de toda essa história por causa de uma outra, que começou com a nova edição da revista Tina, de Maurício de Souza, já em circulação nas bancas de jornais. No gibi, aparece um novo personagem da turma, o Caio, criado pela equipe do cartunista para ser o melhor amigo de Tina. Na história, ele é apresentado como sendo "supostamente" gay, por assumir que é "comprometido", no momento em que pede para um outro rapaz confirmar.

Cheguei até a ler um post bem legal sobre os gibis da Turma da Mônica e da Tina no Universo Para Lego , o blog da minha amiga Daiana. Bom, tudo poderia ter ficado por aí, se hoje eu não tivesse visto na internet que o assunto "a nova edição da Tina" começou a gerar polêmica, e de uma tal forma que Maurício de Sousa precisou emitir uma nota à imprensa “para esclarecer alguns pontos”. Segundo a nota, a revista Tina é uma publicação destinada a um público adulto jovem e que “não há qualquer afirmação sobre a sexualidade deste ou daquele personagem”. A nota diz ainda que “publicações dirigidas a faixas de público com idades diferenciadas podem – e devem – tratar de quaisquer assuntos de maneira adequada ao seu leitor. Mas uma posição vai se manter em TODAS as nossas produções: o respeito pelo ser humano, pela pessoa, e a elegância no trato de qualquer tema”.

Acho que não precisava de nada disso em pleno século XXI, mas os preconceitos estão tão arraigados na sociedade que muitas vezes são difíceis de se desprenderem. Isso me faz lembrar de uma outra polêmica que foi pauta do noticiário este ano: a proibição e a retirada do livro Um Contrato com Deus, de Will Eisner, das escolas públicas, por conter cena que sugere sexo e violência. Será que estamos voltando aos tempos da Inquisição? Era só o que faltava.

De certa forma, ainda há aquela ideia errônea de que quadrinhos é coisa de criança, quando na verdade existem hoje um infinidade de HQs que não apenas divertem, mas também emocionam com histórias enaltecem os traços dos artistas. Elas contam e recontam histórias de ficção e do real com um fidelidade digna que nos faz mergulhar por inteiros naquelas imagens. Não têm como não serem atrativas, não têm porque restringi-las a uma determinada faixa etária.

O que falta, a meu ver, no caso da Tina, é as pessoas conhecerem primeiro a obra, verem sua proposta, não deduzirem em torno de suposições e se inteirarem do público a que se destina. Já no caso das escolas, é ter mais critério para poder selecionar o que a garotada precisa ler, sem se esquecer de que há muito tempo os quadrinhos não são mais lidos somente por crianças, mas por adultos também, de forma que seu conteúdo é direcionado. Mas nunca podar, nem censurar e muito menos querer jogar este ou aquele livro na fogueira, ainda que fictícia.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Os livros

Vi o poema abaixo no blog Quero morar em uma Livraria, da Lia, e achei uma graça. Então resolvi publicar aqui também para compartilhar com todos vocês.
É de autoria da Paula Akkari, do Blog da Paulinha.

Os Livros

Depois de pular e brincar
Leio os livros
Livros tristes, que me dão vontade de chorar
Os livros carregam o mundo
E em vão
Conquistam o coração
Romances bonitos
São infinitos
Biografias, então
Têm de montão
Histórias de suspenses
São as melhores,
Pense...Antes de dormir
Os livros me fazem sorrir
Sonho em morar em uma livraria
Que bom seria!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quero ler o que me dá prazer


Quando terminei a faculdade e demais cursos que fiz de aprimoramento e especialização, fiquei tão aliviada de não ter mais as “tais” leituras obrigatórias pela frente que logo comecei a fazer uma lista dos livros que gostaria de ler, por puro prazer, sem a menor pretensão.

A alegria que experimentei foi tamanha que a lista só foi crescendo desde então e, consequentemente, acabei não dando conta dela, porque sabe como é
– Um livro sempre remete a outro, que remete a outro, que remete a tantos outros.

E ainda há as indicações dos amigos, da crítica e aqueles que você deixou para ler em uma outra ocasião, sem falar nas novidades do mercado e que, graças a Deus, não cessam nunca, para o nosso bem ou para o nosso mal, eu já não sei mais. É que quando me vejo envolvida por tantos títulos, todos ansiosos para serem devorados, acabo ficando perdida, ou pior, estática, sem saber para qual lado pender. Fora aquela ansiedade pela informação, que vem me consumindo há anos, sem nunca ser saciada por completo.

Isso me faz lembrar de uma passagem curiosa em Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, sobre a busca de um leitor por um livro que ele quer muito:

"Já logo na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo essa pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sidos Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, mas infelizmente os dias que lhe restam para viver não são tantos assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade Do Preço, dos Livros Idem Quando Forem Reeditados Em Colecções De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistemos Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler,
os
Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,
os Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,
os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,
os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada."

Bom, tudo isso para chegar naquele livro que você buscava. E se realmente o alcançar, dê-se por satisfeito, por vitorioso, porque nenhum daqueles outros o fez desviar do caminho, embora a tentação e a campanha fossem poderosas.

Agora, no meu caso, para agravar ainda mais a minha situação, comecei um novo curso este ano e, é claro, as leituras obrigatórias voltaram a fazer parte do meu dia a dia. E olha que eu resisti ao máximo que pude, porque queria seguir o meu roteiro de leitura, a minha pequena grande lista de leituras que quero e gosto. Só que nessa ânsia toda, não estou conseguindo fazer nem uma coisa nem outra. Já comecei e interrompi umas quatro leituras, porque sempre penso que deveria me concentrar nas leituras obrigatórias.

Confesso que estou num período meio improdutivo de leituras, e elas vão se acumulando na minha frente, me afogando ainda mais de culpa e remorso. Mas agora resolvi dar um basta em tudo isso, parar de sofrer à toa, porque afinal de contas tudo gira em torno de leituras, e que obrigatórias ou não elas sempre acabam me dão prazer. Acabei por me render e dar início às leituras que preciso fazer para o curso, ainda mais porque nos primeiros meses do próximo ano terei de terminar o meu TCC e há textos que são indispensáveis para eu fazer o meu trabalho.
Mas não serei tão severa assim, gosto de trapacear também, e, vez por outra, vou intercalar com algumas leituras descomprometidas, porque, afinal, ninguém é de ferro. Além do mais, sei que elas acabarão se revelando produtivas e ávidas para enriquecer o meu projeto com outras perspectivas que não aquelas previstas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Roger & Eu


Eu não sei porque resolvi ler Marley & Eu, de John Grogan. Não é que eu não gosto de animais, ainda mais em se tratando de cães, muito pelo contrário. Gosto demais, mas é que sempre sofro quando leio essas histórias, então procuro evitar. Seja como for algo me fez ler, ainda bem.
Claro, sofri, chorei, me descabelei, mas também vibrei, sorri, me diverti. Somando os prós e contras, acho que ganhei mais do que perdi, se é que a gente perde alguma coisa quando lê um livro.

Para quem tem um animalzinho de estimação, principalmente cães, a identificação com a leitura deve ter sido fácil, e comigo não foi diferente. As peripécias de Marley contadas com humor no livro lembraram muito o meu cãozinho Roger, sobretudo sua indisciplina para ser treinado (se bem que nunca tentamos pra valer), seu temor com tempestades e sua gana e prazer em destruir sofás (só em casa foram dois).

O livro é um deleite, leve, descontraído, emocionante, mas é óbvio que no final quase não consegui terminar a leitura. É que as lágrimas insistiam em embaraçar minha vista e eu não podia continuar lendo. Tinha de parar, dar um tempo e tentar recomeçar. Acho que fiz isso umas três ou quatro vezes, sem sucesso, até que por fim consegui. E foi inevitável não pensar no meu cão e na sua partida, um dia.

Roger chegou em casa numa manhã de novembro. Mas para falar dele é preciso primeiro contar a história do Rodin, um outro cão que eu tive, dado a mim, ainda filhote, pela minha amiga Silvia. Era um poodle todo branquinho, lindo, esperto, carinhoso, meigo. Uma graça.

Quando ele veio, já fazia um bom tempo que não tínhamos a companhia de um cão na família e a empatia foi imediata. Era muito gostoso voltar para casa e encontrar ele todo serelepe esperando, fazendo aquela festa. Mas quase um ano após sua chegada, todo esse encanto acabou, de repente. Foi no feriado de 7 de setembro, quando voltávamos do nosso passeio matinal, e por um descuido meu deixei a coleira que prendia ele escapar das minhas mãos no momento em que passava um caminhão pela rua. Metido a valentão, ele correu latindo para ir atrás do veículo e acabou morrendo atropelado. Foi um baque enorme. Me senti mal, culpada, arrasada, uma dor insuportável. A casa ficou silenciosa, evitávamos falar no assunto uns com os outros. Estávamos todos tristes e chocados, dia após dia.

Certa noite, lembro, sonhei com Rodin entrando em meu quarto e se postando ao lado da minha cama, onde eu estava deitada. Esperava o meu afago e o consentimento para subir ali, como fizera tantas vezes. Eu então olhei para ele, sorri e falei:
– Rodin, você voltou!
Mas logo acordei.

Quase dois meses depois, no dia 13 de novembro, uma manhã de sábado, destes que a gente quer ficar mais tempo na cama, só de preguiça, fomos acordados com a campanhia tocando. Como morava em um sobrado e meu quarto ficava de frente para a rua, fui até a sacada para ver quem era. Para minha surpresa, era o meu vizinho.
– Olha, vocês perderam um cachorro faz pouco tempo. Tem outro aqui na sua porta.
Quando eu olho para a entrada vi um cão parecido com um poodle, só que maior, com os pêlos grandes, todo grudento e sujo, deitado confortavelmente no degrauzinho da porta. Logo descemos para vê-lo de perto e assim que a porta se abriu ele entrou, sem cerimônia.

A dúvida era o que fazer com ele. Eu, minha mãe e meu sobrinho ficamos reticentes; minha irmã e minha sobrinha, no entanto, logo quiseram ficar com ele. Apesar do seu mau aspecto, não parecia um cão de rua, talvez estivesse perdido ou então, quem sabe, fora abandonado. A primeira providência que tomamos foi levá-lo ao Pet Shop para uma boa tosa, banho e consulta com o veterinário, enquanto decidíamos se ficaríamos ou não com ele. Na verdade, eu não me sentia ainda à vontade para ter outro cachorro, mas por outro lado pensava que Deus o colocara no nosso caminho para amenizar o nosso sofrimento.

No Pet Shop, o veterinário confirmou que aparentemente ele não tinha nenhum problema e que poderia ter uns dois anos. Então, o trouxemos de volta para casa e acabamos ficando com ele, dando-lhe o nome de Roger, como o do vocalista do Ultraje a Rigor.

A adaptação foi sendo feita aos poucos. A princípio ele era arisco, mas com o passar do tempo, muita paciência e amor conseguimos vencer os bloqueios.
Passados alguns dias, estava com Roger no Pet Shop quando uma senhora se aproximou e disse que ele se parecia com um cachorro que ela tinha visto umas semanas atrás, mais ou menos pela época em que Roger apareceu em casa.
– Foi na Celso Garcia, ele estava zanzando pela avenida. Vi quando alguém parou com o carro e o colocou fora.
A tal avenida ficava perto da casa onde eu morava e Roger, depois de conseguir atravessá-la, caminhou até parar na minha porta.
– Puxa, ele teve muita sorte de ter encontrado vocês – ela me disse.

Pois é, hoje, dez anos depois, Roger ainda está em casa, por isso considero esta data como a do seu nascimento. E em todo esse tempo de convivência, ele já acompanhou boa parte da nossa vida, participando dos momentos alegres e tristes, da mudança de casa e de bairro, das festas natalinas e de final de ano, dos infortúnios e perdas que sofremos, das nossas conquistas e vitórias. É, é claro, também nos ensinando muita coisa. Com ele aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas e que não é preciso muito para ter paz de espírito, basta uma volta pelo quarteirão, uma brincadeira no sofá de casa, um gostoso afago atrás das orelhas.

Pensando bem, nós é que tivemos sorte dele ter parado na nossa porta. Roger, na verdade, é um presente que Deus enviou para alegrar minha família.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fora dos padrões


Devo ser uma pessoa esquisita mesmo, cheia de manias, gostos estranhos e com opinião diferente daquilo que muitos consideram como o “normal”. Pelo menos é o que meu amigo Adílson fala..., bom minha sobrinha Luciana diz a mesma coisa.

Nunca subi em árvores, não sou fã de Bis (o chocolate), não gosto de yogurte, não aprecio comida japonesa, não como camarão, não tenho paciência com programas humorísticos, não compro em brechós e..., apesar de ser louca por livros, não frequento sebos. Sei lá, já tentei, mas é um local onde não me acho direito, não me acerto. Isso não quer dizer que não me arrisco a ir, vez por outra, nesses espaços. É claro, vou, mas só que prefiro mais me aventurar por uma livraria.

Para começar a própria denominação sebo já me causa asco. E, embora o dicionário traga como uma das definições a livraria onde se vendem livros usados, a primeira idéia que me vem à mente é seu outro significado: gordura sólida presente nas vísceras abdominais dos ruminantes.

Desculpe-me os aficcionados, mas de fato os sebos me parecem lugares engordurados, nauseantes, de aspecto sujo. Além disso são, muitas vezes, apertados e empoeirados, repletos de livros dispostos em intermináveis pilhas e mais pilhas, que tornam difícil sua captura, o que dirá seu manuseio. A bagunça e a falta de critério na acomodação das obras é um desconvite ao desbravamento, e o predominante cheiro de mofo (porque têm sim), acabam por inibir minha escalada por prateleiras ou bancadas.

Claro, há exceções, como tudo na vida, mas ainda assim não me sinto atraída por esses estabelecimentos. Será que é por conter livros demais? Isso me faz lembrar de uma passagem do livro Ex-Libris – Confissões de uma leitura comum, de Anne Fadiman. Ela conta que George Orwell, autor de A Revolução dos Bichos, entre outras grandes obras, chegou a trabalhar em um sebo. Para ele, as horas eram longas, a loja era congelante. As estantes eram cobertas de insetos voadores mortos e uma grande porção dos fregueses era de lunáticos. Pior ainda, os próprios livros perdiam aos poucos seu lustre. “Houve um tempo quando eu realmente adorava livros”, escreveu ele, “adorava a aparência, o cheiro e a textura deles, quero dizer, se tivessem 50 ou mais anos pelo menos. Nada me agradava tanto como comprar um lote deles por um xelim num leilão no interior... Mas assim que fui trabalhar na livraria parei de comprar livros. Vistos aos montes, cinco ou dez mil de uma vez, os livros se tornavam enfadonhos até mesmo ligeiramente enjoativos.”

Já entrar em uma livraria, para mim, é outra coisa, é um lugar onde me sinto mais à vontade. Primeiro olho a vitrine, fico por um momento apreciando as capas dos livros expostos, a diversidade de títulos, as cores, as imagens, os formatos; depois, entro e olho tudo ao meu redor, passeio por entre as estantes dispostas nas paredes e nas laterais ou nas bancadas que se encontram no interior da loja. O aspecto, sem dúvida, é melhor, mais limpo, mais confortável, mais amplo, melhor distribuído e convidativo para procurar, ver, manusear, ler.

E não é porque só gosto de livros novos, limpinhos, sem rabiscos ou deteriorados, não. Sei lá, deve ser empatia, porque tenho um monte de livros “velhos” em casa, que conservo como um bem raro. E ainda costumo frequentar bibliotecas, onde há muitos livros antigos e alguns até em estado bastante lastimável. E, no entanto, adoro estar nesses espaços, consultar o catálogo, olhar as prateleiras, procurar determinados livros que não encontro nas livrarias por estarem fora de catálogo ou da lista dos mais vendidos, e descobrir outros só de circular pelas estantes. Chego a ficar horas em uma biblioteca só olhando, folheando, sonhando.

Por outro lado, sei da importância e do valor cultural que os sebos têm, sobretudo por contribuirem na promoção da leitura. Assim, se desejo adquirir algum livro ou obra rara, que não encontro nas livrarias, limito-me a consultar os sebos pela Internet e fazer meus pedidos on-line. Talvez a graça não seja a mesma, mas pelo menos não fico irritada e dou uma trégua para a minha rinite.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Coração desapontado


– Você viu quando ele chegou ao Anhembi? – Ana perguntou.
– Não –
respondi.
– Por que? Havia muitos seguranças por lá?
– Não é isso.
– O que foi então?
– Não sei, não tive vontade.
– Ah...
– E o engraçado, pensei comigo, é que tempos atrás eu moveria céus e terras só para vê-lo pessoalmente. No entanto, eu não arrisquei em mexer um milímetro sequer na direção dele.
– Por isso que eu falo: não tenha ninguém como mito. Essas personalidades são seres humanos, como nós, portanto têm falhas.
– Eu sei, mas às vezes a gente prefere não "ver" para continuar no sonho.


Este diálogo aconteceu ontem, na hora do almoço, quando contei para Ana, minha colega de trabalho, um fato que me ocorreu na sexta-feira passada. Eu tinha ido ao Anhembi para cobrir o evento do Jubileu de Ouro da SPO – Sociedade Paulista de Ortodontia, entidade para a qual faço uma revista. Em dado momento da conversa, falei sobre as reviravoltas que uma decepção pode provocar, no caso o desapontamento com um ídolo no qual você acreditava e sonhava em ver de perto um dia. É que essa possibilidade surgiu naquele dia, no Anhembi, porque também ali acontecia um outro evento – o Congresso do PCdoB – e o personagem em questão, o presidente Lula, estaria lá.

Fui uma admiradora incondicional do operário Luís Inácio Lula da Silva, e acompanhei toda sua escalada e tentativas de chegar à presidência da República. Votei nele em todas as eleições das quais ele participou, chorei muito quando ele perdeu para o Collor – porque tinha como garantida sua vitória –, vibrei demais quando, finalmente, ele chegou ao poder, e me entristeci quando vi pessoas torcendo para que tudo desse errado já na sua posse em Brasília. No entanto..., não é que deu errado, mas falhou em muitos pontos nos quais ele mesmo fazia questão de defender.

Assim, foram tantas e tantas denúncias de corrupção que, no auge da crise que culminou com o escândalo do mensalão em 2005/2006, fiquei completamente frustrada pelo silêncio e pela omissão do presidente. Esperava uma reação dele, alguma coisa enérgica, um rompimento, talvez, mas ao invés disso ele se manteve calado, cabisbaixo, alheio a tudo.

Não conseguia entender o que se passava até que comecei a ler Coração Enfurecido, de Ingrid Betancourt, uma pequena autobiografia que a então senadora colombiana lançou em 2001. O livro conta sua trajetória pessoal e política, revelando os esquemas de corrupção do Estado colombiano da época.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil? Bom, guardadas as devidas proporções, quando li aquele livro a corrupção falava alto no governo Lula e vi paralelos da política de lá com a nossa, ainda que a motivação e os caminhos sejam outros: no caso da Colômbia, os cartéis da droga; no Brasil, os grandes grupos monopolistas.

Segundo Ingrid, em seu livro, o então presidente Ernesto Samper, cuja campanha presidencial foi patrocinada pelo dinheiro das drogas, ficou omisso quando as denúncias vieram à tona e dizia não saber de nada, exatamente como acontecia no cenário político brasileiro de 2006. Fiquei chocada com a semelhança e quanto mais eu lia mais achava que tudo aquilo que havia se passado por lá, estava sendo reprisado no Brasil. Então parece que meus olhos se abriram para uma outra realidade e o que vi foi um retrato cinzento, duro, inacreditável. Vi o sonho se apagar, morrer, desaparecer.

O relato de Ingrid é fascinante e vale a pena ser lido para se conhecer melhor os bastidores da histórica política da Colômbia e o poder das drogas. Por outro lado, é terrível, porque desmistifica muito essa “coisa” de ideologia, apesar de trazer um quê de esperança com uma nova opção de cidadania que ela lutava para instalar. Em 2002 ela foi sequestrada pelas Farcs, ficando em seu poder durante seis anos, sendo libertada em 2008.

Hoje, passados três anos do episódio do mensalão, sinto que aquela chama revolucionária que existia dentro de mim diminuiu, se é que não se apagou de vez, e passei a adotar uma posição mais apolítica. No entanto, percebo que a ferida não cicatrizou por inteiro, porque por coincidência, ainda ontem, vi o trailer do filme Lula, o filho do Brasil, que será lançado em janeiro, e me emocionei muito. Naquele curto tempo em que algumas cenas são apresentadas para termos uma ideia de como será o filme, meus olhos não conseguiram segurar as lágrimas que escorregaram pela minha face, demonstrando com isso que o assunto Lula ainda dói em mim.