sexta-feira, 9 de abril de 2010

Cora Coralina

A poesia é uma das formas de expressão artística mais democráticas que conheço. Por meio dela, letrados ou não, intelectuais ou sem instrução, homens ou mulheres, jovens ou maduros utilizam dessa linguagem para manifestar as mais profundas emoções e sensações sobre a vida e o universo.


Exemplo de sensibilidade poética é Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, ou melhor, Cora Coralina, mulher simples, doceira de profissão, que faleceu há 25 anos, deixando um legado considerável à poesia brasileira. Sua obra poética é rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, principalmente dos becos e ruas históricas de Goiás, estado onde nasceu.


Cora escrevia com simplicidade e sem conhecimento das regras gramaticais, por isso mesmo a sua poesia valorizava mais a mensagem do que a forma. O reconhecimento do seu potencial poético por Carlos Drummond de Andrade tornou Cora conhecida no Brasil todo.


O pseudônimo (Cora Coralina) foi adotado quando ela completou 50 anos, período no qual diz ter passado por uma profunda transformação interior, definida mais tarde como "a perda do medo". Poemas dos Becos de Goiás foi seu primeiro livro, publicado pela Editora José Olympio, em 1965, quando ela já tinha 75 anos.


Em 1976 escreveu Meu Livro de Cordel, e em 1983 lançou Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha (Ed. Global).


Dois anos antes de morrer, em 1983, Cora Coralina foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira de Escritores.


Mais do que falar de Cora Coralina, vale ler e refletir sobre sua obra, como o poema “Saber viver”, transcrito abaixo:


Não sei... se a vida é curta...


Não sei...
Não sei...


se a vida é curta
ou longa demais para nós.


Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.


Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.


E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.


É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

No Mundo de Tinta

Em outubro de 2006, em uma comunidade sobre livros no Orkut, uma das integrantes citou uma obra com a qual se identificou de imediato, no exato instante em que a viu na estante de uma livraria.

O livro, contou Tex, chamou-lhe a atenção pelo nome gravado na lombada. Ela então o puxou e se encantou pela capa e disse que nem sequer o abriu, julgou a história pela ilustração e pelo título. Como era muito caro – afinal, era lançamento – não pode adquiri-lo na hora, então o procurou em um sebo pela internet e acabou comprando-o por um preço bem inferior.

Eram quase 400 páginas, mas que Tex leu em apenas seis horas, tão entretida que ficou pela narrativa. Depois de lê-la, disse ser aquela a história que desejava ter sido escrito por ela.

O livro? Bom... é Coração de Tinta, de Cornelia Funke, escritora alemã de literatura infanto-juvenil.

Quando li o post de Tex no fórum de discussão da comunidade, fiquei muito interessada e fui pesquisar o livro na internet. De fato, a capa era bastante sugestiva – e linda – e o título, muito sonoro. Imediatamente coloquei-o na minha lista, mas o tempo passou e não li. Quando em dezembro de 2008 foi lançado, no Brasil, o filme baseado no livro, tendo Brendan Fraser no papel principal, a obra foi reeditada, apresentando a capa com a imagem do cartaz do filme. Mas ainda não seria daquela vez que eu conheceria melhor a história, porque acabei não assistindo ao filme.

Quis o destino, porém, que Coração de Tinta viesse me cutucar mais uma vez. Sábado, dia 3, foi meu aniversário e, entre as surpresas reservadas para mim no dia, ganhei dos meus sobrinhos e da minha irmã o livro de Cornelia Funke, e o que é melhor, com a capa original, aquela que tanto encantou Tex em 2006.

Agora não tem desculpa, o livro alcançou o topo da minha lista, será uma das próximas leituras que farei e estou bastante ansiosa para começar, só não faço de imediato porque tenho de terminar outras leituras, por causa do meu TCC do curso da pós.

E sabe o que descobriu ainda? Que Coração de Tinta faz parte de uma trilogia, intitulada “Mundo de Tinta”. É o primeiro da série, seguido por Sangue de Tinta e Morte de Tinta. Os dois primeiros títulos já foram publicados no Brasil, apenas o último é que deverá ser lançado no segundo semestre deste ano, pela Companhia das Letras.

A trilogia trata de livros e de leituras e das consequências advindas se porventura personagens de um livro entrassem para o mundo real do leitor, misturando heróis e vilões.

A autora, Cornelia Funke, nasceu em 1958 e tornou-se escritora de best-sellers por acaso, na década de 1980. Ela começou como ilustradora de livros infantis (isso me lembra a minha amiga Simone, quem sabe ela não se aventure pelo mesmo caminho), formou-se em Pedagogia e na área de ilustração de livros. Mas o reconhecimento internacional só veio em 2000, com a publicação de o Senhor dos ladrões. Hoje, os livros dela são traduzidos em mais de 40 línguas. Chegou até a ser apelidada de "Joanne K. Rowling alemã", em referência a autora de Harry Potter, em razão do seu sucesso.

A literatura infanto-juvenil nunca esteve tão em evidência e em tão boas mãos. Sorte dos mais novos, mas sorte dos adultos também, que podem se deliciar com essas aventuras fantásticas e deliciosas, e sobretudo edificantes.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Impresso ou digital - a discussão apenas começou



As novidades são sempre boas, mas assustam, no início. Por vezes encontram resistência, são vistas pelo canto do olho e muitas demoram a emplacar. Com a exposição contínua, no entanto, aquilo que no princípio parecia estranho, torna-se corriqueiro e plenamente aceitável com o passar do tempo. Será que com o livro digital será assim, também? É o que tudo indica, e o vídeo acima, veiculado pelo Youtube, é uma pequena mostra disso por espelhar bem essa situação, fazendo um paralelo entre o mundo medieval e o pós-moderno.

Tomei conhecimento do vídeo, da TV norueguesa, veiculado pelo Youtube (veja endereço acima) na apresentação de Fredric Michael Litto, coordeanador científico da Escola do Futuro (USP) e presidente da Abed – Associação Brasileira de Educação a Distância, durante o 1º Congresso Internacional do Livro Digital, realizado de 29 a 31 de março, em São Paulo, uma promoção da Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Frankfurter Buchmesse e a Imprensa Oficial.

Embora não tenha tido contato, ainda, com o livro digital, já comentei no blog a minha preferência pelo livro impresso, mas não posso negar que as tecnologias são bem-vindas e devem ser difundidas, mesmo porque há espaço para todos. Por isso, fiz questão de acompanhar, na medida do possível, alguns debates desse congresso, que, sem dúvida, é um marco na trajetória editorial do Brasil.

Na abertura do evento, Juergen Boos, presidente da Feira do Livro de Frankfurt, destacou a importância da seleção do conteúdo, sobretudo agora com o livro digital. Disse ainda ser necessário “tentar e ousar no mundo digital, mesmo que enfrente dificuldades no início”, e enfatizou que “livros são experiências que transcendem o papel e que hoje a distribuição não é mais uma barreira, pois você pode vender um livro diretamente para uma pessoa do outro lado do mundo". Mas fez questão de ressaltar que “a leitura amplia horizontes, alimenta o raciocínio, muda a vida, forma cidadãos”.

Dividindo a mesa “O Livro do Futuro” com Anibal Bragança (coordenador do Núcelo de Pesquisas sobre Livro e História Editorial no Brasil/UFF), Cláudio de Moura e Castro (economista e colunista da Revista Veja) e Sérgio Valente (presidente da DM9DDB), Frederic Litto, que trouxe o vídeo “Helpdesk Medieval”, falou na sua apresentação que não há, ainda, um padrão dominante para livros digitais e que textos digitais gratuitos ou baratos crescerão, mas não os textos que precisam de intervenções, como as traduções. Todos, na mesa, foram unânimes em apontar a necessidade do livro se reinventar.

Na plateia, eu assistia a tudo impassivelmente, como se a realidade do livro digital ainda fosse algo bem distante da minha. Quando Cláudio de Moura e Castro começou a falar, no entanto, meus temores sobre a era digital se acenturam. Pela primeira vez ouvi alguém discutir não apenas filosofias, como gostar ou não do livro digital, preferir ou não o livro tradicional, mas apontar a questão econômica como um fator que impulsionará a difusão dessa tecnologia. E, embora mostrasse dados referentes ao mercado norte-americano, sobretudo com relação ao livro didático, Moura disse que o governo de estados como Califórnia, Flórida, Texas e Maine estão seriamente dispostos a adotar o livro digital nas escolas. A crise de 2008/2009 ainda não foi totalmente superada por lá.
Pesquisa
Outro dado interessante trazido ao evento foi a Pesquisa sobre o Hábito do Consumidor de Conteúdo Digital no Brasil, realizada pelo Observatório da Leitura, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro e a Imprensa Oficial. Apresentada por Galeno Amorim (diretor do Observatório do Livro e da Leitura) e Maurício Garcia (diretor do Centro de Estudos e Pesquisas do Observatório do Livro e da Leitura), a pesquisa apontou que "o Brasil tem 95 milhões de leitores, sendo que cada brasileiro lê em média 4,7 livros por ano. Um total de 77 milhões não têm hábito de ler livro algum. Em relação a livros digitais, 3% disseram já ter tido acesso.

Uma outra pesquisa sobre conteúdo digital foi realizada com um grupo de leitores de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife. Esses leitores, de 16 a 40 anos costumam frequentar livrarias e pertencem as classes A e B. Eles consideram a livraria o principal canal de distribuição e gostam muito de Megastores. As mulheres costumam comprar por impulso enquanto os homens pesquisam o preço nas livrarias para depois decidirem pela compra no local ou pela internet. A princípio, o livro dentro de um computador ou notebooks foi rejeitado por problemas com luminosidade, bateria, dificuldades para anotações e impressão.

Quando foi apresentado um e-reader, a maioria dos entrevistados achou o aparelho leve, fácil de operar, com bom apelo ecológico e boa capacidade de armazenamento. Mas disseram que não comprariam por enquanto, porque outros irão surgir nos próximos meses, com muito mais aplicativos.
Com relação à pergunta: Você pretende comprar livros digitais? Quase a totalidade dos entrevistados respondeu que NÃO. A principal alegação foi a de que o que está na internet é gratuito. Assim como com as músicas, a opção será baixar de algum lugar. Os entrevistados disseram que só comprariam livros digitais, se as editoras apresentarem novos atrativos".

O congresso contou ainda com a participação de outros palestrantes nacionais, como Guy Gerlach, Silvio Meira, Marcílio Pousada, Hubert Alquéres e Jorge Carneiro, além dos internacionais, como Jeff Gomez, Calvin Baker, Patricia Arancibia, Arantxa Mellado, Michael Smith, Diane Spivey e Pablo Francisco Arrieta. Este último, lembrou que ninguém vai matar o livro e que lutará até o fim da vida por ele. “Mas, agora, o leitor é dono do universo e pode fazer coisas incríveis. Os impressos deverão ficar mais bonitos para concorrerem com os digitais”.

As plataformas podem ser diferentes, mas sobreviverão juntas por muito tempo ainda.

* A foto é de Cleo Velleda.

terça-feira, 30 de março de 2010

História de lar

Eu não tenho certeza quando foi, mas acredito que há quase um ano voltei a minha atenção para livros infantis e percebi, com apreensão, que a maioria deles eu não havia lido, sem falar dos novos, publicados rotineiramente. Mas nada que não pudesse ser corrigido, assim, venho intercalando minhas leituras habituais com essas obras infanto-juvenis, extraindo delas imenso prazer.

A mais recente leitura, voltada para o universo infantil, mas que também encontra espaço no mundo adulto, foi o clássico O Vento nos Salgueiros, do escritor inglês Kenneth Grahame. Escrito inicialmente em forma de cartas para o filho, o livro de Grahame ganhou uma versão no teatro com a peça Toad of Toad Hall, adaptada pelo roteirista A.A. Milne.

Não conhecia o livro e só vim a tomar conhecimento dele em 2008, quando li Os Livros e os Dias, obra de Alberto Manguel, escritor argentino naturalizado canadense. Misturando memória com crítica literária, Manguel, narra as 12 releituras feitas no período de um ano, dedicando a cada uma um mês. Mais do que resenhas, o escritor entremeia fatos do cotidiano com as passagens dos livros lidos. E, entre as obras comentadas por ele, O Vento nos Salgueiros me chamou bastante a atenção por ter relação com lar, casa, amizade, família. Lembro que, na época, cheguei a anotá-la para ler oportunamente.

O tempo passou, minha lista de livros a ler só fez crescer, e aquela obra ficou perdida no meio de tantos outros títulos. Este ano, porém, ao ler Uma Mente Inquieta, de Kay R. Jaminson, já comentado nesse blog, vi mais uma referência a O Vento nos Salgueiros. Era um dos livros infantis que Kay, já no auge da sua doença maníaco depressiva, voltava com maior frequência e no qual se sentia dominada. A leitura, diz ela, por vezes era pontuada por choros e mais choros, sobretudo no trecho em que a Toupeira, um dos personagens, lembrava e descrevia sua casa:

“Recentemente, apanhei meu exemplar de The Wind in the Willows, que ficou na estante sem ser tocado desde que recuperei minha capacidade de ler, e tentei detectar o que foi que provocou uma reação tão dilacerante. Depois de uma breve busca encontrei a passagem que estava procurando. A Toupeira, que há muito tempo estava afastada da sua casa subterrânea, explorando o mundo da luz e da aventura com seu amigo Ratinho, está passeando numa noite de inverno e de repente, com a lembrança com força total, sente o cheiro da sua velha casa. Desesperada para revisitá-la, ela luta para convencer o Rato a acompanhá-la” – escreve Kay.

– Por favor, Ratinho! – implorou a pobre Toupeira, com o coração angustiado. – Você não está entendendo! É a minha casa, minha velha casa! Acabo de sentir seu cheiro, e ela fica por aqui, bem pertinho. Eu preciso ir lá, preciso, preciso! Ai, Ratinho, volte! Por favor, volte aqui!

Kay diz que nesse ponto da leitura, lembrou “com exatidão e com uma força visceral do que eu havia sentido ao ler o trecho pouco tempo depois de ter começado a tomar lítio: eu sentia falta de casa, da minha mente, minha vida de livros e do ambiente amigo, meu mundo, no qual a maioria das coisas tinha seu lugar e no qual nada de terrível conseguia penetrar para causar destruição”.

Foi o bastante para mim. Eu não podia mais adiar a leitura de O Vento nos Salgueiros, era chegada a hora. E foi com grande satisfação que mergulhei na leitura, me encantando e me divertindo com a trama toda. A história foca quatro personagens: Toupeira, Rato, Sapo e Texugo, animais aos quais são atribuídas características humanas. A trama é permeada por misticismo, aventura, moral e camaradagem.

Dos personagens gostei mais do Toupeira, pela coragem em deixar a casa, sair para a aventura, querer conhecer outros lugares e pessoas, ser amável e valente. O Rato também merece um à parte, pela docilidade, companheirismo e disposição para a aventura. O Texugo é um sábio, já o Sapo é o personagem mais controverso: aventureiro, inconsequente, presunçoso, mas de bom coração.

A passagem que Kay Jamison descreve no seu livro, é, de fato, a mais marcante do livro. Deixo aqui mais um trecho, aquele em o Toupeira reencontra seu lar, para encerrar assim esta reflexão:

Mas antes de fechar os olhos deixou-os passear pelo seu velho quarto, amolecer na chama da lareira que brincava com coisas que haviam sido parte inconsciente dele, e que agora o recebiam de volta sorridentes, sem rancor. Estava exatamente no estado de espírito a que o habilidoso Rato trabalhara para conduzi-lo. Via claramente quão despojada e simples, quão acanhada, mesmo, era a sua casa; mas via claramente, também, o quanto significava para ele, e o valor especial que tinha um porto como aquele na vida de alguém. Não queria de maneira nenhuma abandonar sua nova vida e seus espaços incríveis, virar as costas ao sol, ao ar puro e a tudo o que ofereciam e engatinhar de volta para casa e ficar quieto; o mundo lá de cima era forte demais, ainda o atraía, mesmo estando ali embaixo, e sabia que teria de retornar ao palco principal. Mas também era bom pensar que tinha para onde voltar, este lugar que era todo seu, estas coisas que estavam tão alegres de vê-lo novamente e com as quais podia sempre contar para as mesmas sinceras boas-vindas.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ele, agora, é uma estrela


Para Roger:

“Cães não precisam de carros luxuosos, casas grandes ou de roupas chiques. Água e alimentos já são o bastante. Um cachorro não liga se você é rico ou pobre. Esperto ou não. Inteligente ou não. Dê o seu coração e ele dará o dele. De quantas pessoas podemos dizer o mesmo? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puras e especiais? Quantas pessoas nos faz sentir...extraordinários?" (John Grogan – Marley & Eu).

quarta-feira, 24 de março de 2010

Cães

Sempre que vou ao Sesc, para as aulas de yoga, fico na expectativa das leituras que posso fazer depois da prática. Como a aula é bem cedo e entro mais tarde no trabalho, tenho um bom tempo livre entre uma atividade e outra, mais ou menos uma hora e meia. Assim, aproveito esse tempo para ir até a sala de leitura do Sesc e ficar lá lendo revistas, jornais e os livros que me acompanham diariamente.
O momento é único e tenho encontrado grande prazer nele. Na verdade, até anseio por ele. Nestes últimos dias, porém, não estou conseguindo relaxar e tirar proveito desses instantes agradáveis, embora fugazes. Seja por não ter ido ao Sesc, seja por não me concentrar no prazer das leituras. Infelizmente, a vida nos prega muitas peças e, vez por outra, nos vemos cercados de preocupações e problemas.

Roger, meu cãozinho, está doente e tem me inquietado muito. Quase que diariamente preciso levá-lo à veterinária, uma vez que seu estado demanda cuidados extras. Talvez a cirurgia seja uma alternativa, mas tomar uma decisão diante de um animal de estimação, que já é parte integrante da família, não é tão simples assim. Tudo o que quero é que ele não sofra e fique bem. Isso até me faz lembrar da frase que a dona do Pet Shop me falou quando foi diagnosticada a doença dele:

– Era tão bom quando eles vinham aqui só para tomar banho.

Hoje, Roger ficou sob os cuidados da minha sobrinha, encarregada, no meu lugar, de levá-lo à veterinária para tomar soro. Com a folga pude voltar para a minha yoga e a sala de leitura. Mas a concentração passou longe e tudo ao redor girava em torno do meu cão. Na bancada com as revistas, duas publicações lembraram-me dele: A National Geographic Brasil, cuja capa da edição de março trazia a vira-lata Moqueca, chamando o leitor para a extensa matéria sobre esses velhos companheiros, e a Galileu, que estampava um cão com um olho claro e outro escuro na capa, acima da manchete A Ciência revela – Como ele vai ser no futuro.

Então, deixei tudo de lado e peguei as duas revistas para folhear e poder ler rapidamente as matérias. Em uma delas, até, havia referências a livros com histórias de animais e a relação com o homem. Um deles fiz questão de anotar para, mais para frente, procurar e ler: Timbuktu, do escritor norte-americano Paul Auster. O livro é um misto de fábula e romance, que narra a amizade entre um vira-lata (Mr. Bones) e um poeta indigente semilouco (Willy). Juntos, eles perambulam por um mundo que não tem lugar para eles. A história é vista pelos olhos e os pensamentos do cão.

Claro, não pude deixar de me emocionar e de me sentir tocada. É óbvio que alusão a cães remeteu-me novamente ao Roger e não consegui mais prosseguir com a leitura. Arrumei minhas coisas, levantei-me e fui embora.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Quantos livros por mês?

Acredito que todo leitor que se preze sente, vez por outra, uma angústia lancinante por não conseguir ler tudo aquilo que gostaria de ler. Alguns até conseguem empreender um ritmo mais veloz às suas leituras, outros, no entanto, são mais vagarosos – eis o meu caso. Daí a inquietação que sinto quando, diariamente, me deparo com novas possibilidades de leituras reclamando um lugar na minha extensa lista de livros a ler neste e nos próximos anos. A propósito disso, já refiz a lista inúmeras vezes. Só hoje, umas três.

Essa ansiedade, às vezes, atrapalha, porque ao invés de saborear, apreciar ou deleitar as leituras, fico me perturbando com a não leitura. Não deveria ser assim. Porque penso, também, que o mais importante não é ler este ou aquele livro, ou então a quantidade de livros lidos, mas sim aquilo que se apreende e vive em cada leitura.

Lembrando ainda da entrevista de Umberto Eco ao Sabático, quando um visitante olha para a coleção de 30 mil volumes da biblioteca do escritor em Milão e lhe pergunta se já leu todos aqueles livros, ele responde de duas maneiras: "Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade" – e – "Não li nenhum, se não, por que os guardaria?".

A resposta de Eco me tranquiliza, assim como o post do escritor e crítico literário, José Castello, na abertura do seu blog (http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/): “a idéia é falar não só dos livros que me chegam e que, com frequência, me escapam. Mas também dos livros que li e que, porque me deixaram fortes marcadas, nunca me abandonam”.

Penso que Castello quis dizer que há livros que ele não leu, mas em contrapartida há os que ele leu e lhe causaram um grande impacto. Assim, o que importa mesmo é a maneira como nos relacionamos com os livros e como a leitura desses livros transformam as nossas vidas.

Toda essa reflexão surgiu depois que vi a enquete “Quantos livros por mês” da Livraria da Folha. O texto explicativo fala que o livro Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, de Stephen R. Covey, recomenda ler um livro por semana (quatro obras por mês). Daí a indagação: qual é a sua média de leitura? Para conferir acesse http://polls.folha.com.br/poll/1007702/

A minha média é dois livros por mês. Pouco? Pode ser, e é claro que gostaria de ler muito mais, mas este é o meu ritmo. A ansiedade persiste, mas aos poucos vou dominando. Se conseguirei ler todos os livros que quero ou não, isso eu ainda não sei. Acho que sempre haverá o que ler e quer saber? Graças a Deus!