quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Retrospectiva Literária 2014

Esta é a terceira vez, consecutiva, que participo da Retrospectiva Literária, promovida pela Angélica Roz, do blog Pensamento Tangencial. A iniciativa trata-se de uma blogagem coletiva que reúne mais de 100 blogs todo o ano.

Assim como em 2012, 2014 foi um ano de leituras intensas, encantadoras, inesquecíveis. A média de livros lidos aumentou, embora tenha lido livros não tão volumosos, mas acho que me atropelei um pouco, fui com muita sede ao pote, se bem que mantive uma frequência nas leituras e só abandonei um livro.

Bom, vamos aos tópicos da retrospectiva:

A aventura que me tirou o fôlego:

A Volta ao Mundo em 80 dias, de Júlio Verne

Nunca tinha lido Júlio Verne, mas depois deste “a volta ao mundo” com certeza vou querer ler mais. Este livro, recheado de informações e aventuras, me levou verdadeiramente a fazer a volta ao mundo. Gostei.

O romance que me fez suspirar:

Morte em Veneza, de Thomas Mann

Não chega a ser um romance no sentido sentimental da palavra, mas fiquei enternecida pela paixão platônica do personagem principal – Aschenbach – pelo garoto – Tadzio), sobretudo nesta passagem: E reclinado, os braços pendentes, subjugado e sacudido por sucessivos calafrios, sussurrou a eterna fórmula do desejo – impossível, neste caso, absurda, abjeta, ridícula, mas ainda assim sagrada, mesmo neste caso, digna: “Eu te amo!”

O clássico que me marcou:

O Estrangeiro, de Albert Camus

Foi uma releitura e, desta vez, o livro me pegou ainda mais fundo. Mersault é um dos personagens mais fortes da literatura e sua história bastante instigante, perturbadora e ainda assim magnífica.

O livro que me fez refletir:

A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares

A história do pacato funcionário, que opera uma máquina industrial com movimentos repetitivos e que mantém uma coleção secreta mexeu comigo. Gonçalo traz sempre em seus livros questões como poder, cotidiano e morte de forma a nos fazer refletir sobre a vida.

O livro que me fez rir:

Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa

Os livros de Llosa, pelo menos os que li até agora, trazem sempre um humor implícito. Este, no entanto, é bem explícito e não tem como não se deliciar com as peripécias de Pantaleão. Muito divertido.

O livro que me fez chorar:

Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum

Pra chorar com um livro não é preciso muito. Neste então me debulhei em lágrimas. A sinceridade e a beleza da escrita de Eliane Brum, devastando sua alma e sua vida neste livro, são de arrepiar, encantar e chorar.

O livro de fantasia que me encantou:

O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman

Mais um belo livro de Gaiman com uma história um tanto autobiográfica, mas permeada de encanto e fantasia que já são características de sua obra. A infância aqui é vista em toda sua crueza, com medos, incertezas e dor.

O livro que me decepcionou:

O Livro dos Prazeres Proibidos, de Federico Andahazi

Tinha muita expectativa com esse livro e só entrou na minha lista de leituras porque queria ler uma história que se passava na Idade Média. O romance, que remetia a história de Gutenberg e o mundo dos livros, me empolgou, mas a escrita de Andahazi me pareceu pobre, sem sal, dispensável. Podia ter passado sem essa.

O livro que me surpreendeu:

Enquanto Agonizo, de William Faulkner

Achei que ia patinar neste livro, por causa da sucessão de vozes e digressões, mas, ao contrário. A história me envolveu de tal forma que me surpreendeu e me deixou fascinada pela escrita de Faulkner.

O livro mais criativo:

Verão, de J. M. Coetzee

Cada vez que leio Coetzee mais eu gosto dele. Adoro seu estilo, suas histórias, sua fluidez. Neste livro achei bem interessante, com refinados artifícios literários, que traz uma ficção autobiográfica, narrada de forma indireta. O relato é feito por um pesquisador que busca construir a história de John Coetzee, autor que já morreu, por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram. Muuuuuuuito bom.

A melhor HQ:

Gorazde, de Joe Sacco

Desde que li Palestina, Joe Sacco tornou-se um dos cartunistas preferidos. Em Gorazde ele utiliza, mais uma vez os quadrinhos para narrar uma reportagem, contando a rotina dos muçulmanos durante a Guerra da Bósnia. Realístico.

O infanto-juvenil que se superou:

Breve História de um Pequeno Amor, de Marina Colassanti

Um bom livro é aquele que fica mesmo depois da leitura ter terminado. E se você sonha com ele então, é porque já faz parte de você. A história da escritora que encontrou um ninho de pombos, com dois filhotes, em seu telhado, é de uma sensibilidade que mexe não só com as crianças, mas com os adultos também. Belo, belíssimo. Mereceu todos os prêmios que ganhou.

O livro que mudou a minha forma de ver o mundo:

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Um dos melhores livros que li este ano, Quarto de Despejo mostra que mesmo uma mulher, analfabeta, pobre e sem recursos é capaz de escrever, com toda a sensibilidade e sinceridade uma história de vida, da vida na favela, e de luta pela sobrevivência frente aos contrastes existentes. Indispensável.

A capa mais bonita:

O Livro Selvagem, de Juan Villoro

Com uma história bem construída, tendo como foco livros, biblioteca e leitura, esse livro tem tudo para agradar os leitores mais fanáticos, e sua capa, ainda por cima é belíssima.

O livro que li em um dia:

Fábula Urbana, de José Rezende Jr.
É um livro curto, infanto-juvenil, que a gente lê em poucas horas, mas cuja história envolve e encanta. Trata de meninos de rua, pedido inusitado, a pressa e o medo nas cidades grandes.

O primeiro livro que li no ano:

Províncias – Crônicas de Alma Interiorana, de Marcelo Canellas

Quando adquiri o livro no final de 2013 disse a mim mesma que seria o primeiro que leria em 2014 e assim foi. No livro estão reunidas 70 crônicas curtas sobre diversos lugares onde Canellas esteve fazendo reportagens. Observador da vida, ele narra com poesia histórias afetivas de fatos do cotidiano.

O último livro que terminei:

Memórias do Subsolo, de Dostoiévski.

Escolhi este livro por fazer parte de um Desafio Literário que estava participando este ano. Em dezembro teríamos de ler um autor russo, e optei por Dostoievski e suas "Memórias do Subsolo". Um pouco depressivo, mas muito bom.


O livro que abandonei:

Histórias de Crime e Mistério, de Edgar Allan Poe

Embora instigante, não consegui prosseguir nas histórias do livro. Li apenas "Os crimes da rua Morgue", que aliás já tinha lido uma vez, e comecei "O mistério de Marie Rogêt", mas não deu pra continuar, acho que não me alinhei com o estilo do autor.


O livro que li por indicação:

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott

Já tinha ouvido falar muito deste livro, com comentários bem favoráveis, mas ainda não tinha me decidido até que uma amiga me emprestou o livro e tive de ler. Ainda bem. A história é cativante, e deve ser entendida como de época, mas gostei muito da amizade entre as irmãs e Jo March, com a qual me identifiquei mais.

A frase que não saiu da minha cabeça:

Quando tudo falhar, desista e vá à biblioteca, de Novembro de 63, Stephen King.

Embora esta frase não tenha saído da minha cabeça ao longo do ano, não cheguei a ler o livro, apenas a encontrei na internet e amei. Então, para ficar mais dentro da retrospectiva, escolhi esta, estranha e surpreendente:

... Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me..., de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus

O (a) personagem do ano:

K, de O Castelo, de Franz Kafka

O agrimensor que chega a uma aldeia para prestar seus serviços se vê em um mundo de burocracia alucinante, em que nada parece ser o que é. Ainda assim persiste na sua saga, buscando ser ouvido e aceito. Comovente, delirante, desesperador.

O (a) autor (a) revelação:

Patrick Modiano, com Filomena Firmeza

É até um “sacrilégio” colocar Modiano como revelação, já que o escritor francês tem cerca de 30 livros publicados e ganhou o Nobel de Literatura neste ano, mas aqui não é no sentido de “novato” e sim de novo para mim. Mesmo porque seus livros estavam esgotados no Brasil e só havia em catálogo Filomena Firmeza. Li e me apaixonei, por isso uma revelação. A boa notícia é que a Rocco acabou de relançar três títulos de Modiano e, claro, já adquiri para ler.

O melhor livro nacional:

Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antonio

Os contos reunidos neste livro falam de uma São Paulo nostálgica, com seus malandros e marginalizados. O conto que dá título ao livro é fascinante e vale a pena ser conhecido.

O melhor livro que li em 2013:

"Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus impressionou-me tanto que permaneceu na minha memória este ano todo. Escrito por uma analfabeta, não deixa de ser curioso o fato deste ser o melhor livro, o que importa é a sensibilidade com que ela conta sua história.

Dos clubes:

Traçando Livros (o melhor) – Ficções, de Jorge Luis Borges

Clube do Livro (o melhor) – O Estrangeiro, de Albert Camus
  
Li em 2014... 60 livros (seis a mais do que em 2013)

A minha meta literária para 2015 é:

Prosseguir com minhas leituras, mas não mais com tanta ansiedade. Quero ler com mais vagar e tentar fazer algumas releituras.

Os dez (e aqui incluo todos os gêneros)

Ficções, Jorge Luis Borges
O Oceano no Fim do Caminho, Neil Gaiman
O Estrangeiro, Albert Camus
Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus
Meus Desacontecimentos, Eliane Brum
Enquanto Agonizo, William Faulkner
Verão, J. M. Coetzee
Terra Sonâmbula, Mia Couto
Filomena Firmeza, Patrick Modiano
Breve História de um Pequeno Amor, Marina Colassanti

Bônus para

O Alienista (quadrinhos), Fábio Moon e Gabriel Bá
Nenhum Olhar, José Luis Peixoto

E que venham mais leituras em 2015. Feliz Ano Novo a todos! 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Frases marcantes dos livros - 2014

"Quando tudo falhar, desista e vá à biblioteca" - Novembro de 63, de Stephen King.

Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção” – João Antonio, em Malagueta, Perus e Bacanaço.

Dormir é distrair-se do mundo”. - Funes, o memorioso, em "Ficções", de Jorge Luis Borges.

“Adultos seguem caminhos. Crianças exploram…” - O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman.

"Enquanto a sombra repetir no chão o teu corpo inteiro eis que te encontras vivo e completo"- A máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares.

“... Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me...” – Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

“As soluções estão sempre nas bibliotecas” – Borges e os Orangotangos Eternos, de Luís Fernando Veríssimo.

“Penso: talvez a dor exista para nos avisar de um sofrimento ainda maior” – Nenhum Olhar, de José Luís Peixoto.

“Falar é entregar-se, escrever é ocultar-se” – Beatriz (Beatriz e o escritor), de Cristovão Tezza.

“Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil. Muita vez indispensável, alguma vez delicioso”. – Esaú e Jacó, de Machado de Assis.

“Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar”. – Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum.

“Para mim, os livros sempre foram sagrados, mas apenas para que pudessem ser profanados”. – Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum.

“Paris é do sexo feminino, creio que não existe cidade mais feminina do que Paris, mulher vaidosa e assim felina feito uma gata sensual que se oferece ao turista deslumbrado mas esconde a face verdadeira, a face profunda que fica oculta e que só obedece à voz do dono e esse dono é francês”. – Passaporte para a China, de Lygia Fagundes Telles.

“... A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?” – Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

“... que mensagem me trazem dela não sabemos quem é só sabemos que é ela nada nihil nichts niente nothing nada é o que sou nada exprime aquilo que sou nada me exprime do que é nada me é como posso esperar se nada me diz o que espero com desesperada esperança mas espero com esperança ou sem ela espero pela esperança espero por ela anônimo...” – Rumor Branco, de Almeida Junior.

“Só para os raros!” “Só para os loucos!” – O Lobo da Estepe, de Herman Hesse.

Uma biblioteca não é para ser lida por completo, mas sim para ser consultada. – O Livro Selvagem, de Juan Villoro.

“... A tragédia da velhice não é a existência do velho, mas sim, a existência do jovem...” – O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Voa, passarinho... vai brilhar mais alto!


O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.

Do lugar onde estou já fui embora.

(Manoel de Barros - 1916 - 2014)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sobre escritores

Ode à Literatura

Han Yu (poeta chinês do século VIII)

"Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio... A palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura, por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem."

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"Me paga um livro?"

Nas ruas e avenidas das grandes cidades é comum encontrar “pedintes”, sobretudo crianças, abordando motoristas ou pedestres em busca de trocados ou algo para comer. Muitas vezes passamos por elas – quando não nos desviamos – repetindo mecanicamente não ter “nenhum trocado” ou, se muito, despejando algumas moedas sem muito valor em suas mãos para nos livrarmos logo, tanto dos centavos quanto dos pequenos.


Mas será que não nos surpreenderíamos se esse pedido, ao invés de ser dinheiro, comida, passagem ou coisas desse gênero, fosse um simples “Me paga um livro?”. Acho que seria algo inesperado. E foi exatamente isso o que aconteceu com José Rezende Jr., jornalista e escritor, quando ele se encontrava em um shopping de Brasília. O pedido, de tão inusitado, inspirou Rezende a escrever uma história, transformada no livro Fábula Urbana, com ilustrações de Rogério Coelho, e publicada pela editora Edição de Janeiro.

O livro, que apresenta um formato inusitado, alongado e estreito, remetendo a ideia de prédio, tem no seu traçado a geometria da cidade grande. E o texto, colocado em balões, dá início ao diálogo entre um menino de “camisetão” e shorts e um homem de terno todo alinhado, que se encontram dentro de um shopping da cidade:

“Ei tio! Me paga um livro?”

“Não tenho trocado.”


Depois dessa resposta mecânica, o homem digere a cena e cai em si, embasbacado com o pedido do menino, assim como o leitor se surpreende com o que virá depois. Os diálogos nos balões se sucedem, alternando-se entre um e outro, mas o homem cede e pede que o menino escolha um livro. A resposta deste é singela:

“Tio, como é que escolhe?”

O menino demonstra assim toda sua fragilidade e inocência, e mais ainda quando o homem escolhe um livro e lhe dá, sem saber que o pequeno não sabe ler.

A história prossegue com o homem lendo o livro para o menino, suscitando nele lembranças e emoções em um e fuga da realidade no outro. No entanto, finda a leitura, os dois se separam e o homem é arrebatado por um sentimento de culpa, por medo, pela solidão. Então, o caminho dos dois se cruza novamente...



É impossível não se comover com a “pequena” história. O texto, aliado às belas ilustrações, tocam fundo, faz a gente pensar neste estar no mundo e no poder da fantasia para atenuar as mazelas da vida.

Conheci a história em um quadro do Fantástico, programa exibido aos domingos pela TV Globo, onde Fábula Urbana foi encenada e me apaixonei de “cara”. Sua leitura se tornou urgente para mim. Hoje a considero necessária e uma bela maneira de comemorar o Dia Nacional do Livro.

sábado, 25 de outubro de 2014

A Viajante do Trem

Utilizado diariamente pela população não motorizada, o transporte coletivo pode render boas histórias – e amizades – aos seus usuários. Eu mesma já protagonizei algumas, das quais fiz questão de perpetuar neste blog, logo no seu início, como aquela em que, leitora assídua nas viagens, chegava a ter – e ainda tenho flashes de personagens e de cenas lidas ao adentrar em alguns vagões do metrô paulistano.

Esta, no entanto, é uma das visões mais amenas proporcionadas pelo transporte coletivo, que vivem lotados, por vezes apresentam problemas e transtornam a vida das pessoas que precisam utilizá-lo. No meu caso, não chega a ser tanto, pois tenho um horário razoavelmente bom para entrar no trabalho e que me tira do horário de pico na parte da manhã. No entanto, na volta para casa a história é outra e acabo entrando na dança, afinal, não se passa incólume pelo metrô ao ser um usuário.


As histórias até poderiam ser engraçadas se, muitas vezes, não fossem trágicas. Mas é possível encarar com bom humor e tornar sua viagem se não agradável, ao menos mais fácil de levar. E é exatamente essa a proposta de Andréia G. Garcia, usuária dos trens da CPTM e do metrô SP e blogueira ( http://www.aviajantedotrem.com.br/ ), que em seu livro A Viajante do Trem, traz crônicas divertidas sobre a rotina nos transportes coletivos paulistanos.

“Usei de um ambiente muitas vezes cruel e sacal para várias pessoas e estressante para a maioria, para ter uma oportunidade de sociabilização e criatividade, relatando histórias com humor e leveza, mesmo quando elas não o são”, escreve Andréia na contracapa do seu livro, dando mostras assim da sua disposição em fazer de um tempo ocupado nos trens em momentos de descontração, aprendizado e interação.

As crônicas reunidas no livro são curtas e diretas e falam do dia a dia dos usuários no transporte coletivo, suas agruras, suas dificuldades, seus relacionamentos, tudo com muito bom humor. Estão lá personagens de carne e osso que escutam funk no último volume, os vendedores ambulantes, as conversas de quem já se faz íntimo de pessoas que acabaram de conhecer, os dorminhocos que ficam balançando o corpo e a cabeça ameaçando quem está ao lado, os “tartarugas” que empatam a vida dos outros, as moças que fazem verdadeiro malabarismo para se maquiarem, os “pescoções” em busca da leitura alheia, as estações e seus nomes pitorescos, os leitores, os comilões e suas marmitas, e uma galeria infinita de gente e de fatos que quem utiliza os trens é capaz de reconhecer.

Ao final do livro, um capítulo dedicado a jingles e marchinhas, o “Cante com a Viajante”, traz paródias bem engraçadas de músicas do nosso popular, como estas:
(I)

Ei, vc aí, me dá meu lugar aí
Me dá meu lugar aí.
Ei, vc aí, me dá meu lugar aí
Me dá meu lugar aí.

Não vou dar, não vou dar não.
Eu sou folgado e estou cansadão.
Vou fingir, babar e até dormir.
Esquece, esquece, esquece,
Daqui não vou saiiiiiir!!!

(II)

O trenzão vai surgindo
E eu já tremo à toa
O povo empurra e
Eu perco a bolsa

Seu João, não vem não,
Se esfrega de novo e
Leva um safanão!

A Viajante do Trem é mesmo pura diversão. Aventure-se também, tenha uma boa leitura e uma boa viagem, literalmente. 


*(Para quem quiser conhecer a autora, ela estará participando de um bate-papo com os usuários na Estação Luz (CPTM), às 12h30, do dia 28/10 (terça-feira). A conversa faz parte do Projeto Livro Livre CPTM – 9ª edição, de incentivo à leitura. Na oportunidade serão distribuídos 100 livros A Viajante do Trem, com direito a autógrafo. O apoio é do Jornal Estação. O Projeto Livro Livre ocorrerá de 27 a 31/10.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Histórias de cães

Gosto de livros com histórias sobre animais, fictícias ou reais, daquelas que envolvem a gente, tocam fundo em nossa alma e nos fazem ver os bichos sob um ótica mais humana. Mas confesso que me entristeço sempre quando a narrativa traz os sofrimentos pelos quais esses bichinhos passam. Nessas horas, é difícil continuar a leitura. Seja como for, não me furto de, vez por outra, me aventurar nessas histórias.


Foi assim que dois livros chegaram às minhas mãos nas últimas semanas, trazendo lembranças, lágrimas, alívio e encantamento: Caos, o cachorro e Um dia, um cão. Duas histórias escritas e desenhadas por mulheres. Duas preciosidades.

Caos, o cachorro é uma aventura infanto-juvenil, escrita por Tathyana Viana, publicada neste ano pelo selo Alfaguara, da Editora Objetiva. As ilustrações são de Mariana Massarani, designer que já recebeu vários prêmios, entre eles quatro Jabuti de Ilustração.

O livro de Tathyana conta a história de um vira-lata que, logo nas primeiras páginas, é deixado na rua em uma noite chuvosa e fria ainda filhote. Seu abandono chama a atenção de algumas pessoas que por ali passam, mas ninguém se dispõe a levá-lo para casa, limitando-se a arrumar comida, água, caixa para dormir e deixando-o na porta de um pet-shop. Começa aí a saga do cãozinho.


Cada capítulo é construído com um nome para o cão e seus possíveis donos, com direito ainda a uma estadia pelas ruas, onde conhece um companheiro, outro cão, abandonado como ele, mas mais velho e, portanto, mais “escolado”. Juntos, começam uma bela amizade entre altos e baixos:

Aqui o tempo vira uma coisa maluca: entre correr e descansar, ter fome e sede, e sentir a liberdade, passaram-se muitos dias e muito chão. De repente aconteceu: encontrei um igual. Um vira-lata marrom, tão perdido e sozinho quanto eu. Criamos uma amizade que só um cão fiel pode entender. Desde a primeira vez que cheiramos o rabo um do outro soubemos que seríamos amigos para sempre.
Passamos fome, pegamos chuva, vivemos na correria. Fomos enxotados e compartilhamos comida, pulgas e carrapatos.

A trajetória do cão segue, com muitas aventuras e desventuras, debatendo-se entre a liberdade das ruas ou ter um lar, até encontrar sua verdadeira dona e seu lugar neste mundo.

A história é lúdica, tocante, comovente. Não pude conter as lágrimas em muitas passagens do livro. Lembrava-me de um cão que tive, que tinha uma história semelhante, tendo sido abandonado na rua, mas adulto. Quis a providência que ele parasse na porta da minha casa e, quando esta se abriu, disparar pelo seu interior, numa convivência que durou pouco mais de dez anos. A história de Caos só podia mexer comigo.

Além disso, “conheço” Tathyana da internet, desde que comecei a escrever o meu blog, e sabia do projeto do livro. Aguardei com ansiedade a publicação e, tão logo surgiu a oportunidade, comecei a lê-lo.

Formada em Produção Editorial, Tathyana mantém um blog – www.tathyviana.com.br, onde coloca suas “ideias sobre a vida e a escrita”, com direito a “livros, cachorros, bolos e sonhos”. Ela conta que quando terminou a faculdade, adotou seu primeiro cão, Ulisses, que inspirou muitas das aventuras do livro. Atualmente tem dois vira-latas: Clara Joaquina e Fran Chiquinha.

Um dia, um cão


Um dia, um cão é de autoria da ilustradora Gabrielle Vicent, nome artístico de Monique Martim, nascida em Bruxelas, na Bélgica. Publicado pela Editora 34, o livro é uma verdadeira joia que prescinde de texto, de palavras, apresentando apenas ilustrações.

A história é simples, mas nem por isso menos tocante. Um cão, um carro, uma estrada. O abandono constatado na medida em que o carro se afasta. Esse cão passa a perambular pela estrada, pelas ruas, pela cidade, pela praia, buscando encontrar um porto, uma morada, uma companhia.

Com um traço espetacular, Gabrielle explora todas as dimensões de linha e de tonalidade do grafite, criando uma atmosfera única, ressaltada pelo branco da página e pela imaginação do leitor.


Não é à toa que fui abduzida pelo livro quando o vi na Bienal do Livro em São Paulo. As ilustrações são hipnóticas, tragando nossos sentidos e nos transportando para além das páginas. Não há como não se emocionar.

Gabrielle Vincent é uma artista conhecida na Europa, nos Estados Unidos e no Japão pela série Ernest et Célestine, que narra a história do convívio entre um urso e uma ratinha. É autora também de A pequena marionete, que recebeu no Brasil o Prêmio de Melhor Livro de Imagem de 2007, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ.

Duas leituras rápidas. Duas leituras eternas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Paixão pelo Nobel

Nem bem o escritor francês Patrick Modiano alcançou os holofotes da literatura, com a distinção do Nobel, e já me apaixonei por ele. O pouco que li a seu respeito e as informações que consegui sobre sua obra foram mais do que suficientes para despertar esse sentimento em mim. Mas um sentimento que precisava ir além, chegando às vias de fato, de forma que a paixão pudesse se materializar em toda sua extensão. E o melhor a fazer era ler um de seus livros.
 
O problema residia justamente aí, porque alguns de seus livros, embora tivessem sido publicados pela Rocco no Brasil, encontram-se atualmente fora de catálogo. Mas não me dei por vencida, afinal os apaixonados sempre procuram um jeito de estarem perto de suas mais recentes paixões. A solução foi procurar em sebos, mas teria de garimpar e esperar, ou ainda, pesquisar nas bibliotecas públicas de São Paulo que, por felicidade, têm unidades em que dois dos livros estão disponíveis. No entanto, elas localizam-se distante de onde moro ou trabalho.

Surgiu então outra alternativa e esta bem melhor e imediata, coincidindo com a proximidade do Dia das Crianças: conhecer sua escrita em uma das raras incursões do escritor pela literatura infanto-juvenil, com a leitura de Filomena Firmeza, único livro em catálogo no Brasil, publicado recentemente pela Cosac Naify.

Escrito em 1988, Filomena Firmeza, tem ilustrações de Sempé e tradução de Flávia Varella. Trata-se de um belo convite à infância por retratar o convívio entre pais e filhos e a importância do amor nessa relação. E, logo nas primeiras páginas, a história ganhou meu coração nesta lembrança de Filomena:

... Não se dança de óculos. Eu me lembro de que, na época da senhora Dismailova, eu treinava durante o dia para conseguir ficar sem os óculos. O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu via sem óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava por adormecer.
– Está sonhando com o quê, Filomena? – papai me perguntava. – Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar.
 

O livro é de uma delicadeza tal que se evidencia não só na narrativa, mas nos suaves traços de Sempé, cartunista francês, que conheci no belíssimo Marcelino Pedregulho, ilustrado e escrito por ele. Em Filomena Firmeza ele realça a história de forma sutil e encantadora. 
 
A trama tem início com Filomena já adulta, observando a filha que auxilia as alunas de uma escola de balé, em Nova York. Uma das aprendizes lhe chama a atenção por usar óculos e ter de deixá-lo de lado, exatamente como ela fazia quando criança. Dessa constatação surgem as lembranças da infância, de quando Filomena morava em Paris e que se constituem no cerne do livro.

Era época da Segunda Guerra Mundial, o pai de Filomena morava na França, mas a mãe era norte-americana que, em dado momento vai embora para os Estados Unidos com a companhia de balé, esperando que a filha e o marido juntem-se a ela mais para frente. O tempo passa e pai e filha tem uma relação bastante estreita, dividida entre o dia a dia do trabalho do pai e a escola de balé que Filomena passa a frequentar.

Com Filomena Firmeza, Patrick Modiano, 15º francês a receber o Nobel de Literatura, conquistou de vez meu coração. Sinto-me tentada a incursionar por outros títulos de sua literatura, como Ronda da Noite e Uma Rua de Roma, que vou pegar emprestado das bibliotecas.
 
A boa notícia é que a Editora Record comprou os direitos de três obras de Modiano na Feira de Frankfurt, que aconteceu recentemente na Alemanha: Remise de peine (1988), Fleurs du ruine (1991) e Chien de printemps (1993). É esperar a tradução e a publicação.