
Eu não sei porque resolvi ler Marley & Eu, de John Grogan. Não é que eu não gosto de animais, ainda mais em se tratando de cães, muito pelo contrário. Gosto demais, mas é que sempre sofro quando leio essas histórias, então procuro evitar. Seja como for algo me fez ler, ainda bem.
Claro, sofri, chorei, me descabelei, mas também vibrei, sorri, me diverti. Somando os prós e contras, acho que ganhei mais do que perdi, se é que a gente perde alguma coisa quando lê um livro.
Para quem tem um animalzinho de estimação, principalmente cães, a identificação com a leitura deve ter sido fácil, e comigo não foi diferente. As peripécias de Marley contadas com humor no livro lembraram muito o meu cãozinho Roger, sobretudo sua indisciplina para ser treinado (se bem que nunca tentamos pra valer), seu temor com tempestades e sua gana e prazer em destruir sofás (só em casa foram dois).
O livro é um deleite, leve, descontraído, emocionante, mas é óbvio que no final quase não consegui terminar a leitura. É que as lágrimas insistiam em embaraçar minha vista e eu não podia continuar lendo. Tinha de parar, dar um tempo e tentar recomeçar. Acho que fiz isso umas três ou quatro vezes, sem sucesso, até que por fim consegui. E foi inevitável não pensar no meu cão e na sua partida, um dia.
Roger chegou em casa numa manhã de novembro. Mas para falar dele é preciso primeiro contar a história do Rodin, um outro cão que eu tive, dado a mim, ainda filhote, pela minha amiga Silvia. Era um poodle todo branquinho, lindo, esperto, carinhoso, meigo. Uma graça.
Quando ele veio, já fazia um bom tempo que não tínhamos a companhia de um cão na família e a empatia foi imediata. Era muito gostoso voltar para casa e encontrar ele todo serelepe esperando, fazendo aquela festa. Mas quase um ano após sua chegada, todo esse encanto acabou, de repente. Foi no feriado de 7 de setembro, quando voltávamos do nosso passeio matinal, e por um descuido meu deixei a coleira que prendia ele escapar das minhas mãos no momento em que passava um caminhão pela rua. Metido a valentão, ele correu latindo para ir atrás do veículo e acabou morrendo atropelado. Foi um baque enorme. Me senti mal, culpada, arrasada, uma dor insuportável. A casa ficou silenciosa, evitávamos falar no assunto uns com os outros. Estávamos todos tristes e chocados, dia após dia.
Certa noite, lembro, sonhei com Rodin entrando em meu quarto e se postando ao lado da minha cama, onde eu estava deitada. Esperava o meu afago e o consentimento para subir ali, como fizera tantas vezes. Eu então olhei para ele, sorri e falei:
– Rodin, você voltou!
Mas logo acordei.
Quase dois meses depois, no dia 13 de novembro, uma manhã de sábado, destes que a gente quer ficar mais tempo na cama, só de preguiça, fomos acordados com a campanhia tocando. Como morava em um sobrado e meu quarto ficava de frente para a rua, fui até a sacada para ver quem era. Para minha surpresa, era o meu vizinho.
– Olha, vocês perderam um cachorro faz pouco tempo. Tem outro aqui na sua porta.
Quando eu olho para a entrada vi um cão parecido com um poodle, só que maior, com os pêlos grandes, todo grudento e sujo, deitado confortavelmente no degrauzinho da porta. Logo descemos para vê-lo de perto e assim que a porta se abriu ele entrou, sem cerimônia.
A dúvida era o que fazer com ele. Eu, minha mãe e meu sobrinho ficamos reticentes; minha irmã e minha sobrinha, no entanto, logo quiseram ficar com ele. Apesar do seu mau aspecto, não parecia um cão de rua, talvez estivesse perdido ou então, quem sabe, fora abandonado. A primeira providência que tomamos foi levá-lo ao Pet Shop para uma boa tosa, banho e consulta com o veterinário, enquanto decidíamos se ficaríamos ou não com ele. Na verdade, eu não me sentia ainda à vontade para ter outro cachorro, mas por outro lado pensava que Deus o colocara no nosso caminho para amenizar o nosso sofrimento.
No Pet Shop, o veterinário confirmou que aparentemente ele não tinha nenhum problema e que poderia ter uns dois anos. Então, o trouxemos de volta para casa e acabamos ficando com ele, dando-lhe o nome de Roger, como o do vocalista do Ultraje a Rigor.
A adaptação foi sendo feita aos poucos. A princípio ele era arisco, mas com o passar do tempo, muita paciência e amor conseguimos vencer os bloqueios.
Passados alguns dias, estava com Roger no Pet Shop quando uma senhora se aproximou e disse que ele se parecia com um cachorro que ela tinha visto umas semanas atrás, mais ou menos pela época em que Roger apareceu em casa.
– Foi na Celso Garcia, ele estava zanzando pela avenida. Vi quando alguém parou com o carro e o colocou fora.
A tal avenida ficava perto da casa onde eu morava e Roger, depois de conseguir atravessá-la, caminhou até parar na minha porta.
– Puxa, ele teve muita sorte de ter encontrado vocês – ela me disse.
Pois é, hoje, dez anos depois, Roger ainda está em casa, por isso considero esta data como a do seu nascimento. E em todo esse tempo de convivência, ele já acompanhou boa parte da nossa vida, participando dos momentos alegres e tristes, da mudança de casa e de bairro, das festas natalinas e de final de ano, dos infortúnios e perdas que sofremos, das nossas conquistas e vitórias. É, é claro, também nos ensinando muita coisa. Com ele aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas e que não é preciso muito para ter paz de espírito, basta uma volta pelo quarteirão, uma brincadeira no sofá de casa, um gostoso afago atrás das orelhas.
Pensando bem, nós é que tivemos sorte dele ter parado na nossa porta. Roger, na verdade, é um presente que Deus enviou para alegrar minha família.