segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Crônica da tragédia na Boate Kiss

Há exatamente um ano a cidade de Santa Maria e o Brasil inteiro foram surpreendidos com a tragédia da Boate Kiss, onde 242 jovens morreram vítimas do incêndio que tomou conta da casa noturna. Passado o tempo, ninguém foi condenado, apesar da catástrofe não ter sido uma fatalidade. O local não tinha área de escape, os materiais eram inadequados e a boate nunca funcionou com todas as licenças em dia. Negligência e omissão do poder público. Vergonha e impunidade, sempre a mesma história.
 
Coincidentemente li, no início deste ano, uma crônica que expressa de forma pungente o significado dessa tragédia: O janeiro em que o Brasil me perdeu, assinada pelo jornalista Marcelo Canellas. Publicada em 28 de janeiro de 2013 no jornal Zero Hora, a crônica abre o livro Províncias: crônicas da alma interiorana, de Canellas, lançado em novembro do ano passado pela Editora Globo.
 
Com uma trajetória de mais de 25 anos como repórter, rodando pelo mundo, Marcelo Canellas testemunhou diversos fatos da nossa história, mas carregando sempre consigo aquela alma interiorana do Rio Grande do Sul. Nascido em Passo Fundo, ele morou e formou-se em Santa Maria.
 
No livro ele reúne 70 crônicas curtas em que a cidade transparece nos mais inusitados lugares em que esteve fazendo reportagens. Marcelo é um excelente observador da vida e traduz, com sua prosa poética fluida histórias afetivas de fatos que estão no cotidiano de todos nós. Talvez a melhor definição para ele seja a que ele próprio se atribui: “um repórter peregrino e um cronista provinciano”, capaz de expressar tão bem os sentimentos de cada um de nós, como naquela crônica sobre a tragédia na Boate Kiss.
 
Para que ela não caia no esquecimento e que os responsáveis sejam punidos, de forma que catástrofes como essa não voltem a acontecer, reproduzo abaixo a crônica O janeiro em que o Brasil me perdeu, de Marcelo Canellas:
 
“Eu hoje tenho 20 anos e quero me divertir. Meus pais estão dormindo em casa e amanhã haveria um churrasco. Eu tenho a vida pela frente e quero mudar o mundo. Mas também quero namorar, dançar, rir, andar a esmo com amigos nas lombas íngremes da minha cidade. Eu sou feito da bafagem úmida da Serra Geral, dos morros que circundam a Boca do Monte, do eco metálico dos trilhos de outrora, da lembrança ancestral da Gare onde meus avós trabalhavam. Ainda que eu não tenha nascido aqui, eu tenho o viço púbere do futuro. Eu posso ter vindo das barrancas de Uruguaiana, das campinas de São Borja, das grotas de Santiago do Boqueirão, das videiras de Jaguari, de São Pedro do Sul, São Sepé, São Gabriel, Dom Pedrito, de cima da serra, não importa. Santa Maria sou eu, cidade cadinho, generosa e aldeã, que nos pariu a todos em seu útero colossal.
 
Eu sinto o afago do vento norte, eu vejo anciãs tomando mate na janela e cadeiras nas calçadas da Vila Belga em uma tarde quente de janeiro. Eu tenho o lastro interiorano de minha cidade, mas também as narinas abertas, os ouvidos atentos, os sentidos despertos para o que enxergo na face jovem de uma urbe sempre aberta ao novo, cosmopolita e inquieta, convidando-me para a festa da vida. Por isso celebro, brindo, bailo. Tenho o frescor do campus em meus modos, a avidez universitária do saber. Recebo, faceiro e agradecido, convite do conhecimento, as portas do desconhecido a me cortejar. Como eu não quereria viver? Então entro numa boate e não tenho mais voz, não tenho mais planos, não tenho saída.
 
Rogo a todos os que andaram sobre os paralelepípedos da Rio Branco para me salvar. Quero correr e suplicar socorro a quem me possa acudir. A bênção, Carlos Scliar. A bênção, Raul Bopp. A bênção, velho Cezimbra Jacques, meu Prado Veppo, a bênção Felippe d’Oliveira. Iberê Camargo, tu que estudaste no Liceu de Artes e Ofícios, ali bem perto de onde a primeira faísca espocou, a bênção. A bênção, todos os artistas e poetas da Boca do Monte. Precisamos de vocês para explicar o sentido do inexplicável. Vocês, que tiveram tempo para luzir, expliquem-nos: por que temos de findar?
 
Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem meu pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil em luto. Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós.”

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