sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O bruxinho na telona

Mal cheguei ao trabalho hoje de manhã e já fui abordada por um colega que me disse:
– Meu filho chegou às 3 da manhã em casa.
Fiquei na expectativa só pensando no que eu tinha a ver com isso.
– Ele saiu de um carro que estava atulhado de gente, nem sei como todo mundo entrou ali dentro.
Continuei sem entender nada. Foi aí que ele falou:
– Ele foi assistir a pré-estreia de Harry Potter e as Relíquias da Morte e eu o esperei para saber do filme.
Pronto. Ouvir aquelas palavras foram como mágica para mim e apressei-me em saber:
– Verdade? E aí, o que ele achou?
– Nossa! Disse que é bem idêntico ao livro. Ele adorou!

Meu Deus, quase pirei. Se já tinha vontade de assistir ao filme, depois do que ele me contou fiquei mais ansiosa ainda. Quanto esperei por isso, contei os dias até, só falava no filme nestes últimos meses. Disse a mim mesma que iria assistir assim que estreasse e depois veria novamente, para prestar mais atenção aos detalhes que por ventura deixasse escapar da primeira vez.

Mas pensei melhor e achei por bem esperar mais uma semana. Um pouco por causa do alvoroço e das filas enormes, depois porque assim prolongo a expectativa e alimento o meu desejo. É mais ou menos como naquele conto de Clarice Lispector, Felicidade Clandestina, em que uma menina queria muito ler um livro, mas não conseguia emprestá-lo, até que quando o teve em mãos, fazia de conta que não o tinha, escondia-o em algum lugar e se espantava ao encontrá-lo novamente para, de alguma forma, prolongar o êxtase pela conquista e o prazer daquela futura leitura.

E mesmo conhecendo a história, pois já li As Relíquias da Morte quando o livro chegou ao Brasil (até comprei em pré-venda) em 2007, a expectativa pelo filme não diminuiu, ao contrário, só cresceu, porque assim poderei visualizar todo o universo potteriano na tela do cinema e unificá-lo com o meu, concebido durante a leitura.

Este livro é o sétimo e último da saga e, transposto para o cinema, foi dividido em duas partes. A primeira estreia agora. A outra só chega em julho de 2011. Esta última aventura é muito engenhosa, muito boa, repleta de detalhes. Harry Potter amadureceu e com eles seus milhares de fãs. Da história infantil e engraçada do primeiro livro (A Pedra Filosofal), que introduziu toda a história do pequeno bruxo, o último carrega um tom mais sombrio e sóbrio, já iniciado com o quarto livro da série, O Cálice de Fogo.

Muitos personagens povoam as páginas de As Relíquias da Morte e grandes surpresas estão reservadas para Harry e sua turminha. Juntos, eles buscam – para destruir – as horcruxes com que Voldemort dividiu sua alma. Uma empreitada dura, repleta de percalços e reviravoltas, mas também uma jornada de persistência, coragem e amizade.

Mas, enquanto não me aventuro pelas salas de cinema, vou me divertindo com as brincadeiras baseadas na série, como este teste –http://testeparavoce.br.msn.com/entretenimento/harrypotter/Start.aspx – que vi no MSN para saber que “personagem você é no mundo potteriano”. O meu resultado? Harry Potter.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Leitor e o leitor

Vez por outra eu retomo antigas leituras, seja porque alguma coisa na rotina me remete a elas, seja porque elas ainda estão muito vivas na minha mente. E essa retomada é sempre prazerosa, pois a releitura traz novas perspectivas e visões da leitura inicial que, na pressa, pode ter deixado escapar detalhes de grande importância para o desfecho do livro.

Mas não foram estes os motivos que me levaram a reler, pela segunda vez – ao menos boa parte –, Se um Viajante Numa Noite de Inverno, do escritor italiano Ítalo Calvino. É que a blogueira Érika, do Narrativas e Divagações, queria saber a minhas impressões sobre este livro, que ela deseja ler, mas talvez por não ser ainda o momento certo, vem adiando indefinidamente.

Pra falar a verdade, eu planejava falar sobre este livro em um post que trataria de livros sobre livros, ou seja, livros que falam de livros, uma das leituras de que mais gosto, mas claro, abordaria aqueles que li, como Se um viajante. Sim, este mesmo, porque ele também trata do livro no livro, ou melhor, do ser Leitor, e de todas as implicações que esse papel traz em seu interior, não deixando de lado também a figura do escritor.

O Leitor, contudo, ocupa a cena principal, ele é o protagonista da história e você, como leitor, irá acompanhar a odisseia desse Leitor no papel , muitas vezes se confundindo com ele, já que por não ter nome, pode muito bem ser você. E o que quer esse Leitor, assim como você, é tão somente terminar a leitura do livro que começou, uma aventura que se principia no próprio ato de ler, assim:

“Você vai começar o novo romance de Ítalo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Pare. Concentre-se. Afaste qualquer outro pensamento...”

Calvino detalha a seguir a melhor maneira e o lugar que o Leitor escolhe para ler, como chegou até o livro, o porquê e como o elegeu, onde e como o encontrou, quais foram os obstáculos enfrentados nessa busca, enfim, cada passo do processo que termina quando o Leitor está confortavelmente instalado lendo o livro.

Aí começa a história em si, ou melhor, a história que está nesse livro que o Leitor está lendo. Da leitura vacilante a princípio, o enredo vai ganhando corpo até prender a atenção do Leitor e, justamente quando esse interesse começa a crescer, a leitura é interrompida por um defeito no livro, que repete, nas páginas seguintes o mesmo início. Frustração e desespero se apoderam do Leitor.

A partir daí o Leitor empreende uma caçada sem fim para recuperar o livro que começou com sua história completa, sem interrupções. E, cada vez que se depara com um novo exemplar que lhe chega às mãos, outra história se desenha a sua frente, que nada tem a ver com aquela que ele começou, mas que o apaixona da mesma forma e o faz querer continuar esse novo enredo. Ao final serão dez romances que o Leitor – e você – começam e, por razões diversas, não conseguem terminar

No meio de tudo isso o Leitor encontra uma Leitora, Ludmilla, apaixonada por livros e para quem a leitura é algo sagrado, tanto que ela se recusa a ter contato com autores e até mesmo com editoras, para não correr o risco de transpor a “linha divisória” que separa um personagem do outro e ter sua condição de leitora perdida:

“– Há uma linha que separa, de um lado, os que fazem livros, de outro, os que leem. Quero continuar a fazer parte daqueles que leem, e por isso presto muita atenção para me manter sempre deste lado da linha, Senão, o prazer desinteressado de ler já não existe, ou se transforma em outra coisa, que não é o que quero. É uma fronteira imprecisa, que tende a desaparecer: o mundo daqueles que têm relação profissionais com os livros está cada vez mais povoado, e tende a se identificar com o mundo dos leitores. Evidentemente, os leitores também são cada vez mais numerosos, mas pode-se dizer que o número daqueles que utilizam os livros para produzir outros livros cresce definitivamente mais depressa que o número daqueles que gostam dos livros para ler. Sei que se eu transpuser o limite, mesmo acidentalmente, corro o risco de perder-me nessa maré que sobe; conclusão: recuso-me a pôr, mesmo por alguns minutos, os pés numa editora.”

Se um Viajante Numa Noite de Inverno, o livro de Ítalo Calvino, com seus vários livros dentro desse livro e a interminável saga do Leitor em busca da continuação das suas leituras é uma grande viagem, uma viagem que quanto mais você se envereda por ela, mais fundo você quer chegar. Se ela vai desembocar em algum lugar, só o transpor da última página dirá. Mas asseguro que é uma aventura pela qual vale a pena tentar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Na banca de jornal

Eu ando um tanto nostálgica ultimamente. E, até, já comentei aqui da saudade que sinto de ouvir notícias, na frequência AM, do radinho de pilha. Mas outro dia, outra recordação me bateu forte, fazendo lembrar de um antigo hábito que há muito deixei de realizar: ler as manchetes jornalísticas na banca de jornal.

Parece uma coisa tola, sem sentido num mundo em que a internet é a bola da vez. Sim, posso fazer isso acessando os sites dos jornais no computador ou ainda ligando a TV para assistir ao noticiário matinal, mas confesso que não é a mesma coisa. Falta, por exemplo, o calor humano nesses veículos midiáticos. O mesmo calor que você sente quando está olhando uma publicação em uma banca e percebe uma pessoa ao lado fazendo a mesma coisa. Em dado momento é possível até notar suas expressões frente a uma notícia, quando muito sua opinião sobre o assunto em destaque.

Gosto de circular por bancas de jornal desde criança, época em que meu pai levava minha irmã e eu, sempre aos domingos, para comprar revistas, jornais, pequenos livros, gibis nesses pontos de venda. Era uma grande festa, coroada com a leitura prazerosa ao retornar para casa.

Cresci, os interesses foram se diversificando, mas a rotina das bancas de jornais continuou, ampliando-se quase que diariamente, mas dessa vez mais centrada nas manchetes de jornais e nas revistas de informação. No caminho para o trabalho, por exemplo, cada banca encontrada era um novo motivo para eu parar e olhar as publicações, com atenção e interesse redobrados.

Mas o tempo foi passando e percebi, ultimamente, que esse hábito diminuiu, não sei ao certo o porquê, talvez seja a tal da internet, que te oferece um leque grande de possibilidades, com um sem número de atrativos, rápido e eficaz, mas que ao mesmo tempo restringe, limita e tira todo aquele prazer do convívio com outras pessoas, ainda que anônimas e desconhecidas. Esse mundo dinâmico, mediado por aparatos virtuais, acaba por trazer uma visão “borrada” da realidade, porque não testemunhada, porque não compartilhada.

Por tudo isso, acho que estou precisando mesmo retomar velhos hábitos, voltar meus olhos para as bancas de jornal, fazer minhas paradas matinais por esses espaços, explorar as publicações existentes, antigas e novas, prestar mais atenção ao mundo à minha volta. Ah, e também ouvir mais AM no rádio. Porque a informação só é completa quando dividida e, de certa forma, vivenciada.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O meu apocalipse

A aula de Português estava animada e produtiva, como acontecia todas as vezes que a disciplina era ensinada, com os alunos fazendo várias intervenções e brincadeiras. A professora, no entanto, mantinha o controle da sala e conseguia monopolizar a atenção de todo mundo. Esta era uma das aulas de que mais gostava, só que não me lembro bem o ano, só sei que estava no 1º grau – hoje equivalente ao Ensino Fundamental – época em que as ideias fervilhavam na minha cabeça.

Ainda com aquela ideia de ser escritora, mas quase mudando para o jornalismo, tive um rápido insight e acabei levando a minha imaginação a criar uma história, ou melhor, a começar uma história, um pequeno conto em que da animada aula, viveríamos um pesadelo imenso ao sair da sala.

Era mais ou menos assim: a aula acontecia naturalmente, com a matéria sendo explicada e a turma recebendo as lições com interesse, haveria espaço para questionamentos e até brincadeiras. Lá fora caía uma tempestade forte, recheada de trovões e relâmpagos, que duraria até o término das aulas. Dado o sinal, todos se apressam em ir embora, mas ao transpor o portão do colégio a turma sente alguma mudança no ar e percebe, aos poucos, que o mundo ao redor já não é o mesmo e que o tempo dera um salto enorme, de forma que toda aquela vida que conhecíamos havia ficado para trás, perdida num passado longínquo. Apenas “nós” ainda éramos os mesmos.

Bom essa era a trama central, mas não cheguei a desenvolver a continuação. Não consegui pensar em mais nada e ir em frente com o texto. Acabava assim a trajetória da “aspirante” a escritora de ficção para dar lugar a jornalista da vida real.

A ideia do meu conto, eu sei, não é tão original assim. Mas qual não foi minha surpresa quando li Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva, que lembrava a minha história, mas claro, muito melhor, com mais ação e uma continuação digna de nota. A narrativa é despojada, instigante, imaginativa. É uma leitura de um fôlego só, que não se consegue largar até chegar ao fim.

O enredo se passa em São Paulo, onde dois rapazes e uma garota, de volta de uma expedição que fizeram a uma caverna do Vale do Ribeira, percebem a cidade deserta, ou melhor, com pessoas, mas estas se encontram duras, como que cobertas por uma capa plástica. Cada uma parada conforme a atividade que estivesse executando no momento em que aconteceu essa espécie de “blecaute”, paralisando tudo, para sempre.

Sozinhos em meio a uma São Paulo caótica, os três personagens – Rindu (narrador), Martina e Mário – tentam sobreviver, buscando entender o que aconteceu à cidade e descobrindo que a situação se estendia ainda a outras regiões do estado, do país, do mundo.

A ideia recorrente de apocalipse sempre acompanhou a humanidade, talvez por isso as catástrofes populacionais na ficção não sejam uma novidade. Mas a maneira de contar sim.

No início do livro, Marcelo Rubens Paiva lembra que para escrever Blecaute se inspirou nos episódios da série Além da Imaginação, telessérie americana, que apresentava histórias de ficção científica e terror, em diversas temporadas, nos anos de 1959, 1985 e 2002.

No livro, a personagem Martina, tentando entender a nova realidade, recorda do filme A última esperança da terra, com Charlton Heston no papel principal, cuja história gira em torno de um cientista que, após a devastação da Terra por uma poderosa peste, se dá conta de ser o único sobrevivente vivo.

O filme, por sua vez, foi baseado no romance de ficção científica Eu sou a Lenda, do escritor americano Richard Burton Matheson, que teve ainda outras duas adaptações cinematográficas: O último homem da terra, com Vicent Price, e Eu sou a lenda, com Will Smith.

Blecaute é, sem dúvida, inspirado nessas histórias para lá da imaginação. Entretanto, para escrever o livro, Rubens Paiva teve também outros estímulos, como as músicas de Tom Waits, King Crimson e Duke Ellington. Confessa ter estado ”deprimido por descobrir o tédio e a solidão, apesar dos apelos, o vício acima de tudo, apesar do universo em expansão (ideia recorrente na obra), sentindo amor pela juventude e ódio pela verdade”.

Todos esses sentimentos estão expressos, de uma forma ou de outra, no livro, como na passagem, no início da história:

No princípio, o Céu e a Terra eram fenômenos divinos; e só. Em seguida, a Razão, a Ciência encontrou teorias que os definissem. A luta da humanidade era explicar o inexplicável. Hoje... meu corpo se curvou para a frente, cansado, desiludido. Dane-se! Me lembro de uma música que falava “Tudo, tudo, tudo vai dar certo...” e acho engraçado. Nada deu certo. Já me falaram de uma nova Era. Já me falaram do universo em expansão. Mas nada deu certo. Nada.
Começou há muito tempo. Sei lá, há uma porrada de tempo.

Depois da leitura de Blecaute entendo o porquê de não ter dado prosseguimento à minha história. Acho que tudo o que pudesse imaginar não ficaria tão bom assim. Adoro ficção, mas definitivamente sou uma escritora da vida real.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Os livros mais vendidos

Eu adoro listas, especialmente se estas forem de livros. Pois é, hoje, quando se comemora o Dia Nacional do Livro, data esta instituída por ter sido no dia 29 de outubro de 1810 que a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Rio de Janeiro, originando assim a Biblioteca Nacional, vi um artigo interessante no site do UOL sobre os 21 livros mais vendidos de todos os tempos.

Estes livros bateram a marca das 50 milhões de cópias vendidas, um número bastante considerável, o que não significa, necessariamente, que são os mais lidos. Mas, o que mais gostei é que da lista de 21 livros, eu li – e li mesmo – pelo menos 12 (graças a Harry Potter), ou seja, mais da metade. Destes, dois estão na minha lista de preferidos: Harry Potter e a Ordem da Fênix e O Pequeno Príncipe.

Da lista dos 21, ainda, três eu não li, mas assisti ao filme: O Senhor dos Anéis, Ben Hur e A Marca do Zorro. Não é a mesma coisa, eu sei, mas conheço a história.

Para não fazer mais mistério sobre os livros, listo abaixo os 21 mais vendidos de todos os tempos – e o quanto venderam –, destacando em verde aqueles que já li.

1. A Bíblia – 6 bilhões (este pelo menos uma parte)
2. O Livro Vermelho, Mao Zedong – 900 milhões
3. O Alcorão – 800 milhões
4. Xinhua Zidian (dicionário chinês) – 400 milhões
5. O Livro de Mórmon, Joseph Smith Jr. – 120 milhões
6. Harry Potter e a Pedra Filosofal, J. K. Rowling – 107 milhões
7. E Não Sobrou Nenhum (O Caso dos Dez Negrinhos), Agatha Christie – 100 milhões
8. O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien – 100 milhões
9. Harry Potter e o Enigma do Príncipe, J. K. Rowling – 65 milhões
10. O Código da Vinci, Dan Brown – 65 milhões
11. Harry Potter e a Câmara Secreta, J. K. Rowling – 60 milhões
12. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger – 60 milhões
13. Harry Potter e o Cálice de Fogo, J. K. Rowling – 55 milhões
14. Harry Potter e a Ordem da Fênix, J. K. Rowling – 55 milhões
15. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, J. K. Rowling – 55 milhões
16. Ben Hur: Uma Narrativa de Cristo, Lew Wallace – 50 milhões
17. Heidi´s Years of Wandering and Learning, Johanna Spyri – 50 milhões
18. O Alquimista, Paulo Coelho – 50 milhões
19. Meu Filho, Meu Tesouro, Dr. Benjamin Spock – 50 milhões
20. O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry – 50 milhões
21. A Marca do Zorro, de Johnston McCulley – 50 milhões

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Reportagem em quadrinhos

Se me perguntassem, hoje, “onde eu gostaria de estar?”, a minha resposta seria rápida e direta: em Porto Alegre, e isso por uma simples razão: a capital gaúcha abrigará, de 29 de outubro a 15 novembro, a sua 56ª Festa do Livro (http://www.feiradolivro-poa.com.br/), considerada a maior a céu aberto das Américas. E o que é melhor, totalmente gratuita, democrática, plural.

Mas se a feira começa na sexta e segue por mais duas semanas, por que então eu gostaria de estar lá antes? E a minha resposta não poderia ser mais natural do que a outra: para participar do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos, que começa amanhã e vai até o dia 30 de outubro, como um evento paralelo à Feira do Livro de Porto Alegre, mas que infelizmente não poderei presenciar.

A programação é de primeira (http://www.goethe.de/ins/br/poa/ver/pt6596308v.htm) e terá, entre os convidados, os quadrinistas alemães Atak e Jens Harder. Dos nacionais estarão presentes Aristides Dutra, mestre em Jornalismo em Quadrinhos; Felipe Muanis, jornalista, ilustrador e professor; Gilmar Rodrigues, jornalista; e Spacca, desenhista e escritor de quadrinhos históricos, entre outros.

Já comentei várias vezes aqui minha paixão por quadrinhos, especialmente pelo Jornalismo em Quadrinhos, gênero que tem se destacado nos últimos anos, cujo grande expoente, pelo menos para mim, é o cartunista e jornalista Joe Sacco.

Até conhecer seus trabalhos, em 2001, especialmente Palestina – Uma nação ocupada, e que me inspirou a fazer uma monografia para a pós em Jornalismo Internacional, eu nunca tinha ouvido falar em Jornalismo em Quadrinhos. A descoberta da graphic novel foi uma surpresa bastante agradável e se tornaria um ícone no gênero para mim.

A reportagem em quadrinhos de Sacco foi lançada no Brasil em 2000, com 144 páginas. Sabe-se que durante muito tempo, a abordagem da questão palestina apresentada pelas mídias tradicionais – jornais, revistas, televisão – mostrava apenas um lado do conflito – israelense – em detrimento do outro – palestino. De uma maneira criativa e original, Joe Sacco decidiu, entre 1991-1992, verificar “in loco” a situação e retratar em quadrinhos o dia a dia dos palestinos, mostrando quem são, o que pensam, o que sentem, como vivem. O resultado foi uma excelente reportagem em quadrinhos, primeiramente publicada em uma série de nove revistas e, posteriormente, editada como livro, em dois volumes – o segundo é Palestina – Na faixa de Gaza.

O primeiro volume destaca, entre outros aspectos, o campo de refugiados de Balata, na Cisjordânia, a detenção, o aprisionamento e o interrogatório de palestinos, feitos por autoridades israelenses, e a questão das mulheres palestinas. O conflito não só é explicado historicamente, como traz os fatos no seu cotidiano, com depoimentos e representações do que aconteceu naquela região. O próprio autor se insere no enredo, se retratando como um personagem, ele próprio, um repórter em busca de uma boa reportagem, que vive no meio do povo, ouvindo suas histórias e dando forma estética a elas.

Sacco é da escola do quadrinho underground e formou-se em jornalismo pela Universidade de Oregon. Com Palestina, ele ganhou o American Book Awards e o Prêmio HQ Mix 2000 de melhor graphic novel estrangeira. Palestina foi considerada ainda Melhor Nova Série pelos Harvey Awards (os Óscares na comunidade dos comics) e foi largamente mencionada em publicações como The Utner Reader e Washington City Paper.

É de Sacco, também, as reportagens em quadrinhos Área de Segurança: Gorazde e Uma história de Sarajevo sobre a Guerra da Bósnia. Mais recentemente publicou Notas sobre Gaza, que narra um fato histórico acontecido em 1956, data do assassinato de 275 palestinos em Khan Younis, vila na faixa de Gaza. Este constituiu-se mais num trabalho de historiador. O jornalista assina, ainda, outros trabalhos, sempre mesclando a história com os quadrinhos.

Na verdade, livros em quadrinhos começaram a ter sucesso nos Estados Unidos no início dos anos de 1990, a partir da publicação de Maus, de Art Spiegelman. O livro misturava cenários detalhados e elementos surreais para narrar a saga dos seus pais, que eram judeus, durante a II Guerra. Com seu livro, Spiegelman fez com que o mundo levasse a sério a possibilidade de fazer jornalismo em quadrinhos. Outro exemplo é a obra de Will Eisner, em que uma cidade inteira é desvendada sob ângulos insuspeitados no magnífico New York – The Big City.

Outros quadrinistas, como Keiji Nakazawa, também seguem pela mesma linha, com o tocante Gen – Pés Descalços – Uma história de Hiroshima. A obra é autobiográfica e foi lançada em quatro volumes. Trata-se da história do autor crescendo em uma família pacifista durante a Segunda Guerra e enfrentando a devastação física e espiritual causada pelo homem. Eletrizante e emocionante, a série tornou-se um dos maiores clássicos da narrativa sequencial japonesa, com mais de cinco milhões de exemplares vendidos e versões para cinema, desenho animado e até mesmo uma ópera.

Todos esses trabalho, outros que não citei – como O Fotógrafo, de Didier Lefèvre, que misturam fotos e quadrinhos, sobre a guerra do Afeganistão – e os que ainda estão por vir confirmam a possibilidade de unir duas linguagens tão diferentes como a do jornalismo e a do quadrinhos. Sobre isso, o jornalista José Arbex Jr, que foi meu professor na pós e assina o prefácio de Palestina – Uma nação ocupada, dá o veredicto certeiro:

... A notícia se nunca foi um “relato objetivo”, até porque, não existe a “linguagem objetiva”, hoje funciona apenas como uma peça de legitimação de determinada ordem ou percepção do mundo. Ela é um ingrediente do “grande show” transmitido diariamente pelos oligopólios da comunicação. Ao diluir as fronteiras entre os gêneros, ao tratar o mundo como show e o show como notícia, a mídia permitiu, em contrapartida, que outras linguagens, como a dos quadrinhos, reivindicasse para si o estatuto do jornalismo. E aí se resolve o impasse aparente.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Vlado

Em sua 32ª edição, o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos recebeu, este ano, mais de 300 trabalhos – reportagens relacionadas aos direitos humanos – vindos de todas as regiões brasileiras. Os vencedores (confira no site http://www.premiovladimirherzog.org.br/), nas 10 categorias – rádio, jornal, TV reportagem, TV documentário, TV imagem, fotografia, arte, revista, rádio e internet – receberão o prêmio hoje, dia 25 de outubro, data em que se comemora os 35 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog.

Nascido Vlado Herzog, em 1937, na Croácia, Vladimir (nome adotado ao se naturalizar brasileiro) foi jornalista, professor e dramaturgo. Meu interesse por esse personagem da vida real surgiu quando era estudante de jornalismo, em 1979, quatro anos depois da sua morte misteriosa, nos porões do DOI-CODI, em plena ditadura militar.

Mas foi somente dez anos depois dos acontecimentos que eu pude compreender melhor sua história, ao ler Vlado – retrato da morte de um homem e de uma época, do jornalista Paulo Markun, que foi amigo de Herzog. O livro mostra quem foi Vlado, por que ele foi preso e o que acontecia no DOI-CODI, revelando como sua morte repercutiu dentro dos altos escalões do governo.

A obra traz ainda depoimentos daqueles que conviveram, pessoalmente ou profissionalmente, com Herzog, e informações colhidas de documentos oficiais, como o IPM – Inquérito da Polícia Militar, e notas em periódicos.

Vlado foi militante do PCB - Partido Comunista Brasileiro (que no período da ditadura era proibido, mas existia clandestinamente) e lutava abertamente pela restauração da democracia no país.

Em 1975, ele era diretor de jornalismo da TV Cultura, de onde foi convocado pelos agentes do II Exército a prestar depoimento sobre as ligações que mantinha com o PCB. Herzog compareceu no dia 24 de outubro ao DOI-CODI, local onde foi torturado. Junto a ele estavam os jornalistas George Benigno Duque Estrada e Rodolfo Konder, que confirmaram o seu espacamento.

No dia seguinte, Vlado foi encontrado morto, em sua cela, tendo um cinto amarrado ao pescoço, sugerindo suicídio, por enforcamento. Os militares apressaram em divulgar a foto de Herzog sem vida para justificar a causa da morte.

A sociedade, no entanto, não aceitou a versão oficial e saiu às ruas para protestar, tendo em vista haver várias inverdades, como o fato dele ter se enforcado com um cinto, objeto que os prisioneiros não possuíam. As pernas, além disso, estavam dobradas e no pescoço apenas duas marcas de enforcamento, o que supõe que sua morte deu-se por estrangulamento.

Vlado era casado com a publicitária Clarice Herzog, com quem tinha dois filhos. Tendo passado por maus momentos após a morte do marido, Clarice conseguiu que a União fosse responsabilizada, de forma judicial, pela morte de Vlado. Contribuiu para isso a mobilização da sociedade brasileira e da imprensa que, incorformadas com o regime, aceleraram também o início das discussões pela redemocratização do país.

Trinta anos após a morte de Vladimir Herzog e vinte anos da publicação do seu livro sobre o amigo, Paulo Markun lançou mais uma obra relacionada ao caso: Meu Querido Vlado, - que conta a história de Herzog e do sonho de uma geração, sob um ponto de vista bastante pessoal, apresentando relatos emocionantes e surpreendentes desde a época do jornalismo na TV Cultura até o suicídio forjado pelo regime.

Hoje, passados 35 anos da morte de Vlado, o país respira aliviado por não viver mais em regimes ditatoriais, como aqueles dos anos de 1970. No entanto a população deve estar sempre alerta, cobrando de seus governantes o compromisso com a democracia, exigindo seus direitos e o respeito para com a liberdade de expressão.

E que nunca mais a população brasileira passe por momentos nebulosos como aqueles, tão bem retratados na música O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, especialmente na estrofe:

"Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil... "

Para saber mais sobre Vladimir Herzog, acesse http://vladimirherzog.org/